Volta chegou agora a Portugal. Saiba que países europeus usam o sistema há décadas
O novo Sistema de Depósito e Reembolso (SDR), conhecido como Volta, começou a funcionar em Portugal em abril e tem sido acompanhado por muitas dúvidas e outras tantas críticas. Não obstante, sabia que Portugal não está a testar este modelo sozinho?
Com muitas dúvidas e críticas em cima da mesa, importa referir que Portugal não está a testar o sistema Volta sozinho. Ainda que sob nomes diferentes, os sistemas de depósito e retorno, conhecidos pela sigla SDR, em português, já existem há décadas em vários países europeus e continuam a ser implementados noutros.
Assim sendo, o caso português deve ser inserido nesse contexto mais amplo. Ou seja, a experiência de outros países não prova que o Volta vai funcionar bem, mas permite perceber que este tipo de processo passa por uma fase de maturação que deve ser tida em conta.
Um modelo que já existe há décadas
Conforme mostrado por um mapa interativo, há países com SDR em funcionamento desde os anos 1980 e 1990, enquanto outros só recentemente deram esse passo, como Portugal, que entrou neste grupo em 2026.
A Suécia começou a aplicar o seu sistema a latas em 1984, a Islândia em 1989 e a Noruega em 1999. Outros países, como a Alemanha, Dinamarca, Croácia e Lituânia avançaram posteriormente com os seus próprios modelos. Mais recentemente, Irlanda e Áustria juntaram-se a esta tendência.
Isto significa que o Volta não representa uma experiência isolada ou uma solução inventada para o mercado português. Na verdade, é a versão nacional de um conceito que já faz parte das políticas de gestão de embalagens de vários países europeus.
Não existe um “modelo europeu” único
Apesar do objetivo comum, importa ressalvar que os SDR (ou DRS, na sigla em inglês) da Europa não funcionam todos da mesma maneira.
Os países diferem nos materiais abrangidos, no valor do depósito, nas formas de devolução das embalagens, na rede de pontos de recolha e na organização do sistema. Além disso, há diferenças significativas na maturidade de cada programa.
A experiência europeia mostra que os SDR podem atingir taxas de recolha bastante elevadas. Segundo os dados compilados pela Sensoneo, empresa tecnológica europeia especializada em gestão inteligente de resíduos, que desenvolve soluções digitais para otimizar a recolha, monitorização e tratamento de resíduos:
- A Finlândia registou uma taxa de recolha global de 96% em 2021;
- A Noruega de 92,3%;
- A Dinamarca de 93%;
- A Lituânia de 90%;
- A Croácia de 90,7%.
A Alemanha, cujo sistema funciona desde 2003 e inclui garrafas de plástico PET (polietileno tereftalato, um tipo de plástico muito utilizado na produção de embalagens), vidro e latas de metal, apresenta uma taxa de recolha de 98% para os materiais considerados.
Estes números ajudam a explicar por que razão o modelo ganhou espaço nas políticas europeias de economia circular. Ainda assim, a UNESDA, associação europeia que representa a indústria das bebidas, defende a utilização de SDR bem desenhados e aponta para taxas de recolha de plástico PET entre 65% e 95% nos países onde estes sistemas estão implementados.
Nem todos os sistemas estão na mesma fase de maturação
Exemplos mais recentes ainda não permitem tirar grandes conclusões. A Irlanda iniciou o seu sistema em 2024, a Áustria em 2025 e Portugal em 2026. Nestes casos, os primeiros meses ou anos correspondem a períodos de adaptação, nos quais consumidores, retalhistas, produtores e operadores têm de se adaptar a novas regras e processos.
Neste contexto embrionário, a experiência dos países que chegaram primeiro pode ser útil para que, em vez de questionar a eficácia do Volta português, percebamos como foi desenhado, que dificuldades surgiram, como foram resolvidas e que alterações foram introduzidas ao longo do tempo.
Em Portugal, onde o Volta foi implementado há apenas alguns meses, toda a cadeia pode beneficiar da experiência que já vai ganhando robustez pela Europa.
O que significa isto para o Volta?
O facto de existirem sistemas semelhantes noutros países europeus não invalida as críticas que estão a ser feitas em Portugal. Afinal, um sistema pode ser adequado e, ainda assim, ter problemas na sua implementação.
O Volta começou a funcionar a 10 de abril de 2026 e abrange garrafas e latas de bebidas de plástico, metal e alumínio até três litros, com um depósito de 10 cêntimos que é devolvido quando a embalagem é entregue num ponto de recolha.
Nos primeiros dois meses, a SDR Portugal anunciou a devolução de mais de 10 milhões de embalagens através da rede então disponível, num primeiro indicador de adesão.
Contudo, ainda é demasiado cedo para avaliar o desempenho global do sistema a longo prazo.
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