Geração do iPhone fez fila por um relógio de bolso: colaboração improvável esgotou em horas
Este fim de semana, foram muitas as pessoas que fizeram fila nas lojas Swatch de todo o mundo para comprar um relógio de bolso sem ecrã, sem notificações e sem ligação à Internet. A colaboração entre a Swatch e a Audemars Piguet (AP) gerou reboliço em Chicago, Londres, e até Porto e Lisboa, levantando uma questão pertinente sobre o que as pessoas procuram, atualmente, nos seus acessórios.
A coleção Royal Pop, desenvolvida em conjunto pela Swatch e pela AP, é composta por oito relógios de bolso em biocerâmica. Disponíveis em dois estilos, Lépine e Savonnette, são movidos por uma versão de corda manual do movimento SISTEM51, o mecanismo de assinatura da Swatch.
Do ponto de vista técnico, incorpora elementos visuais do Royal Oak da AP, como o padrão Petite Tapisserie, a moldura octogonal e os oito parafusos hexagonais, com dois cristais de safira e acabamentos que remetem claramente para a alta relojoaria.
Introducing Audemars Piguet x Swatch, a disruptive collaboration that fuses joyful boldness and positive provocation with the art of haute horlogerie. Stay tuned! #RoyalPop https://t.co/FuAWwOjGxl pic.twitter.com/xxOagVPT4r
— Swatch (@Swatch) May 8, 2026
A colaboração é improvável, pois, ao contrário da Omega, com quem a Swatch lançou o MoonSwatch em 2022, a AP não pertence ao Swatch Group.
Contexto da colaboração entre a Swatch e a AP
Para perceber a razão pela qual um relógio de bolso mecânico gerou este nível de entusiasmo em 2026, pode valer a pena olhar para o que aconteceu na última década.
Quando o Apple Watch chegou ao mercado, em 2015, a narrativa dominante era a de que o relógio tradicional tinha os dias contados. As vendas de relógios suíços sofreram uma queda real nos anos seguintes, e havia razões para acreditar que a tendência se manteria.
De facto, o smartwatch consolidou-se como ferramenta de monitorização de saúde, pagamentos e notificações. Contudo, o papel funcional acabou por libertar o relógio mecânico.
Em vez de disputar utilidade, o relógio tradicional reposicionou-se em torno de outros valores, nomeadamente o artesanato, a durabilidade, a identidade do objeto. Dois produtos que respondem a necessidades diferentes, usados muitas vezes pela mesma pessoa.
Conforme temos acompanhado, este movimento não é exclusivo da relojoaria. Nos últimos anos, o mesmo fenómeno tem surgido em vários setores onde o digital parecia já ter ganho.
- As vendas de vinil crescem há anos consecutivos;
- A fotografia analógica voltou a ter mercado relevante;
- O livro físico tem resistido ao e-book.
Em todos estes casos, o padrão é semelhante e mostra que a versão digital resolve a eficiência e a conveniência, enquanto a versão analógica passa a ser procurada por razões diferentes. Ainda que sejam motivações mais difíceis de quantificar, influenciam decisões de compra.
Quem está a comprar e porquê?
Um dos aspetos mais interessantes deste fenómeno é demográfico. O regresso ao analógico tem sido alimentado em grande medida por consumidores jovens, o mesmo grupo que cresceu com o smartphone como uma extensão de si.
Uma das explicações pode ser que, numa vida saturada de estímulos digitais, o objeto analógico funciona como uma espécie de contraponto. De facto, dar corda a um relógio ou colocar um rolo numa câmara são gestos lentos que existem fora da lógica do imediato.
A Swatch leu bem esta tendência não apenas uma vez, com o MoonSwatch, que esgotou em horas e criou um mercado secundário com preços muito acima do valor de venda, mas duas, com o Royal Pop a seguir a mesma lógica.
A vantagem, agora, reside na parceria com uma das marcas mais respeitadas da alta relojoaria mundial.

Em Times Square, nos Estados Unidos, as pessoas acumularam-se à porta para entrar na loja. Crédito: Getty Images, via Observador
Brincar entre o acessível e o aspiracional
A Royal Oak da AP custa facilmente mais de vinte mil euros. Por isso, a coleção Royal Pop coloca o ADN estético e técnico da marca num objeto com um preço radicalmente diferente, sem que nenhuma das partes pareça sentir que está a comprometer a sua identidade.
Por um lado, a AP mantém a seriedade técnica, com o compromisso de reverter a totalidade das suas receitas desta coleção para iniciativas de formação e preservação do savoir-faire relojoeiro. Por outro, a Swatch mantém a irreverência e a cor.
O resultado é um produto que combina duas linguagens que, normalmente, não dialogam.
Meet the Royal Pop Collection, a groundbreaking union of AP's iconic Royal Oak and Swatch's POP watches powered by a new, hand-wound version of SISTEM51. Available as of May 16, at selected Swatch stores worldwide. #RoyalPop pic.twitter.com/8fYwsUlgoA
— Swatch (@Swatch) May 12, 2026
O que é que este lançamento pode representar?
A Royal Pop não é uma ameaça ao smartwatch, nem tampouco uma alternativa. O que as filas do fim de semana podem sugerir é que existe um apetite real por objetos que existam fora da lógica da conexão constante.
Um relógio mecânico não fica desatualizado com a próxima versão do sistema operativo, envelhecendo de outra forma.
Num mundo onde tudo tende a ser serviço, subscrição ou versão intermédia de algo melhor que virá a seguir, parece haver qualquer coisa de reconfortante na ideia de um objeto que simplesmente funciona.
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Grande pinta! Adoro!
Anteriormente, “com o MoonSwatch [com a Omega], que esgotou em horas e criou um mercado secundário com preços muito acima do valor de venda” … agora repete, com “A Royal Oak da AP [que] custa facilmente mais de vinte mil euros”.
Não me parece que o interesse da rapaziada seja o regresso ao analógico, mas sim ganhar umas massas na revenda.
Geração do iphone?
o grupo de amigos do meu filho (uns 7 ou 8) todos têm android
imagino que seja genz, mas pode ser a geração do nintendo switch, do tiko tok, do penteado à bróculos…. dá para tudo…
Uso Portugieser. Mesmo mecanismo:
https ://ciechanow.ski/mechanical-watch/
Hahahaha……se eles não fossem uma cambada de burros ignorantes , saberiam que na China se fabricam relógios únicos , melhores que os mais caros da Suíça e a menos de metade do preço…..
Lá foi Jesus para o céu novamente! E desta vez, muito mais depressa. Este mundo esta cheio de doidos, nem com milagre ganham razão.
É tudo para o revenderem
Realmente existe gente muito estup***.
Serão mesmo? E que tal comprar meia dúzia deles, deixar esgotar e revender pelo dobro do preço? Há quem o faça… “E o burro sou eu?”
Porquê? O relógio só custa 50 €. Traz o encaixe e o cordão se alguém o quiser usar ao peito (pode ter saída entre as mulheres/raparigas) e um suporte para por na mesa. Não tarda (pago à parte, sai um encaixe para usar no pulso (pelas cores, também mais mulheres e raparigas).
Provavelmente quem vai para as filas é para revenda. Mas também dá uma prenda engraçada.
Perfeito para low-cost Hipsters.
Nem toda a gente está na disposição de pagar o que os eletrodomésticos da SMEG custam.
Quem gosta realmente de algo analógico sabe que por norma não impressiona os demais