Fábrica da Renault em Le Mans: o centro do seu know-how em chassis
Le Mans é, para muitos, sinónimo do lendário circuito das 24 Horas, uma das provas automóveis mais emblemáticas do mundo. No entanto, a apenas quatro quilómetros dessa pista mítica, escreve-se silenciosamente outra parte fundamental da história do automobilismo: a da fábrica do Renault Group especializada em chassis. Fomos lá e contamos tudo.
Um século de história industrial
A instalação industrial de Le Mans foi criada em 1920, tornando-se rapidamente uma peça importante da atividade do então jovem grupo automóvel francês.
Nos primeiros anos, a fábrica dedicava-se sobretudo a trabalhos de reparação, fabrico de estruturas em madeira e equipamentos agrícolas. Mas foi no pós-guerra, num contexto de profunda transformação da indústria automóvel, que a unidade encontrou aquela que viria a ser a sua vocação permanente: a especialização em chassis.
Durante as décadas seguintes, o local expandiu-se, modernizou-se e consolidou-se como referência dentro do Renault Group. Os anos 60 e 70 marcaram a chegada de tecnologias que se tornariam emblemáticas, desde a inovadora suspensão traseira por barras de torção do Renault 4 até aos discos de travão ventilados do Renault 17.
Já nos anos 80, a robotização das linhas de produção - com o Super 5 a beneficiar de um berço dianteiro totalmente soldado por robôs - representou uma verdadeira revolução industrial.
- Renault 17
- Renault 4
Ecossistema único: engenharia e produção lado a lado
O que torna Le Mans verdadeiramente especial é a integração entre engenharia, prototipagem, ensaios, industrialização e produção num mesmo perímetro. É raro, mesmo na indústria automóvel global, encontrar um local onde todas estas competências convivam de forma tão próxima.
Aqui, as equipas de engenharia podem testar soluções, validá-las nos bancos de ensaio, ajustar protótipos e transferir imediatamente o conhecimento para a fábrica, que os produz em larga escala.
Este ecossistema dá origem a um fluxo contínuo entre ideia, experimentação e produção, reforçando a agilidade e a capacidade de inovação. Atualmente, mais de 1800 colaboradores trabalham no complexo, que combina uma fundição integrada, oficinas de estampagem e mais de uma centena de linhas automatizadas.
Todos os anos, estas instalações produzem milhões de componentes essenciais, entre eles rotores de travão, eixos, suportes estruturais e subquadros.

A fábrica da Renault em Le Mans afirma-se como um polo industrial de nova geração, onde a robótica avançada e a inteligência artificial trabalham em conjunto para otimizar processos, elevar a precisão produtiva e preparar a indústria automóvel para os desafios do futuro.
Tecnologia e modernização contínua na fábrica da Renault
A década de 2010 marcou o início de uma forte transformação digital. A chegada de robôs dotados de visão 3D, sistemas de controlo de qualidade assistidos por inteligência artificial (IA) e o uso de realidade virtual para conceção e teste de postos de trabalho elevaram o nível tecnológico da fábrica.
Ao mesmo tempo, processos inovadores, como o tratamento a laser dos discos de travão, foram introduzidos para preparar o Renault Group para normas europeias cada vez mais exigentes, como a Euro 7.
Estas inovações não substituem o "saber-fazer" das equipas; reforçam as suas competências, melhorando a ergonomia, aumentando a precisão e contribuindo diretamente para a segurança e o conforto dos utilizadores finais.
E o que tem feito Le Mans no que toca a eletrificação?
A transição para a mobilidade elétrica trouxe novos desafios à conceção de chassis e, uma vez mais, Le Mans esteve na linha da frente.
Com modelos como o Renault ZOE, a fábrica começou a adaptar processos e equipamentos para lidar com novas arquiteturas, nas quais a bateria altera profundamente a distribuição de peso e as solicitações estruturais.

O complexo industrial da Renault em Le Mans é um pilar estratégico do grupo, ocupa 69 hectares, funciona como centro de excelência em sistemas de contacto com a estrada. A sua engenharia é responsável pela conceção e desenvolvimento dos eixos dianteiros e traseiros (entre outros) para todos os veículos do grupo, enquanto a fábrica produz componentes destinados a modelos térmicos, híbridos e elétricos das marcas Renault, Dacia, Alpine e parceiros.
Hoje, Le Mans está envolvida na produção de componentes chave para os modelos elétricos do grupo - incluindo o novo Renault 5, o Renault 4, o Mégane E-Tech, o Scénic E-Tech, bem como modelos da Alpine e a nova geração de veículos comerciais.
Paralelamente, o local prepara-se para tecnologias futuras, como direção e travagem "by wire" e chassis capazes de comunicar de forma inteligente com o ambiente envolvente.
Uma fábrica com impacto global
Embora esteja situada no coração de França, a fábrica de Le Mans é uma engrenagem global. Os componentes produzidos neste local abastecem não apenas outras fábricas francesas, mas também unidades de montagem espalhadas pela Europa, África e América do Sul.
Ao longo dos anos, Le Mans produziu chassis para modelos Renault, Dacia e até Nissan - demonstrando a importância deste centro no seio da Aliança.
Com mais de 100 anos de história, Le Mans afirma-se hoje como um pilar essencial do Renault Group e como um dos centros de excelência mais completos da indústria automóvel europeia. O seu contributo para a evolução dos chassis - do mecânico ao digital, do térmico ao elétrico - reflete a capacidade de adaptação de uma fábrica que nunca deixou de se reinventar.
Voltando às datas chave...
- 1920: Iniciam-se as primeiras construções e atividades na fábrica de Le Mans.
- 1955: OA fábrica começa a especializar-se na produção de componentes de chassis.
- 1999: É criada a estrutura Auto Châssis International, que reúne recursos de engenharia, fabrico e marketing para componentes de chassis, com o objetivo de diversificar a carteira de clientes.
- 2006: A fábrica volta a ter 100% de propriedade do Grupo Renault, focando-se em projetos para as suas marcas.
- 2008: A fundição beneficia de novas instalações automatizadas para reforçar a sua competitividade.
- 2015: É realizado um investimento superior a 10 milhões de euros para modernizar as linhas e automatizar os fluxos de trabalho.
- 2020: A fábrica celebra o seu 100.º aniversário.
- 2022: É lançado e obtido o processo de certificação energética ISO 50001.
- 2024: A fábrica produz, pela primeira vez, componentes para a Alpine, com o A290.
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Sempre gostei desses saídos fora do baralho como o R17. Em outra marca Francesa o Matra Bagheera com 3 lugares lado lado.