Como se constrói um carro para durar? A Renault mostrou-nos em primeira mão
Muito do que dá forma e personalidade a um carro é invisível aos olhos dos clientes. Para a Renault, importa que o condutor se sente ao volante de um carro e sinta a qualidade com que foi preparado para a estrada. O objetivo é ambicioso: "depois de cinco anos, o meu carro é novo". Fomos a Novo Mesto, na Eslovénia, onde nasce o novo Twingo E-Tech elétrico, testemunhar este compromisso.
Um mercado verdadeiramente complexo
O mercado automóvel, particularmente o elétrico, nunca esteve tão agitado nem foi tão imprevisível. A Europa, que durante anos foi palco quase exclusivo das marcas ocidentais, está agora a ser inundada por uma vaga de propostas chinesas com preços que são difíceis de ignorar.
Os nomes multiplicam-se nas feiras, nos stands e nas estradas, e os números refletem uma realidade de que as fabricantes tradicionais estão bem cientes: carros elétricos a entrar em segmentos acessíveis com preços que as fabricantes europeias não conseguem, pelo menos para já, igualar. Para o consumidor comum, a tentação é óbvia e compreensível.
O problema desta enchente é que o preço de entrada não conta a história toda. De facto, a grande incógnita das marcas chinesas no mercado europeu continua a ser a durabilidade, não tanto nos primeiros quilómetros, mas nos últimos.
As questões a que muitos ainda procuram responder estão relacionadas com os anos de vida de um carro que, como novo, promete o mundo. Contudo, não têm uma resposta suficientemente sólida, pois não houve ainda tempo para a obter.
O historial de longa data que marcas como a Renault acumularam durante décadas não se replica prontamente, e é nesse sentido que a Renault quer jogar as suas cartas.
Qualidade como principal argumento da Renault
Enquanto a concorrência asiática compete sobretudo pelo preço, a Renault aposta naquilo que acredita ser um dos maiores interesses dos clientes: "depois de cinco anos, o meu carro é novo".
Nas palavras da própria marca, o objetivo é que o condutor se sente ao volante cinco anos depois da compra e não sinta que o carro envelheceu.
Num mercado cada vez mais orientado para o imediato e para o descartável, esta promessa revela-se ambiciosa, mas comprometida. Afinal, a confiança a longo prazo pode ser o argumento mais poderoso de todos.
Para isso, a Renault investe de forma considerável nos processos de fabrico e controlo de qualidade, numa lógica em que cada detalhe, desde o comportamento da pintura ao longo do tempo até à forma como os interiores resistem ao uso diário, é pensado antes de o carro alguma vez chegar à estrada.
É esta filosofia que está na base do novo Twingo E-Tech elétrico, fabricado em Novo Mesto, na Eslovénia, e que representa, de certa forma, a resposta da Renault a um mercado que mudou mais nos últimos dois anos do que nas duas décadas anteriores.
Fábrica da Renault em Novo Mesto, na Eslovénia
Com quase 70 anos de história, a unidade produtiva da Renault em Novo Mesto é uma das mais experientes da marca. Fundada em 1955, começou a produzir automóveis Renault sob licença em 1972, com o icónico R4, e tornou-se oficialmente propriedade a 100% da Renault em 2004.
Ao longo das décadas, saíram das suas linhas modelos como o Renault 5, o Clio e várias gerações do Twingo, tendo dado o primeiro passo para a eletrificação em 2016 com o Smart ForFour elétrico.
Hoje, a fábrica é o ponto de partida do novo Twingo E-Tech elétrico. O futuro próximo traz ainda a produção de veículos elétricos do segmento A para a Dacia, consolidando Novo Mesto como um dos pilares estratégicos da transição elétrica do grupo Renault.
"Quality is not a question of talk, is a question of act"
A garantia da qualidade é, por natureza, um processo silencioso, mas atravessa absolutamente tudo: a forma como as peças são selecionadas, como a linha de montagem é supervisionada, como os materiais envelhecem, e como o cliente é tratado quando, mesmo assim, algo corre mal.
Conforme testemunhámos, em Novo Mesto, o trabalho é ininterrupto, começando muito antes de o carro existir e continuando muito depois de ter sido vendido. Para quem compra um carro, esta dimensão é praticamente impercetível, e o objetivo é que nunca haja razão para ela ser notada.
A qualidade não é uma questão de palavras, mas sim de ações.
Disse Thierry Charvet, diretor de Indústria, Qualidade e Cadeia de Abastecimento.
De facto, o investimento consistente da Renault na melhoria da qualidade ao longo dos últimos anos traduziu-se numa redução de 50% nos incidentes registados dentro da garantia entre 2021 e 2025, um resultado que não é fruto do acaso, mas de um esforço deliberado e transversal a toda a empresa.
Cada processo de validação contribuiu para este resultado, que representa menos problemas para os clientes e mais confiança na marca.
Do início ao fim, em apenas 21 meses
Atualmente, sai da fábrica de Novo Mesto o Clio 5 e o novo Twingo, a promessa da marca francesa para a democratização da mobilidade elétrica, com uma pitada generosa de nostalgia.
Focando no novo Twingo E-Tech elétrico, o seu desenvolvimento não foi apenas um exercício de design e engenharia, mas um teste, bem sucedido, segundo a Renault, a uma nova forma de trabalhar.
O processo desde a conceção até à produção final foi concluído em apenas 21 meses, um recorde para a Renault e um objetivo que a marca pretende agora tornar referência para todos os seus projetos futuros.
Este número resultou de uma abordagem assente em três pilares:
- O ecossistema de fornecedores foi preparado e integrado muito mais cedo do que o habitual, com acordos estabelecidos numa fase inicial. Esta antecipação permitiu eliminar atrasos e garantir que todos os intervenientes trabalhavam alinhados desde o primeiro momento.
- Uma aposta clara na antecipação e na validação física dos componentes em fases mais precoces do desenvolvimento.
- Uma melhoria significativa das ferramentas digitais utilizadas ao longo de todo o processo.
Em conjunto, estas mudanças permitiram que os problemas fossem identificados e resolvidos muito antes de chegarem à linha de montagem, acelerando tanto a fase de testes como a transição para a produção em massa.
O resultado é um carro que chegou à estrada mais depressa, sem abdicar dos padrões de qualidade que a marca considera inegociáveis, e um modelo de desenvolvimento que a Renault quer agora replicar em toda a sua gama.
Por dentro da fábrica que dá vida ao novo Twingo
Conforme pudemos testemunhar, a fábrica de Novo Mesto funciona como um organismo altamente coordenado. Todos os dias, 85 camiões chegam às instalações com os componentes necessários para manter a linha de produção em movimento, num fluxo logístico notável.
O complexo divide-se em quatro edifícios onde trabalham cerca de 1600 funcionários, cada um com um papel bem definido numa cadeia que transforma matéria-prima num automóvel pronto a circular.
A carroçaria ganha forma num edifício de dois pisos, o Body Shop, onde os robôs assumem praticamente todo o trabalho, sendo responsáveis por 97% das operações, coordenadas por funcionários humanos experientes.
Nesta área, uma das máquinas da fábrica é capaz de trabalhar para até quatro plataformas diferentes em simultâneo, o que confere uma flexibilidade considerável ao processo, ainda que em Novo Mesto, neste momento, sejam utilizadas apenas duas.
O Twingo beneficia ainda do facto de partilhar componentes com outros modelos da Renault, o que simplifica a logística e acelera a produção.
Toda a estrutura dos veículos é verificada por câmaras que monitorizam continuamente o processo, garantindo que cada carroçaria que avança na linha cumpre os padrões definidos.
Na linha de montagem, trabalham cerca de 500 operadores, dos quais 30% são mulheres, um número que reflete um esforço consciente da fábrica para diversificar as suas equipas.
Um dos elementos mais interessantes desta secção é o sistema VISION, uma solução de Inteligência Artificial com duas câmaras que assume integralmente a inspeção das portas de cada veículo, detetando imperfeições como arranhões em fotografias tiradas de quatro em quatro milissegundos.
Este é o tipo de precisão que o olho humano dificilmente conseguiria garantir com a mesma consistência ao longo de um turno inteiro.
A qualidade é, também, reforçada por uma política de especialização controlada: cada operador está habilitado a trabalhar apenas em duas ou três estações, o que aprofunda o conhecimento e reduz a margem de erro.
Antes de chegar à linha, todos passam por vários dias de formação, sendo o último realizado já em contexto real de produção.
A supervisão de tudo isto ganhou uma nova dimensão em setembro de 2025, com a instalação do sistema Plant Connect, que liga a fábrica de Novo Mesto a todas as outras unidades produtivas da Renault no mundo.
No centro desta infraestrutura está uma visão 360 graus sobre o estado de cada fábrica em tempo real, gerindo diariamente cinco mil milhões de dados que são apresentados numa dashboard centralizada.
Para cada unidade, a sala mostra indicadores como o número de carros produzidos e eventuais anomalias nos vários parâmetros do veículo, permitindo uma resposta rápida a qualquer desvio.
Pelo que vimos, a tecnologia trabalha em silêncio, mas reflete-se em cada carro que sai da fábrica de Novo Mesto.

A sala Plant Connect liga a fábrica de Novo Mesto a todas as outras unidades produtivas da Renault no mundo.
Twingo reflete a abordagem da Renault para a durabilidade
Para a Renault, a qualidade para a durabilidade exige submeter cada veículo a condições que testam os seus limites de formas que a maior parte dos condutores nunca irá experienciar, mas que garantem que o carro está preparado para o que a vida real tem para oferecer, desde chuva intensa, estradas cobertas de gravilha, poeira, passagens por água profunda, entre outras.
A fiabilidade e a durabilidade são palavras de ordem que orientam cada decisão de engenharia e cada protocolo de validação, segundo a própria marca.
A isso acresce a possibilidade de atualizações over-the-air, que permitem corrigir bugs e introduzir melhorias no software do veículo ao longo do tempo, garantindo que o carro não fica desatualizado à medida que os anos passam.
Curiosamente, há uma dimensão dos testes que vai além dos protocolos técnicos e que revela uma consciência clara de que "há tantas maneiras diferentes de conduzir um carro", segundo Antoine Sillard, diretor de Qualidade Industrial e Investigação de Incidentes do Grupo Renault.
A marca francesa percebeu que, por mais rigoroso que seja um programa de validação formal, há situações do quotidiano que só surgem quando alguém conduz o carro como conduziria o seu próprio.
Por isso, a marca pede aos seus próprios colaboradores que testem os veículos em contexto real, nas suas rotinas diárias, desde ir ao trabalho até ir à padaria, por forma a detetar comportamentos e imperfeições que os testes convencionais não detetam.
Uma abordagem aparentemente simples, mas tremendamente eficaz, segundo a Renault.
Em 2025, por exemplo, cerca de 1400 pessoas da empresa participaram neste esforço, percorrendo no total nove milhões de quilómetros ao volante dos veículos em teste. São nove milhões de quilómetros de estradas reais, de conduções reais, de situações que nenhum engenheiro conseguiria replicar num laboratório.
O que fica depois da visita à fábrica de Novo Mesto
Sair da fábrica de Novo Mesto com a ideia de que a Renault persegue a perfeição absoluta seria uma leitura errada da visita. Numa honestidade que nos soou refrescante, a marca não fez essa promessa.
Zero defeitos não é a vida real.
Admitiu Thierry Charvet, assegurando, no entanto, que a marca procura fazer de tudo e melhorar a cada dia para garantir o máximo de qualidade possível.
Em vez de enfraquecer a mensagem, esta postura torna a ambição de qualidade mais credível, porque reconhece a complexidade do que é construir um automóvel, ao mesmo tempo que demonstra um compromisso em empurrar os limites do que é possível fazer bem.

Ao longo da visita, ficou claro que a qualidade não é um departamento nem uma fase isolada do processo, mas uma cultura transversal.
Num mercado cada vez mais ruidoso, onde as promessas abundam e os preços baixos conquistam facilmente a atenção, a Renault admite, pelas vozes de quem coordena as suas equipas, em Novo Mesto, continuar a escolher o caminho mais exigente.
Se o objetivo de "depois de cinco anos, o meu carro é novo" é ou não alcançado, só os clientes poderão confirmar, quilómetro a quilómetro.
Contudo, a visita a Novo Mesto deixou claro que o esforço para lá chegar é real, estruturado e levado a sério.
























Eu tenho 17 Renault’s, no ano passado em renovação de frota vendi um com mais de 500 mil kms! E este ano tenho outro igual já com 19 anos, é só fazer revisões a tempo e horas (que faço na marca) e encher o depósito!
Estou muito satisfeito com a marca
Nós sabemos que a Renault é uma marca fiável…. Mas questionar se passados 5 anos ainda temos um carro novo???? Mal estávamos! Embora tudo dependa da forma como o veículo é tratado. Por vários motivos, a idade de um carro não é tudo. Muita gente com poder de compra, adquire carros novos, escafiam o veículo todo e depois colocam à venda, com os problemas bem escondidos… Por isso sou apologista que todas as oficinas deveriam ser obrigadas a colocar num registo nacional, todas as intervenções/reparações efetuadas num veículo, com relatório pré e pós reparação…. Muitas pessoas não se desviam dos buracos. No verão, com temperaturas de 40 graus, sem trânsito à sua frente a circular a 30/40kmh (basta circular a 60kmh e a temperatura do motor fica logo mais equilibrada).
Verdade, a forma como se trata um carro ajuda à sua vida útil. A Renault, contudo, olhando para os seus ícones, é uma marca que faz carros duráveis, robustos, a história não mente. Concordo contigo, deveria haver um registo nacional.
Pois, só fazer a revisão na marca, Mas que tem de ser muitas, assim até um Rover durava 30 anos e 500 mil Km.
Mercedes teve fama de fiável se fosses sempre á marca todos os anos deixar lá 1000€ .
Compra um Lexus e vês que aquilo dura imenso sem estar lá todos os anos na oficina…