Perder num Videojogo: uma forma de crescimento pessoal?
Muito se tem falado ao longo dos últimos anos acerca dos malefícios dos videojogos e dos problemas que podem advir de demasiada exposição. Não colocando nada disso em dúvida, nem tão pouco pretendendo sugerir o contrário, acredito contudo, na importância de se ver as coisas de outras perspectivas. E a questão que coloco hoje é "Será que, cada vez que se perde num videojogo, se ganha algum tipo de valência para a nossa vida e nosso desenvolvimento pessoal?"
Tal como no passado indiquei em dois artigos, os videojogos podem (se bem e sensatamente consumidos) ser usados de forma positiva ou que eles próprios podem constituir algo de positivo aos jogadores. (ver aqui ou aqui).
Reforçando o que indiquei no inicio do artigo, de não pretender colocar em dúvida ou fazer esquecer os aspetos negativos (que os há, claro), acredito que há muito mais que os videojogos podem trazer aos jogadores. E hoje quero explorar um pouco mais desse outro aspeto que muitas vezes se ignora.
Num mundo onde o sucesso é frequentemente visto como o principal objetivo, o simples facto de se perder é muitas vezes encarado como algo de extremamente negativo. No entanto, quando falamos de videojogos, a derrota pode representar muito mais do que um simples fracasso. Na realidade, perder no decorrer dum jogo pode contribuir significativamente para o crescimento pessoal de um indivíduo, ensinando-lhe competências e valores que podem ser aplicados no dia a dia. Tanto pessoal como profissional.
Efetivamente, os videojogos ajudam os jogadores a desenvolver ou fortalecer as suas capacidades de resiliência. Um palavrão que nos tempos que correm é muito usado e que significa "capacidade de reagir e superar contrariedades ou situações de crise; faculdades de quem consegue lidar de forma positiva com fatores ou condições adversas". Com efeito, quando um jogador falha uma missão, perde uma vida ou é derrotado por um boss, vê-se obrigado a tentar novamente e assim sucessivamente até conseguir ultrapassar esse obstáculo (ou desinstalar o jogo). Como podem facilmente perceber, este processo de tentativa e erro acaba por trazer um tremendo ensinamento, de que o fracasso não representa obrigatoriamente o fim, mas sim uma oportunidade para aprender e melhorar.
Existem variados exemplos de jogos que levam essa lição ao limite (os denominados de Soulslike), como Dark Souls, Returnal ou Demon's Souls, que assentam grande parte da sua experiência na superação de obstáculos, uma e outra vez.
Não posso deixar de reforçar que, não pretendo de forma alguma esconder que todo este processo pode traduzir-se também num sentimento de frustração ou ansiedade. Não existe uma fórmula que se aplique a todos os jogadores, dependendo de individuo para individuo a forma como encaram os problemas.
Quando um jogador falha repetidamente numa altura difícil do jogo, a solução raramente passa por desistir. Em vez disso, sente a necessidade de tentar novas estratégias, praticar competências específicas e acumular experiência até alcançar o sucesso. Ao longo deste processo, o jogador acaba por absorver a ideia de que o progresso é resultado do esforço e da persistência. A derrota deixa, dessa forma, de ser encarada como prova de incapacidade e passa a ser vista como uma etapa natural do percurso de aprendizagem.
Esta perspectiva pode ter um forte impacto noutras áreas da vida, como por exemplo, um estudante pode encarar as más notas como um sinal de que precisa de ajustar os seus métodos de estudo, e não como falta de capacidade. Da mesma forma, um profissional pode interpretar erros como oportunidades de desenvolvimento em vez de motivos para desistir.
Outra valência que facilmente pode ser atribuída aos videojogos é a capacidade de adaptação. Em muitos jogos, uma estratégia que funciona numa certa situação pode revelar-se completamente ineficaz noutra. Dessa forma, os jogadores são constantemente desafiados a enfrentar novas circunstâncias, a responder a mudanças inesperadas e a experimentar abordagens diferentes para alcançar o sucesso. Sempre que uma determinada estratégia conduz à derrota, o jogador é incentivado a refletir sobre o que aconteceu e a procurar alternativas. Este processo é positivo pois exige flexibilidade mental e capacidade de ajustar, qualidades cada vez mais valorizadas num mundo profissional caracterizado pela mudança constante.
Há vários exemplos de jogos (Stardew Valley ou Outer Wilds, por exemplo) demonstram que a mudança não deve ser encarada apenas como uma forma de perda, mas também como uma oportunidade de crescimento. Ao colocarem os jogadores perante despedidas, novos começos e desafios inesperados, os videojogos predispõem-se a enviar uma das lições mais importantes da vida: a capacidade de aceitar que tudo muda e de continuar a avançar.
Por outro lado, há jogos que promovem uma necessidade (muitas vezes silenciosa) do desenvolvimento de pensamento crítico, criatividade e capacidade de resolução de problemas. Ao se deparar com o écran de Game Over, o jogador tende muitas vezes e de forma involuntária, a analisar os erros cometidos e a procurar as novas estratégias para não voltar a errar. Esta reflexão estimula a capacidade de adaptação e incentiva uma atitude mais analítica perante desafios muito importante para a vida social e profissional. Tratem-se de shooters, RPGs ou RTS, os nossos fracassos, fazem emergir essa outra competência essencial para o nosso dia a dia, que é a procura por alternativas.
Não podemos, no entanto, descurar outro aspecto importante, relacionado com a gestão emocional. Nem sempre é fácil aceitar uma derrota, especialmente em jogos altamente competitivos. Aprender a lidar com a frustração, a controlar as emoções e a manter uma atitude positiva são competências valiosas que podem ser úteis em contextos escolares, profissionais e pessoais. Dessa forma, os videojogos também funcionam (ou podem alavancar), uma forma de percepção dos problemas e transformar-se num ambiente relativamente seguro onde os jogadores podem praticar estas capacidades.
Ainda neste capitulo, são vários os exemplos de jogos que, de certa forma, incentivam os jogadores a lidar com certos sentimentos (mesmo que de forma virtual). Por exemplo, jogos como Spiritfarer, A Tale of Two Sons ou Journey demonstram que os jogos podem ajudar os indivíduos a compreender e processar a perda. Trata-se de uma forma interessante de ajudar a compreender esse tipo de sentimentos pois ao permitir que os jogadores experienciem essas emoções no ambiente seguro de um videojogo, esses títulos promovem empatia, reflexão e maturidade emocional.
Por outro lado, existem títulos como por exemplo, Celeste, God of War ou The Last of Us que nos tentam transmitir que o verdadeiro objetivo nem sempre é o de derrotar os inimigos ou completar missões. Muitas vezes, o que torna estas experiências verdadeiramente memoráveis é o simples facto de acompanhar as próprias personagens que vão aprendendo com os seus erros enquanto enfrentam os seus medos e acabam por crescer como indivíduos.
Indo um pouco mais longe, existem títulos (The Last of Us, Papers Please, Mass Effect, Detroit: Become Human ou This War of Mine) que chegam mesmo a funcionar como verdadeiros laboratórios de aprofundamento ético e moral. Ao colocarem os jogadores perante dilemas complexos, esses jogos incentivam-nos a refletir sobre justiça, responsabilidade e empatia. Desta forma, os videojogos não apenas entretêm, mas também ajudam a desenvolver o pensamento moral e a capacidade de tomar decisões conscientes e, as consequências (quer sejam Game Over ou náo) acabam por realçar esses mesmos ensinamentos.
Existe ainda outro aspeto dos videojogos e da derrota que se pode vir a revelar como uma mais-valia para o desenvolvimento do jogador: lição de humildade. Ao perder, os jogadores veem-se obrigador a reconhecer os seus próprios limites. Esta será uma das primeiras lições que os videojogos ensinam: ninguém ganha sempre. Por mais talentoso que seja um jogador, haverá sempre desafios difíceis, adversários mais experientes ou situações inesperadas que conduzem à derrota. Esta experiência ajuda a desenvolver a humildade, pois obriga o indivíduo a reconhecer que ainda tem aspetos a melhorar. Em vez de atribuir todas as derrotas a fatores externos, o jogador aprende gradualmente a analisar o seu próprio desempenho e a identificar erros que podem ser corrigidos. Mas mais... leva o jogador a perceber que existem outros que podem jogar ainda melhor.
Títulos como Jogos como Cities: Skylines, Animal Crossing: New Horizons ou The Sims 4 demonstram que os videojogos podem ensinar responsabilidade de forma prática. Ao obrigarem os jogadores a tomar decisões, gerir recursos e lidar com consequências, ajudam a desenvolver competências que são úteis tanto no mundo virtual como na vida real. Mais do que simples entretenimento, estes jogos mostram que a responsabilidade aprende-se através da experiência e da prática. O simples efeito de perder num desses jogos, poderá levar os jogadores a repensarem um pouco na forma como a gestão de recursos (no jogo e na vida "cá fora") são de crucial importância para o sucesso.
Conforme referi anteriormente, não estou a tentar descurar ou minimizar o fato dos videojogos poderem gerar comportamentos negativos quando os jogadores não conseguem lidar adequadamente com as derrotas. É um risco real mas, acredito que isso não invalida completamente estas mais-valias do processo de jogar (e perder). Acima de tudo, depende muito do individuo e, tal como acontece noutras atividades, o que é absorvido e a reação de cada um, depende da forma como cada pessoa encara a experiência e aprende com ela.
Sob a forma de conclusão, gosto de acreditar que perder a jogar videojogos pode trazer ganhos significativos para o crescimento de um jogador. A derrota ajuda a desenvolver resiliência, pensamento crítico, capacidade de adaptação e controlo emocional. Assim, mais importante do que ganhar sempre é aprender com cada erro e utilizar essas lições para evoluir, tanto dentro como fora do mundo virtual.
Embora muitas vezes sejam vistos apenas como uma forma de entretenimento, os videojogos podem contribuir para o desenvolvimento de competências pessoais importantes. A experiência de perder ensina que o fracasso não é necessariamente algo negativo, muito pelo contrário, pode constituir uma poderosa ferramenta de aprendizagem. Ao promoverem a humildade, a mentalidade de crescimento e a capacidade de adaptação, os videojogos ajudam os jogadores a lidar melhor com desafios, erros e mudanças. Neste sentido, perder deixa de representar um fim e passa a ser um passo natural no caminho para o progresso e para o desenvolvimento pessoal.






















Perder num jogo é altamente frustrante mas ver pessoas a usar windows e não mudar para linux deixa-me deveras irritado. E quem usa Apple então tira me do sério! Depois queixem-se que a vida é cara!
Mais frustrante são os nerds dos Soulslike.
Qual é o problema de usar windows e apple? A tua irritação faz-te querer controlar como as outras pessoas utilizam o seu dinheiro? Tens demasiado tempo livre se tens tempo para te ralar com onde o outro comum mortal gasta o dinheiro que ganhou a trabalhar.
Já nem vou falar que mudar para linux para jogar não foi, não é nem vai ser uma alternativa viável enquanto os jogos que mais jogas têm anti-cheat de kernel. A não ser que a valve (outra vez) tire um coelho da cartola e consiga uma forma de colocar esses jogos a correr no steamOS e partilhe a solução com os restantes, windows continuará a ser o que necessitas.
Não é necessário responder com a história do dual boot pois não vais estar a jogar em windows, e por causa da tua birra, reinicias o pc para ir jogar outro jogo no bazzite