Hospitais contratam enfermeiros remotos estrangeiros, e os pacientes nem sabem
Nos Estados Unidos da América (EUA), a escassez de enfermeiros já ultrapassa os 80 mil profissionais, e a solução encontrada por muitos hospitais passa por contratar trabalhadores remotos, a partir das Filipinas, por uma fração do custo.
A escassez de enfermeiros registados nos EUA não é novidade, mas está a atingir níveis que obrigam os hospitais a repensar todo o modelo de contratação.
Em vez de competir por profissionais locais, cada vez mais instituições recorrem a trabalhadores baseados nas Filipinas, que monitorizam pacientes de cuidados intensivos, coordenam cuidados, tratam de tarefas administrativas e até telefonam diretamente aos doentes; tudo à distância.
O problema é que, embora alguns hospitais exijam licença de enfermagem norte-americana, muitos destes trabalhadores são, na prática, auxiliares com formação na área da saúde, sem estarem licenciados nos EUA.
Cabe-lhes particularmente observar e reportar, enquanto as decisões clínicas continuam, teoricamente, nas mãos de enfermeiros licenciados presentes no local.
A diferença de custo é o principal motor desta tendência, considerando que um enfermeiro remoto pode custar entre 5 e 10 dólares por hora, contra mais de 45 dólares pagos a um enfermeiro registado nos EUA.
Para hospitais sob pressão financeira, a poupança pode chegar aos 70% nos custos com pessoal.
As Filipinas como motor da saúde à distância
O país tornou-se um pilar fundamental desta indústria em expansão. O setor de saúde filipino dedicado à externalização de serviços emprega já cerca de 210 mil trabalhadores a tempo inteiro, segundo o rest of world, tendo gerado 4,5 mil milhões de dólares em receitas em 2025, quase 30% desses profissionais são enfermeiros ou outros técnicos de saúde.
Muitos destes trabalhadores são recrutados por agências norte-americanas e depois apresentados como se fossem funcionários diretos do próprio hospital, uma prática de white-label que os hospitais adotam também para evitar críticas por contratarem fora dos EUA.
Na prática, isto significa que a maioria dos pacientes não faz ideia de que a pessoa responsável por parte do seu acompanhamento está a milhares de quilómetros de distância, nem sabe ao certo que tipo de credenciais essa pessoa tem.
A Inteligência Artificial (IA) tem, também, um papel crescente neste ecossistema, ajudando os enfermeiros remotos a monitorizar sinais vitais, detetar alertas e gerir dados clínicos através de fusos horários diferentes.
Os riscos que ninguém quer assumir
A par da poupança significativa estão, também, os riscos. Há relatos frequentes de trabalhadores contratados sem entrevistas formais, sem verificação de antecedentes e sem programas de formação estruturados.
A isto junta-se a falta de informação dada aos pacientes e a quase inexistente supervisão regulatória sobre este tipo de esquema. O resultado é um sistema que cresce mais depressa do que as regras que o deveriam acompanhar.
Mesmo com os avanços que a IA já demonstrou em diagnósticos de emergência, a enfermagem remota continua a depender, no essencial, do julgamento humano, muitas vezes em condições longe do ideal.
Outro efeito colateral é que o mesmo modelo que resolve a crise de pessoal nos EUA está a aprofundar uma crise semelhante nas Filipinas, país que enfrenta já um défice de cerca de 190 mil profissionais de saúde.























Já vão com sorte, mais dia menos dia são atendidos por AI.
Acho bem, os tugas nao querem trabalhar
E se lesses o artigo antes de comentar? Não parecerias tão pouco inteligente.
Calado és um poeta. Nunca ouviste falar em Telenfermagem?! Telemedecina?!
Temem que a IA coma todos os empregos, mas na realidade há falta de mão de obra em todo o lado. Impressionante!
Temem que a IA coma todos os empregos, mas na realidade há falta de mão de obra em todo o lado. Impressionante!
Pode haver falta de mão de obra, mas o negócio dos capitalistas é pagar sempre menos pelo trabalho dos portugueses, não é pagar mais. Isso consegue-se com um excedente de gado humano em relação àquele que eles aproveitam para produzir. Assim conseguem fazer sempre pressão sobre os salários com aquela frase que eles adoram: vês ali aqueles todos à espera do teu lugar?
@Grunho, torna-te capitalista.
Outro que não leu o artigo. Isto é nos EUA, não em Portugal.
Portugal é cada vez mais igual aos USA.
Se fosse o pessoal estava a ganhar 4x mais
Os hispânicos clandestinos não ganham muito mais que em Portugal.
Reduzir o âmbito do trabalho do enfermeiro à tele consulta é muito redutor, principalmente em contexto hospitalar… A avaliação de sinais vitais, administração de medicação, colocação de cateters e algálias, posicionamento dos doentes, suporte avançado de vida, etc., são coisas que nunca conseguirão fazer à distância. Por exemplo, quando uma máquina está a alarmar é preciso perceber se o utente está em paragem cardio respiratória ou se é apenas o sensor que se desprendeu, ou como é que alguém remotamente vai verificar se existe sangue na urina, ou fazer um combur…
Isto possivelmente será apenas para as consultas de acompanhamento em casa para as pessoas sentirem que o dinheiro que estão a pagar às seguradoras têm algum tipo de retorno… É um pouco como a “segunda opinião de especialistas internacionais” via teleconsulta que são promovidos em alguns seguros de saúde por cá, que tem uma utilidade super reduzida.
Diz a fonte sobre o trabalho do assistente filipino remoto:
“Quando ele notou mudanças drásticas na pressão arterial, ou viu que uma enfermeira não tinha registado se eles haviam dado a um paciente a sua medicação, ele avisava a equipe no local através do posto de enfermagem, disse ele ao Rest of World.”
“Não somos enfermeiros — mas mais como auxiliares de enfermagem”, disse o homem de 37 anos, que agora trabalha em tempo integral nas Filipinas. “Não tomamos as decisões de atendimento, apenas informamos [as enfermeiras no local] que a pressão arterial estava alta. Os pedir-lhes para dar os remédios.”
Não vejo nada de anormal nisto e parece-me bastante útil.
Se um enfermeiro não notar alterações na tensão arterial ou outros sinais vitais, ou se não desse a medicação que era suposto, em Portugal, se isso fosse provado, seria um caso grave de negligência com direito a processo disciplinar com todas as consequências que daí advém.
Pela tipologia de funções, um enfermeiro ou técnico remoto nunca conseguirá desempenhar o mesmo tipo de cuidados que um profissional bem treinado no local. Ser enfermeiro obriga a utilizar os 5 sentidos e um contacto muito próximo com o doente, principalmente em contexto hospitalar. Para uma primeira triagem, esclarecimento de dúvidas ou acompanhamento, os meios telemáticos podem ser suficientes. Num contexto hospitalar de urgência ou internamento, parece-me ser algo com um âmbito de atuação muito reduzido.
Num país desenvolvido eu não trocaria cuidados presenciais por cuidados à distância, mas isso sou eu.
Muito bem! Apoiado! E quando há falta de pessoal faz-se o quê?
Paga-se um valor residual a alguém num outro país, que não consegue fazer as mesmas funções (porque não é fisicamente possível)?! É essa a solução?
No meio desta história quem fica a perder é quem precisa dos cuidados e não quem está só a tentar reduzir custos…
Dar a medicação implica autorização do médico, ou seja, enfermeiro avalia, mas só com autorização e prescrição do médico é que dá medicação. Se a medicação não estiver prescrita, mesmo que seja em SOS, o enfermeiro só pode agir até certo limites.
Sim, sem dúvida… O médico prescreve, mas quem geralmente prepara a medicação e administra é o enfermeiro. Em algumas situações o enfermeiro tem mais autonomia, mas geralmente trabalham em equipa, com funções e responsabilidades bem definidas.