Um estranho vazamento no núcleo da Terra pode estar a fazer subir à superfície o ouro antigo
Durante décadas, os cientistas acreditaram que o núcleo da Terra era praticamente um sistema fechado, isolado do restante planeta. No entanto, novas investigações sugerem algo surpreendente: metais preciosos como o ouro poderão estar lentamente a escapar das profundezas do planeta e a viajar em direção à superfície.
A hipótese, ainda debatida na comunidade científica, poderá ajudar a explicar não apenas a origem de alguns depósitos minerais, mas também a própria evolução geológica da Terra.
A maior reserva de ouro do planeta está inacessível
Apesar de o ouro ser considerado raro à superfície, a realidade é bastante diferente nas profundezas do planeta. Estima-se que mais de 99% dos metais preciosos da Terra estejam presos no núcleo metálico, formado maioritariamente por ferro e níquel.
Quando a Terra se formou, há cerca de 4,54 mil milhões de anos, encontrava-se totalmente fundida. Os elementos mais pesados, incluindo ouro, platina e tungsténio, afundaram-se naturalmente em direção ao centro do planeta, num processo conhecido como diferenciação planetária.
Durante muito tempo, acreditou-se que esses materiais permaneceriam ali para sempre.

Esta é a cena no campo aurífero de Wangu, na província de Hunan, na China. Esta área já foi explorada na procura de ouro, mas parece que apenas arranharam a superfície. No final de 2024, foi anunciado que eles acreditam haver mais de mil toneladas de ouro escondidas abaixo da mina existente.
A descoberta começou com lava vulcânica
A nova teoria ganhou força após investigadores analisarem rochas vulcânicas provenientes do Havai. Nessas amostras foi detectado ruténio com uma assinatura isotópica muito específica, associada ao núcleo terrestre e não ao manto superior.
Segundo os cientistas, a única explicação plausível é que material proveniente da fronteira entre o núcleo e o manto esteja a subir lentamente através de plumas mantélicas extremamente quentes.
Essas colunas de rocha fundida podem transportar pequenas quantidades de metais preciosos ao longo de milhões de anos, até eventualmente chegarem à crosta terrestre através da atividade vulcânica.

Durante décadas, os cientistas acreditaram que estes metais permaneceram selados no núcleo, a quase 3000 quilómetros abaixo da superfície. Mas evidências crescentes sugerem que a história pode ser mais complexa.
Uma “fuga” microscópica com impacto gigantesco
Importa esclarecer que não se trata de rios de ouro a emergir do solo. A quantidade libertada é extremamente reduzida e ocorre em escalas geológicas quase imperceptíveis.
Ainda assim, a descoberta desafia uma das ideias mais estabelecidas da geologia moderna: a de que o núcleo terrestre estava completamente isolado do resto do planeta.
Os investigadores acreditam que reações químicas na fronteira núcleo-manto poderão permitir a migração gradual destes elementos, funcionando como uma espécie de difusão extremamente lenta.
Legenda
1. Crosta: A crosta é dividida em crosta oceânica, com espessura máxima de 10 km, e crosta continental, que pode chegar a 80 km de espessura em alguns locais. A crosta sobe e desce até 25 cm por dia, devido à atração da Lua.
2. Manto: Juntas, a crosta e a metade superior do manto formam a litosfera, que é dividida em placas tectónicas que se deslocam. Estes deslocamentos causam terremotos e a deriva dos continentes. O manto é, de longe, a maior parte da Terra, representando 84% do seu volume total.
3. Núcleo externo: Esta é a única camada verdadeiramente líquida da estrutura interna da Terra. Com cerca de 2.000 km de espessura, o núcleo externo é composto principalmente por ferro e níquel, com entre 5% e 10% de elementos mais leves. A transição entre o núcleo interno e o núcleo externo está localizada a aproximadamente 5.150 km abaixo da superfície da Terra.
4. Núcleo interno: Uma estrutura sólida e cristalizada de ferro com cerca de 70% do tamanho da Lua. A sua temperatura é de cerca de 5000 °C, quase tão quente quanto a superfície do Sol, mas a pressão intensa forçou-a a solidificar. As suas interações com o núcleo externo são responsáveis pelo campo magnético da Terra.
O que isto muda na ciência?
Se confirmada, esta ligação dinâmica entre núcleo e manto poderá ajudar a explicar vários fenómenos:
- A origem de certos depósitos minerais ricos em metais preciosos.
- A composição química do manto terrestre.
- A forma como os planetas rochosos evoluem ao longo de milhares de milhões de anos.
Além disso, compreender estes processos poderá até ajudar na procura de vida noutros planetas, já que a actividade interna desempenha um papel fundamental na habitabilidade planetária.
Para já, uma coisa é certa: o coração metálico da Terra poderá não ser tão fechado como se pensava. E, lentamente, poderá estar a devolver à superfície parte da sua riqueza mais antiga.























Seria o pior que poderia acontecer para o outro (na sua valorização) se ele “viesse” a estar assim disponível.
Já veridiquei, não está a acontecer nada.