Parkinson pode ser mais do que perturbação do movimento: afeta toda uma rede cerebral!
Cientistas identificaram uma rede cerebral crucial que é afetada pela doença de Parkinson. Os resultados mudam a compreensão dos médicos sobre o que causa os sintomas da doença e podem abrir caminho a tratamentos mais eficazes e precisos.
Durante muito tempo, a doença de Parkinson foi considerada um distúrbio do movimento. Ainda que os sintomas comuns incluam contrações musculares involuntárias, tremores e dificuldade em caminhar, a doença pode afetar o sono, a regulação da pressão arterial, a digestão e a função cognitiva.
Os resultados de um novo estudo indicam que o fator comum por detrás destes sintomas aparentemente desconectados é uma rede cerebral descoberta apenas em 2023, pela mesma equipa de investigadores.
De nome rede de ação somato-cognitiva, ou SCAN, liga a mente e o corpo para transformar pensamentos em ações.
Agora, os investigadores descobriram que a estimulação desta rede através de tratamentos cerebrais poderia aliviar melhor os sintomas da doença de Parkinson.
Parkinson não é apenas um problema de movimento que envolve uma parte do corpo. Este estudo mostra que é uma perturbação da rede cerebral em todo o corpo, que liga movimento, pensamento, alerta e controlo interno do corpo.
Explicou Michael Okun, neurologista na Universidade da Florida e diretor médico da Parkinson’s Foundation, que não participou no estudo.
Para Todd Herrington, neurologista no Massachusetts General Hospital, que trata e estuda a doença de Parkinson, o estudo recente é um conjunto de descobertas "extraordinário".
Cientistas detetaram um padrão estranho
Os neurocientistas sabiam há muito tempo que uma região do cérebro chamada córtex motor primário, apelidada de M1, controla os movimentos do corpo.
Esta faixa cerebral em forma de diadema estende-se de orelha a orelha e contém uma espécie de mapa do corpo todo. Se alguém quiser mover a mão, regiões cerebrais superiores mais próximas da testa enviam sinais de volta para a M1, que por sua vez envia sinais motores para a mão.
Contudo, o neurologista Nico Dosenbach, da Washington University, em St. Louis, observou algo estranho: quando uma pessoa num scanner cerebral move a boca, várias partes da M1, e não apenas a região da "boca", ativam-se.
Estes pontos extra de ativação "simplesmente não faziam sentido, se tudo aquilo que eu pensava saber fosse verdade", disse ele, conforme citado pela Scientific American.
Aparentemente, durante quase um século, os neurocientistas têm subestimado a M1: não é um simples mapa do corpo.
Em vez de ser apenas um executor de ordens de regiões cerebrais mais frontais, a M1 ajuda a planear, guiar e coordenar a ação.
Assim, o nome SCAN que foi dado à rede reflete como ela liga o corpo e a mente.

A rede cerebral que liga o pensamento ao movimento, chamada SCAN, foi descrita pela primeira vez, em 2023. Uma terapia experimental dirigida a esta rede mais do que duplicou a melhoria dos sintomas num pequeno grupo de doentes de Parkinson, doença caracterizada por hiperconectividade (lado esquerdo da ilustração) entre a SCAN e o subcórtex cerebral. Crédito: Sara Moser/WashU Medicine
Estudo envolveu quase 900 pessoas
Os médicos não sabem o que desencadeia os eventos que provocam a doença de Parkinson.
Contudo, sabem qual a área cerebral mais devastada: a substância nigra, uma estrutura profunda do cérebro, onde os neurónios que produzem a dopamina, substância química de sinalização cerebral, morrem lentamente.
Ora, estimular outras regiões ligadas à substância nigra pode aliviar os sintomas de Parkinson, sugerindo que todo um circuito está envolvido.
Os investigadores sabiam que a M1 fazia parte deste circuito, e os novos resultados mostram que envolve especificamente as regiões SCAN da M1 que planeiam e coordenam o movimento.
Usando múltiplos conjuntos de dados de imagiologia cerebral de 863 pessoas reais com Parkinson e indivíduos saudáveis, a equipa de Liu descobriu que a SCAN estava excessivamente conectada a regiões cerebrais profundas em pessoas com Parkinson, mas não em indivíduos saudáveis ou com outros distúrbios do movimento.
Mais, indivíduos com Parkinson que tinham maior conectividade neste circuito apresentavam sintomas mais graves.
Os investigadores descobriram, também, que tratamentos existentes para Parkinson diminuíam a conectividade do circuito, fazendo com que o cérebro das pessoas com a doença se parecesse mais com o de indivíduos saudáveis.
Quanto mais um tratamento reduzia a conectividade da SCAN, melhor era a função motora.

Equipa conduziu os testes através de uma técnica não invasiva chamada estimulação magnética transcraniana (em inglês, TMS), em que os médicos colocam um stick com uma bobina magnética sobre o couro cabeludo, exatamente acima da M1.
Segundo Michael D. Fox, neurologista no Brigham and Women’s Hospital, em Boston, que não participou no estudo, os médicos ainda não sabem se os neurónios a morrer na substância nigra causam estas disfunções da SCAN, ou se é o contrário.
Uma vez que os neurónios começam a morrer décadas antes de surgirem os sintomas, parece provável que os primeiros causem os segundos.
Contudo, "não é impossível" que a disfunção da SCAN comece cedo e provoque a morte de mais neurónios, segundo ele.
Novo estudo abre a porta a novos tratamentos
Os tratamentos de estimulação cerebral para Parkinson mostraram-se mais eficazes quando os médicos visavam especificamente as regiões SCAN, segundo descoberto pela equipa de Liu.
Os testes envolveram uma técnica não invasiva chamada estimulação magnética transcraniana (em inglês, TMS), em que os médicos colocam um stick com uma bobina magnética sobre o couro cabeludo, exatamente acima da M1.
Aparentemente, a equipa de Liu demonstrou que concentrar a TMS especificamente nas regiões SCAN pode melhorar os resultados.
Estou entusiasmado com estes resultados.
Disse Michael D. Fox, considerando que a TMS pode ser mais apelativa e acessível para os pacientes do que a estimulação cerebral profunda, que requer cirurgia, elevando "o potencial da estimulação cerebral não invasiva para ajudar pacientes com Parkinson de uma forma que antes não existia.





















