Pintar as pás das turbinas pode resolver um dos maiores problemas da energia eólica
Há um problema relacionado com as turbinas eólicas que a indústria da energia tem tentado resolver, há anos, gastando milhões em tecnologia sofisticada. A resposta, afinal, pode estar numa simples lata de tinta - ou várias!
A energia eólica é uma das apostas mais fortes da transição energética global. Por ser limpa, renovável e cada vez mais barata, tem vindo a crescer a um ritmo acelerado em todo o mundo.
Contudo, por detrás das gigantescas pás brancas, existe um problema ambiental que raramente chega ao conhecimento das pessoas comuns: as colisões de aves com as turbinas eólicas.
Aves de rapina, migrantes e outras espécies colidem com as pás em movimento, muitas vezes de forma fatal.
Durante anos, a indústria tentou responder com soluções tecnológicas sofisticadas, como câmaras com Inteligência Artificial, radares de deteção e sistemas que travam automaticamente as turbinas quando detetam uma ave.
No entanto, um novo estudo propõe algo radicalmente diferente, mas mais simples.
A natureza já conhece a solução há anos
A ideia ocorreu numa observação do mundo natural. Muitos animais, desde cobras e rãs venenosas até lagartas e borboletas, usam combinações de cores vivas como o vermelho, o preto e o amarelo para avisar predadores do perigo.
O ponto de partida para esta ideia foi que, na natureza, muitos animais usam cores para avisar os predadores do perigo. Muitas vezes, a tendência para evitar certas combinações de cores é genética - as cores são evitadas mesmo sem experiência prévia com elas.
Explicou a professora Johanna Mappes, da Universidade de Helsínquia.
Por isso, a equipa de investigação decidiu testar se esse mecanismo evolutivo poderia ser aproveitado para proteger as aves das turbinas eólicas.
O que diz o estudo?
Utilizando ecrãs táteis especialmente concebidos para aves, que permitem simular cenários do mundo real sem colocar os animais em risco, os investigadores testaram diferentes padrões de cores aplicados às pás de turbinas eólicas e observaram como as aves reagiam.

Ilustração da configuração interna da câmara operacional tátil (em inglês, TOC). Os estímulos das turbinas eólicas durante a experiência final foram apresentados no ecrã com dois pontos-alvo: um dentro da área de varredura do rotor das pás da turbina (interno) e outro fora (externo). Fonte: Biologically inspired warning patterns deter a passerine, Parus major, from digital turbine blades, Behavioral Ecology, Volume 37, Issue 4, July/August 2026
Os resultados mostraram que as cores de aviso - amarelo, vermelho e preto - combinadas com o movimento rotativo das pás, foram significativamente mais assustadoras para as aves do que outros padrões já testados anteriormente, como "uma pá preta" ou "riscas vermelhas".
As pás brancas, que são o padrão mais utilizado em todo o mundo, revelaram-se a pior opção para as aves.
Revelou a professora Mappes, explicando que o design mais comum nas turbinas de hoje em dia pode ser o mais perigoso para a fauna.
Solução não vai eliminar completamente a mortalidade, mas ajudará
O que torna este estudo verdadeiramente inovador não é apenas a solução em si, mas a forma como foi concebida. Em vez de tentar detetar as aves com tecnologia, o objetivo é influenciar o seu comportamento e fazê-lo recorrendo a mecanismos que a evolução já otimizou ao longo de milhões de anos.
O que é particularmente novo é que a solução se baseia em comportamentos moldados pela evolução e em sinais de aviso otimizados pela natureza.
Sublinhou a professora Mappes.
Entretanto, George Hancock, da Universidade de Exeter, que participou no estudo, partilhou o entusiasmo perante os resultados:
Já sabíamos há muito tempo que as aves alteram a forma como respondem a objetos com cores de aviso, mas ver um efeito tão grande foi notável.

Fotografia aérea de uma turbina eólica no sul da Finlândia, modificada digitalmente com um padrão de alerta de inspiração biológica sob luz natural. Crédito: Eric Lehtonen, via EurekAlert
Apesar do entusiasmo perante as suas descobertas, os investigadores são cuidadosos nas conclusões, pois esta solução não vai eliminar completamente a mortalidade de aves.
Por sua vez, pode reduzi-la significativamente, de forma simples e potencialmente a baixo custo.
Segundo a professora Mappes, "se os resultados forem repetidos em condições práticas, em diferentes países e com diferentes espécies de aves, poderia representar uma mudança significativa para toda a indústria da energia eólica".
Além disso, de acordo com Hancock, pintar as turbinas é apenas uma de várias estratégias possíveis.
Com a construção de parques eólicos a aumentar em todo o mundo, a necessidade de soluções que conciliem energia renovável e proteção da vida selvagem nunca foi tão urgente.
Assim sendo, este estudo é um exemplo concreto de como inspirar-se na natureza pode ajudar a protegê-la.
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Eu percebo o problema e é preciso resolver. Mas lembro um tópico que de repente poucos falam e esta solução agrava. Há 40 anos atrás falava-se muito sobre a poluição visual e sobre o impacto que tinha nos ecosistemas. Se de repente começarmos a pintar as pás passamos a ter rodas coloridas a girar nas florestas.
A solução até pode ajudar a reduzir os choques, mas não sei se não terá efeitos mais nefastos. E volto a dizer não sei. Mas parece-me algo demasiado simplista. Importante o estudo, mas não acredito como solução.
Concordando mas não esquecer que têm-se implementado estas torres em alto mar, onde este problema também reside.
Deixaríamos de ver aves a serem chacinadas, mas passaríamos a ver touros a saltar à vara para marrar nas pás.
Pronto, já não vamos poder ter combustível sintético e hidrogénios.