Hubble apanhou um cometa a desintegrar-se… e foi puro acaso
O Telescópio Espacial Hubble voltou a surpreender a comunidade científica ao captar, pela primeira vez com este nível de detalhe, a fragmentação de um cometa praticamente no momento em que esta ocorreu. O protagonista é o cometa C/2025 K1 (ATLAS), observado pouco depois da sua passagem mais próxima do Sol.
Um evento raríssimo captado no momento certo
O Hubble não estava sequer a observar este cometa de forma planeada. A equipa científica teve de escolher um novo alvo à última hora e acabou por apontar para o K1. Foi nesse instante improvável que o cometa começou a fragmentar-se em vários pedaços.
Os investigadores encontraram pelo menos quatro fragmentos distintos, cada um com a sua própria “coma”, a nuvem de gás e poeira que envolve o núcleo.
A probabilidade de captar um fenómeno destes em tempo real é extremamente baixa, o que torna esta observação particularmente valiosa.

O cometa K1, cujo nome completo é Cometa C/2025 K1 (ATLAS), acabara de passar pela sua maior aproximação ao Sol e dirigia-se para fora do Sistema Solar. Embora estivesse intacto apenas alguns dias antes, o K1 fragmentou-se em pelo menos quatro pedaços enquanto o Telescópio Espacial Hubble da NASA/ESA o observava. As probabilidades de isso acontecer enquanto o Hubble observava o cometa são extraordinariamente reduzidas.
O que aconteceu ao cometa?
O cometa tinha passado recentemente pelo periélio, o ponto da sua órbita mais próximo do Sol, onde o aquecimento e as tensões internas atingem o máximo. Neste caso, a passagem ocorreu dentro da órbita de Mercúrio, sujeitando o objeto a condições extremas.
Estas condições podem levar à instabilidade estrutural do núcleo, provocando fissuras e, eventualmente, a sua fragmentação. No caso do K1, estima-se que a desintegração tenha começado dias antes de ser observada, embora os efeitos visíveis tenham surgido apenas depois.
Um mistério ainda por resolver
Um dos aspetos mais intrigantes desta descoberta é o atraso entre a fragmentação e o aumento de brilho observado a partir da Terra. Em teoria, ao expor gelo “fresco”, o cometa deveria tornar-se imediatamente mais brilhante.
Os cientistas avançam algumas hipóteses. Pode ser necessário tempo para que se forme uma camada de poeira sobre o gelo exposto, ou para que o calor penetre no interior e gere pressão suficiente para expelir material.

Este diagrama mostra a trajetória que o cometa de longo período C/2025 K1 (ATLAS), ou K1 para abreviar, seguiu ao passar pelo Sol e ao iniciar a sua viagem para fora do Sistema Solar. A 10 de novembro de 2025, o Telescópio Espacial Hubble da NASA/ESA captou a imagem do cometa em fragmentação visível na inserção. O Hubble captou a imagem apenas um mês após a aproximação máxima do K1 ao Sol, chamada periélio. Crédito: NASA, ESA, R. Crawford (STScI)
Uma janela para a origem do Sistema Solar
Os cometas são considerados autênticas cápsulas do tempo, compostas por material primordial da formação do Sistema Solar. Ao fragmentar-se, o K1 revelou camadas internas nunca antes expostas.
Este tipo de observação permite estudar a composição original destes objetos e compreender melhor os processos que moldaram os planetas e outros corpos celestes.
Um cometa com destino traçado
Atualmente, o cometa K1 já se encontra a cerca de 400 milhões de quilómetros da Terra e segue em direção ao exterior do Sistema Solar. Sendo um cometa de longo período, é pouco provável que volte a ser observado no futuro.
A observação inesperada do Hubble não só registou um fenómeno raro, como abriu novas pistas para compreender porque razão alguns cometas se desintegram. E, como tantas vezes acontece na ciência, foi o acaso que revelou um dos momentos mais fascinantes do cosmos recente.



















