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Qual a razão para tantos adiamentos no lançamento da Artemis se já estivemos na Lua?

Depois de vários adiamentos e agora sem data marcada para nova tentativa, a missão Artemis I teima em não sair do chão em direção à Lua. A questão que muitas pessoas colocam, de forma mais leiga, é “se já fomos à Lua antes, por que razão há tantos problemas agora que temos muito mais conhecimento e tecnologia? Será mesmo que alguma vez fomos à Lua?

Bom, nem há termos de comparação entre os programas Apollo e Artemis. Contudo, e indo um pouco à história, é importante perceber que mesmo o programa Apollo teve muitas missões falhadas, antes da Apollo 11. Mas vamos perceber um pouco mais!


Estava tudo marcado para que no dia 31 de agosto de 2022 a missão Artemis I descolasse e levasse o foguetão SLS ao espaço impulsionando a cápsula não tripulada Orion até à órbita da Lua. Por problemas, a partida foi adiada para o dia 3 de setembro, no sábado passado.

Mais uma vez, a missão foi cancelada uma vez que uma fuga de combustível impossibilitou prosseguir o com o lançamento. Tudo isto pode parecer estranho. Se fomos à Lua em 1969, porque é que desta vez está a demorar tanto tempo. Muitos céticos, com alguma informação rústica, colocam mesmo em causa a ida do homem à Lua.

 

Mas de facto alguma vez o homem foi à Lua?

Estas são questões que podem surgir. No entanto, para lhes responder, temos de partir da premissa de que o programa Apollo e Artemis são completamente diferentes. O programa Artemis envolve dispositivos muito mais sofisticados. E já nem vamos lá atrás quando a corrida à Lua levou vários países a tentarem ser os primeiros.

A Apollo 11 não foi a primeira tentativa da NASA para chegar à Lua. Houve muitas outras tentativas falhadas antes disso. E algumas vidas perdidas. E é precisamente nesse ponto que a agência espacial norte-americana se foca, na total segurança.

Conforme já muitas vezes foi contado, aterrar na Lua não é fácil. Só a NASA conseguiu levar seres humanos ao nosso satélite. Mas há também muito poucas agências espaciais que conseguiram aterrar ali, mesmo com naves espaciais não tripuladas.

Muitos não sabem, mas a União Soviética foi o primeiro país a aterrar um objeto de construção humana na Lua. Foi em 1959, à frente da NASA, que 10 anos mais tarde deu um passo em frente com a primeira aterragem humana no nosso satélite. E tudo isto debaixo de um manto da guerra fria, com pressões políticas que não olhavam a meios para atingir o fim, a conquista do satélite natural da Terra.

 

Vários países tentaram e conseguiram chegar ao solo lunar

A verdade é que desde então há vários países que já conseguiram colocar robôs e sondas em solo lunar. Não foram muitos, por isso se vê que além de caro, é muito complexo. A China, por exemplo, também já fez várias viagens à Lua. De facto, através do programa Chang’e, atingiu marcos como a germinação de uma semente num ambiente inóspito lunar ou a aterragem na face oculta do satélite.

No entanto, o primeiro país asiático a colocar um objeto na Lua foi o Japão. Aconteceu em 1990, com a sonda Hiten. Desde então, enviaram vários outros objetos, embora só tenham permanecido em órbita à volta da Lua.

A nave espacial não tripulada japonesa Hiten que era anteriormente denominada de MUSES-A, foi lançada em 24 de janeiro de 1980, por um foguete M – 3SII – 5 lançado do Centro Espacial de Kagoshima.

E finalmente, não podemos esquecer a Índia, uma vez que a sua agência espacial também conseguiu aterrar um objeto na Lua: o módulo de pouso Chandrayaan-1.

 

Missões que falharam muito antes da Artemis

Artemis para já tem colecionado muita informação relevante para a o programa em si, e também tem já alguns lançamentos adiados. No entanto, isto não quer dizer que a Artemis, como programa, esteja comprometido. Os cientistas estão simplesmente a ser cautelosos para não perderem o foguetão SLS e a cápsula Orion na primeira fase da missão.

É importante relembrar que estão já investidos 93 mil milhões de dólares, que ao câmbio atual serão cerca de 93 mil milhões de euros. A Apollo 11, com a sua a cápsula e o foguetão, realizaram um trabalho de sucesso sem problemas de maior. No entanto, este programa teve muitas tentativas falhadas anteriores, como podemos ver aqui neste compêndio.

Uma das primeiras ocorreu em 1958, quando os Estados Unidos tentaram lançar um satélite para orbitar a Lua. A tentativa foi um fracasso, pois o foguetão Vanguard explodiu 73 segundos após o lançamento.

Foram feitas mais três tentativas para fazer a mesma coisa, mas todas terminaram com o mesmo resultado. Só um ano depois é que o sucesso foi alcançado.

Quase em simultâneo, a União Soviética começou a estudar a forma de aterrar deliberadamente uma nave espacial na Lua. As primeiras tentativas não tiveram sucesso, com o foguete a explodir pouco depois do lançamento, e também levou um ano a ser bem sucedido.

Quando os dois países estavam numa corrida espacial, para ver quem vencia, tudo parecia mais simples. O insucesso era sempre ou quase sempre ocultado. A NASA aproveitou a década de 1960 para lançar o programa Ranger. Este programa consistia em enviar sondas para estudar a Lua e depois colidir deliberadamente com ela.

O problema é que os seis primeiros falharam por diferentes razões. A boa notícia é que os três últimos foram bem sucedidos.

Mais tarde, com o objetivo de enviar seres humanos para a Lua, foram lançadas as missões Surveyor da NASA. Houve 7 missões no total, mas duas delas foram canceladas após uma falha de motor numa e uma perda de comunicações com a Terra noutra.

Mas os voos espaciais tripulados não eram apenas o desejo dos Estados Unidos. A União Soviética também sonhou com o mesmo, pelo que em 1968 lançaram a nave espacial Zond 6 para recolher as informações necessárias para este feito há muito esperado. Infelizmente, houve vários problemas, incluindo o mau posicionamento de uma das suas antenas e a despressurização da nave espacial.

Por todas estas razões, se algum ser humano tivesse estado a bordo, teria morrido na tentativa.

 

Sucessos e fracassos do programa Apollo

Tal como está a ser feito com Artemis, as missões Apollo também tiveram alguns testes antes de levarem humanos até à Lua. Primeiro, foram realizados três voos não tripulados, destinados a testar a adequação do veículo de lançamento e do módulo de comando. Além disso, foram efetuados testes operacionais e de segurança para a futura tripulação das missões.

Estes primeiros voos não tripulados foram os das missões Apollo 4, Apollo 5 e Apollo 6, e seriam equivalentes a esta primeira missão Artemis, que já foi cancelada duas vezes.

A Apollo 7 fez então um regresso tripulado para analisar o desempenho do módulo de comando. No entanto, não orbitou a Lua. Isto foi feito pela Apollo 8, com uma missão equivalente à planeada para a Artemis em 2024.

A Apollo 9 realizou então, em órbita terrestre baixa, uma simulação do que seriam as manobras necessárias para aterrar na Lua, deixando a Apollo 10, que realizou quase toda a missão, exceto a descida até ao solo lunar.

O momento que o mundo na altura mais aguardava foi conseguido com a missão Apollo 11: 20 de julho de 1969: Um Salto Gigante para a Humanidade.

Apollo 11 leva o primeiro homem à Lua

Apollo 11 foi um voo espacial tripulado norte-americano responsável pelo primeiro pouso na Lua. Os astronautas Neil Armstrong e Buzz Aldrin pousaram o módulo lunar Eagle no dia 20 de julho de 1969 às 20h17 min UTC. Armstrong tornou-se o primeiro humano a pisar na superfície lunar seis horas depois já no dia 21, seguido por Aldrin vinte minutos depois.

Os dois passaram cerca de duas horas e quinze minutos fora da nave espacial e recolheram 21,5 quilogramas de material para trazer de volta à Terra. Michael Collins pilotou sozinho o módulo de comando e serviço Columbia na órbita da Lua enquanto os seus companheiros estavam na superfície. Armstrong e Aldrin passaram um total de 21 horas e meia na Lua até se reencontrarem com Collins.

Da esquerda para a direita Neil Armstrong, Michael Collins e Buzz Aldrin. Por que razão Armstrong saiu primeiro?

A missão foi lançada por um foguetão Saturno V do Centro Espacial John F. Kennedy na Flórida às 13h32min UTC de 16 de julho, tendo sido a quinta missão tripulada do Programa Apollo da Administração Nacional da Aeronáutica e Espaço (NASA). A nave Apollo era formada por três partes: um módulo de comando com uma cabine para três astronautas, a única parte que voltou para a Terra; um módulo de serviço, que apoiava o módulo de comando com propulsão, energia elétrica, oxigénio e água; e um módulo lunar dividido em dois estágios, um de descida para a Lua e um de subida para levar os astronautas de volta à órbita.

Os astronautas foram enviados em direção da Lua pelo terceiro estágio do Saturno V, separando-se do resto do foguetão e viajaram durante três dias até entrarem na órbita da Lua. Armstrong e Aldrin então foram para o Eagle, pousaram em Mare Tranquillitatis (Mar da Tranquilidade) e passaram um dia na superfície.

Os astronautas usaram o estágio de subida do módulo lunar para saírem da Lua e acoplarem com o Columbia. O Eagle foi abandonado antes de realizarem as manobras que os colocaram numa trajetória de volta à Terra. Eles voltaram em segurança e pousaram no Oceano Pacífico no dia 24 de julho após oito dias no espaço.

A alunagem foi transmitida ao vivo mundialmente pela televisão. Armstrong pisou na superfície lunar e proferiu palavras que ficaram famosas: “É um pequeno passo para [um] homem, um passo gigante para a humanidade”. A Apollo 11 encerrou a Corrida Espacial e realizou o objetivo nacional norte-americano estabelecido em 1961 pelo presidente John F. Kennedy de “antes de esta década acabar, aterrar um homem na Lua e trazê-lo em segurança para a Terra”.

Os três astronautas foram recebidos com enormes celebrações nos Estados Unidos e pelo mundo, recebendo diversas condecorações e homenagens.

Desde então, a Lua tem sido estudada em profundidade por mais cinco missões Apollo. Deveria ter havido seis, mas a Apollo 13 teve de ser abortada devido a uma rutura do tanque de oxigénio no módulo de serviço dois dias após a missão. Felizmente, nenhum dos membros da tripulação foi perdido.

 

E a Artemis?

Conforme descrito em cima, viajar até à Lua não é fácil. Se assim fosse, simples, barato e fácil, então a humanidade já lá teria ido várias vezes nestes últimos 50 anos. Mas isso não significa que o que as missões Apollo alcançaram seja uma farsa. Fizeram-no após muitas tentativas, algumas bem sucedidas e outras mal sucedidas, e felizmente sem a perda de qualquer vida humana.

Desde então, tem havido muitas mudanças na corrida espacial. Para começar, enquanto cada país ainda tem os seus próprios objetivos e ambições, foi descoberta a importância de unir forças. É por isso que o programa Artemis é uma colaboração internacional, constituída por um grande número de agências espaciais.

Além disso, os avanços na tecnologia espacial têm sido brutais nestas décadas. Temos melhores naves espaciais e melhores foguetões. Basta olhar para as características do SLS, o foguetão mais poderoso alguma vez criado. Mas é precisamente esta sofisticação que requer muita manutenção.

Muitos, mesmo muitos fatores têm de ser tidos em conta antes de lançar estas obras-primas de engenharia no espaço. Quando são lançados, serão lançados com muitas garantias, mas primeiro têm de ser afinados. Infelizmente, um sensor defeituoso e algumas fugas de combustível tornaram necessário esperar um pouco mais.

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