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Vivemos enganados com as distâncias do Sistema Solar

Os avanços da tecnologia têm mostrado o quanto desconhecemos o Universo, mas também como estamos ainda errados quanto ao que achamos que conhecemos do Sistema Solar. Afinal, o vizinho mais próximo de Neptuno é Mercúrio. Mas há outros “enganos”!


Tanto que desconhecemos o Sistema Solar

De facto, Mercúrio é, em média, o planeta mais próximo de todos os planetas do Sistema Solar.

Há informação que guardamos na cabeça de forma automática desde que a aprendemos, como as preposições ou a lista dos planetas do Sistema Solar.

Isso tem desvantagens: ou temos de recitar tudo até chegar ao que interessa, ou, se já passaram alguns anos, acabamos a lista com Plutão… sim, o tal planeta que deixou de o ser.

Qual é, afinal, o planeta mais próximo da Terra?

Perante esta pergunta, e com a tentação de repetir a lista decorada, muitas pessoas dirão Vénus e outras tantas Marte. A realidade é mais complexa e, embora a situação mude frequentemente, de forma generalizada considera-se que a resposta correta é Vénus.

De facto, ao olhar para as distâncias entre cada par de planetas, chegaríamos a essa conclusão. Bem… sim, mas não exatamente.

Tabela de distâncias planetárias

De Para Distância (UA) Distância (km) Distância (milhas)
Mercúrio Vénus 0,34 50 290 000 31 248 757
Mercúrio Terra 0,61 91 691 000 56 974 146
Mercúrio Marte 1,14 170 030 000 105 651 744
Mercúrio Júpiter 4,82 720 420 000 447 648 234
Mercúrio Saturno 9,14 1 366 690 000 849 221 795
Mercúrio Urano 18,82 2 815 640 000 1 749 638 696
Mercúrio Neptuno 29,70 4 443 090 000 2 760 936 126
Vénus Terra 0,28 41 400 000 25 724 767
Vénus Marte 0,80 119 740 000 74 402 987
Vénus Júpiter 4,48 670 130 000 416 399 477
Vénus Saturno 8,80 1 316 400 000 817 973 037
Vénus Urano 18,49 2 765 350 000 1 718 388 490
Vénus Neptuno 29,37 4 392 800 000 2 729 685 920
Terra Marte 0,52 78 340 000 48 678 219
Terra Júpiter 4,20 628 730 000 390 674 710
Terra Saturno 8,52 1 275 000 000 792 248 270
Terra Urano 18,21 2 723 950 000 1 692 662 530
Terra Neptuno 29,09 4 351 400 000 2 703 959 960
Marte Júpiter 3,68 550 390 000 342 012 346
Marte Saturno 7,99 1 196 660 000 743 604 524
Marte Urano 17,69 2 645 610 000 1 643 982 054
Marte Neptuno 28,56 4 273 060 000 2 655 279 484
Júpiter Saturno 4,32 646 270 000 401 592 178
Júpiter Urano 14,01 2 095 220 000 1 301 969 708
Júpiter Neptuno 24,89 3 722 670 000 2 313 267 138
Saturno Urano 9,70 1 448 950 000 900 377 530
Saturno Neptuno 20,57 3 076 400 000 1 911 674 960
Urano Neptuno 10,88 1 627 450 000 1 011 297 430

Até a NASA se refere a Vénus como “o nosso vizinho planetário mais próximo”. E embora isso seja verdade se olharmos apenas para o planeta que mais se aproxima da Terra, já não o é quando a questão é saber qual é o planeta mais próximo em média. Aqui, o cenário muda e há um novo vencedor: Mercúrio.

Mercúrio é o planeta mais interior do Sistema Solar, mas, em média, passa mais tempo perto da Terra do que Vénus. Mais ainda: Mercúrio é, em média, o planeta mais próximo de todos os outros planetas do Sistema Solar.

Porque falha o método tradicional

O método habitual limita-se a subtrair o raio médio da órbita interior ao da exterior. Assim, a distância média entre a Terra (1 UA) e Vénus (0,72 UA) seria de 0,28 UA. Quando estão mais afastados, Vénus pode chegar a estar a 1,72 UA da Terra.

Embora seja intuitivo considerar a distância média entre dois pontos de elipses concêntricas como a diferença dos seus raios, essa diferença apenas determina a distância média dos pontos mais próximos das elipses, não de todas as posições possíveis.

Fazer a média entre os cenários de maior aproximação e maior afastamento melhora o cálculo, mas continua a ser impreciso, explicam os cientistas Tom Stockman, Gabriel Monroe e Samuel Cordner.

O método ponto-círculo muda tudo

Por isso, o Instituto Americano de Física desenvolveu um método matemático mais rigoroso, que calcula a distância média dos planetas ao longo do tempo. Neste cenário, tudo muda, não apenas para a Terra, mas para todos os planetas.

O método chama-se ponto-círculo (PCM) e modela as órbitas como círculos concêntricos e coplanares. Como os planetas passam o mesmo tempo em cada ponto da sua órbita, é possível calcular a distância média integrando todas as posições possíveis.

Com este método, Vénus encontra-se, em média, a 1,14 UA da Terra, enquanto Mercúrio está a apenas 1,04 UA.

O corolário “whirly-dirly”

Observámos que a distância entre dois corpos em órbita é mínima quando a órbita interior é a mais pequena. Esta observação levou ao que chamamos o corolário whirly-dirly, uma referência a um episódio da série Rick and Morty.

Para dois corpos com órbitas aproximadamente coplanares, concêntricas e circulares, a distância média entre ambos diminui à medida que diminui o raio da órbita interior.

A equipa de investigação executou uma simulação que calculou a posição dos oito planetas ao longo de 10.000 anos, registando continuamente as suas distâncias.

Os resultados diferiram até 300% face ao método tradicional, mas menos de 1% quando comparados com o método ponto-círculo.

Um resultado com impacto para além da Terra

Esta descoberta não afeta apenas a Terra. Pode ser generalizada a qualquer par de corpos com órbitas aproximadamente circulares, concêntricas e coplanares.

Com este método, a distância média entre dois corpos depende do raio da órbita interior: quanto menor for essa órbita, menor será a distância média.

Em resumo, Mercúrio é o planeta mais próximo da Terra, mas também de Neptuno e até do agora reclassificado Plutão.

Para além de alterar o paradigma sobre como encaramos as distâncias planetárias, este método pode vir a ser útil na estimativa de comunicações com satélites.

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