Brasil levou 158 milhões de eleitores às urnas. A tecnologia deu o resultado em poucas horas
O Brasil realizou este domingo uma das maiores operações eleitorais do mundo. Mais de 158 milhões de pessoas estavam habilitadas a votar e, poucas horas depois do fecho das urnas, o resultado estava praticamente decidido. Por detrás desta rapidez está uma tecnologia que acaba de completar 30 anos: a urna eletrónica brasileira.

As eleições presidenciais brasileiras vão ter uma segunda volta. Flávio Bolsonaro, do Partido Liberal (PL), terminou o primeiro turno à frente, com 47,03% dos votos válidos, seguindo-se o atual Presidente Luiz Inácio Lula da Silva, do Partido dos Trabalhadores (PT), com 45,16%.
Com 99,99% das urnas apuradas, Flávio Bolsonaro somava 56.104.268 votos, enquanto Lula registava 53.876.617 votos. A diferença entre os dois ficou, assim, em pouco mais de 2,2 milhões de votos.
Nenhum conseguiu ultrapassar os 50% dos votos válidos necessários para vencer imediatamente, pelo que os brasileiros regressam às urnas no próximo dia 25 de outubro para escolher o próximo Presidente.
Mas há outro número impressionante nestas eleições: a velocidade com que tudo isto foi contado.

Quase 159 milhões de eleitores
O Brasil tinha 158.745.463 eleitores habilitados a votar nas eleições de 4 de outubro, mais cerca de 2,3 milhões do que nas eleições de 2022. E não estava apenas em causa a Presidência.
Os brasileiros escolheram também governadores, senadores, deputados federais e deputados estaduais ou distritais. No estrangeiro, os cidadãos brasileiros votaram apenas para Presidente e vice-presidente.
A dimensão logística é difícil de ignorar. Para estas eleições, a Justiça Eleitoral brasileira disponibilizou 563.910 urnas eletrónicas, das quais cerca de 499 mil foram efetivamente utilizadas na votação, ficando as restantes disponíveis, entre outras funções, para substituição de equipamentos. E é precisamente aqui que entra a tecnologia.
A tecnologia eleitoral brasileira fez 30 anos
A urna eletrónica brasileira estreou-se precisamente há 30 anos, nas eleições municipais de 1996.
Na altura, ainda foi utilizada apenas parcialmente. A partir das eleições municipais de 2000, o voto eletrónico passou a abranger todo o eleitorado brasileiro.
Antes disso, o processo era muito diferente. Os eleitores utilizavam boletins em papel, que posteriormente tinham de ser contados manualmente.
Além de tornar a operação muito mais demorada, a votação em papel permitia erros humanos e diferentes formas de fraude durante a votação e contagem.
A informatização começou a ser preparada em 1995 e envolveu especialistas de diferentes organismos brasileiros. O primeiro equipamento ficou conhecido oficialmente como Coletor Eletrónico de Votos, ou CEV, embora tenha passado para a história simplesmente como urna eletrónica.

A evolução não parou em 1996
A máquina utilizada atualmente está bastante longe tecnologicamente dos primeiros equipamentos.
Em 1998, passou a apresentar a fotografia dos candidatos. Em 2002 foram introduzidos mecanismos como a cerimónia pública de lacração dos sistemas e os testes de integridade.
A partir de 2004, o código fonte passou igualmente a poder ser inspecionado no âmbito dos procedimentos de auditoria. A identificação biométrica começou a ser introduzida em 2006.
As gerações mais recentes deram outro salto. A UE2020, por exemplo, recebeu uma capacidade de processamento 18 vezes superior à geração UE2015, além de um ecrã tátil no terminal utilizado pelos responsáveis das mesas de voto e alterações ao sistema criptográfico.
Nas eleições de 2026 foram utilizados quatro modelos: UE2013, UE2015, UE2020 e UE2022, sendo que cerca de 77% dos equipamentos pertencem às duas gerações mais recentes.
Mas como se contam 120 milhões de votos tão depressa?
Aqui está provavelmente a parte tecnologicamente mais interessante do sistema brasileiro. Ao contrário do que por vezes se pensa, não existe uma enorme base de dados onde cada eleitor envia diretamente o seu voto pela Internet.
As urnas eletrónicas não estão ligadas à Internet durante a votação.
Cada urna funciona de forma autónoma e regista os votos daquela secção eleitoral. Quando a votação termina, o próprio equipamento realiza a apuração local e gera um documento denominado Boletim de Urna (BU).
Só posteriormente os resultados provenientes das centenas de milhares de urnas são enviados para os sistemas da Justiça Eleitoral e somados.
Ou seja:
urna → apuração local → Boletim de Urna → transmissão → totalização nacional
É por isso importante distinguir dois conceitos. A apuração acontece dentro de cada urna. A totalização corresponde à soma dos resultados provenientes das diferentes urnas.
E qualquer pessoa pode conferir
Há ainda um pormenor particularmente interessante do ponto de vista tecnológico e da transparência.
Quando termina a votação, cada urna imprime o respetivo Boletim de Urna, indicando quantos votos recebeu cada candidato, bem como os votos brancos e nulos.
Este documento contém também um QR Code. Um cidadão pode digitalizá-lo e posteriormente comparar os números daquela secção com os resultados publicados pelo Tribunal Superior Eleitoral.
Na prática, isto permite realizar uma verificação independente da totalização: se os boletins produzidos pelas urnas coincidirem com os dados posteriormente publicados pelo TSE, é possível verificar a soma dos resultados.

Mais de 40 processos de auditoria
A segurança das eleições não depende apenas de as urnas estarem desligadas da Internet. Segundo a Justiça Eleitoral brasileira, existem mais de 40 mecanismos e procedimentos de auditoria, incluindo inspeção do código fonte, assinaturas digitais e testes de integridade.
Nestes últimos, votos previamente registados em papel são introduzidos nas urnas e o resultado eletrónico é depois comparado com esse registo. Nos testes realizados no primeiro turno, o TSE confirmou a correspondência entre os votos em papel e os contabilizados pelas urnas testadas.
Às 17h fecharam as urnas. Às 20h55 já havia segunda volta
Talvez a melhor demonstração da escala deste sistema tenha acontecido precisamente este domingo.
A votação terminou às 17h, hora de Brasília, momento a partir do qual começaram a ser recebidos e processados os Boletins de Urna provenientes de todo o país.
Por volta das 20h55, com aproximadamente 96,4% das secções apuradas, já estava matematicamente confirmado que nenhum candidato ultrapassaria os 50% dos votos válidos e que Flávio Bolsonaro e Lula seguiriam para a segunda volta. Pouco depois, praticamente todo o país estava contado.
Com 99,99% das urnas apuradas, foram registados 125.272.513 votos válidos, além de cerca de 2,3 milhões de votos brancos e 3,67 milhões de votos nulos.
Isto significa que uma eleição realizada num país com dimensão continental, envolvendo centenas de milhares de equipamentos e mais de uma centena de milhões de votos, conseguiu produzir um resultado praticamente definitivo no próprio dia da votação.

A tecnologia volta a entrar em ação a 25 de outubro
Trinta anos depois da estreia da urna eletrónica, o Brasil voltou a colocar à prova uma das maiores infraestruturas de votação eletrónica do mundo. E a operação ainda não terminou.
No próximo 25 de outubro, Flávio Bolsonaro e Lula regressam às urnas para decidir a Presidência. Centenas de milhares de máquinas voltarão a funcionar num território de 8,5 milhões de km² e, poucas horas depois do último CONFIRMA, o Brasil deverá conhecer o seu próximo Presidente.


















