Criado em 1979, numa altura em que os processos clínicos eram feitos em papel e a informática ainda tinha uma presença muito limitada nos hospitais, o Serviço Nacional de Saúde (SNS) transformou-se, quase cinco décadas depois, numa das maiores infraestruturas tecnológicas do país. Da informatização básica à cirurgia robótica, eis como a tecnologia foi mudando a forma como Portugal cuida da saúde dos seus cidadãos.
Nos primeiros anos do SNS, a tecnologia servia para gerir informação administrativa: quem eram os utentes, que cuidados recebiam, como funcionavam os hospitais.
Nesse contexto, em 1988, surgiu o Sistema Integrado de Informação Hospitalar (SONHO), criado pelo Instituto de Gestão Informática e Financeira da Saúde (IGIF) e instalado progressivamente nas unidades hospitalares a partir de meados da década de 1990.
Do lado dos cuidados primários, chegou o SINUS, responsável por gerir consultas, vacinação e o cartão de utente nos centros de saúde.
Para ligar tudo isto nasceu a Rede de Informação da Saúde (RIS), criando as primeiras grandes infraestruturas de comunicação entre instituições. Apesar de parecer pouco aos olhos dos dias de hoje, foi assim que a informação de saúde começou a deixar de depender exclusivamente do papel.
Do administrativo para o clínico
O passo seguinte foi levar os computadores para dentro do próprio ato médico. Surgiram o Sistema de Apoio ao Médico (SAM) e o Sistema de Apoio à Prática de Enfermagem (SAPE), pensados para registar consultas, prescrições e cuidados de enfermagem.
Estas ferramentas viriam mais tarde a dar origem ao SClínico, que foi substituindo gradualmente os sistemas mais antigos, à medida que o SNS procurava consolidar os seus sistemas de informação.
Apesar das ferramentas disponíveis, hospitais e centros de saúde funcionaram, durante anos, como verdadeiras ilhas de informação, com sistemas que não comunicavam entre si, um problema identificado em vários planos e relatórios da saúde ao longo da década de 2000.
Por isso, a integração e a partilha de dados tornaram-se um dos grandes desafios da transformação digital da saúde, em Portugal.
Em 2012, a informação começa a viajar com o doente
A grande mudança de paradigma chegou em 2012, com o lançamento oficial da Plataforma de Dados da Saúde (PDS).
Pela primeira vez, um hospital podia consultar informação clínica registada noutra instituição, mesmo que o utente tivesse sido tratado do outro lado do país.
Deixou de ser preciso informatizar cada serviço isoladamente, passando pensar-se numa rede única. Nesta fase, os serviços digitais começaram a chegar diretamente aos cidadãos, e não apenas aos profissionais de saúde.
A receita deixa de ser em papel e o SNS entra no telemóvel
Poucas mudanças tornaram a transformação digital do SNS tão visível como a Receita Sem Papel.
O projeto arrancou em 2013 e começou a ser implementado em 2015, permitindo que a receita passasse a circular eletronicamente entre médico, SNS, farmácia e cidadão.
A mudança tornou-se obrigatória em todo o SNS a 1 de abril de 2016, depois de uma implementação faseada.
Entretanto, em 2017, o SNS deu outro salto com a inauguração do SNS 24, o novo Centro de Contacto do Serviço Nacional de Saúde.
O que começou como uma evolução da antiga Linha Saúde 24 tornou-se, com o tempo, um verdadeiro canal digital de acesso ao sistema de saúde, com informação, marcação de consultas e triagem ao alcance de uma aplicação.
A pandemia de COVID-19 viria a acelerar ainda mais este caminho, impulsionando a telemedicina e as consultas à distância a um ritmo que dificilmente se teria alcançado em circunstâncias normais.
Robôs, ressonâncias e o futuro dos dados
A transformação tecnológica não fica só nos ecrãs. Em 2023, o Governo anunciou um investimento de 117 milhões de euros, financiado pelo PRR, para modernizar o parque tecnológico de 29 instituições do SNS.
O pacote incluiu ressonâncias magnéticas, tomografias computorizadas, angiógrafos, câmaras gama, aceleradores lineares e robots cirúrgicos, reforçando a capacidade tecnológica dos hospitais do SNS.
Para se ter uma ideia da evolução, em 2022 existia apenas um robô cirúrgico no SNS; em 2023, foram instalados mais quatro, dando continuidade à expansão da cirurgia robótica no sistema público.
Olhando para a frente, o SNS trabalha agora no Registo de Saúde Eletrónico Único (RSEu), que promete reforçar a interoperabilidade entre sistemas e criar uma visão verdadeiramente integrada da informação de cada doente, com Inteligência Artificial e análise de dados a serem cada vez mais relevantes.
Se em 1979 um SNS moderno significava garantir acesso universal à saúde, 47 anos depois esse continua a ser o objetivo, mas com a tecnologia a tentar torná-lo mais rápido, mais próximo e mais inteligente.





















