ONU aprova novo mapa do mundo: o desenho que usamos há séculos estava errado?
A Assembleia Geral das Nações Unidas aprovou esta sexta-feira uma resolução histórica que vai mudar a forma como vemos o mapa-múndi. Chega ao fim o reinado de mais de 450 anos da projeção de Mercator, acusada de “encolher” visualmente continentes como África e a América Latina.
Crescemos a olhar para mapas baseados na projeção criada pelo cartógrafo flamengo Gerardus Mercator, em 1569. Apesar de ser um sistema muito útil para a navegação, mantendo os ângulos e direções constantes, tem um problema: quanto mais longe do equador, maior um território parece, mesmo que não seja.
O exemplo mais citado é a Gronelândia, que no mapa de Mercator surge com um tamanho semelhante ao de África ou maior do que toda a América do Sul. Na realidade, a Gronelândia é aproximadamente do tamanho da República Democrática do Congo, e o continente africano é cerca de 14 vezes maior do que ela.
Esta distorção não é apenas um pormenor técnico. Segundo os autores da resolução, contribui para uma “minimização simbólica” de regiões como África, a América Latina e o Sul da Ásia, reforçando ideias antigas de superioridade de países do hemisfério norte face às demais.

Como foi aprovada a resolução
A proposta, apelidada de “Correct the Map” (em português, “Corrigir o Mapa”), foi apresentada por estados-membros da União Africana e pelas Bahamas, e teve uma votação esmagadora: 164 países a favor, seis abstenções e apenas um voto contra, o dos Estados Unidos.
O processo já vinha a ser preparado há meses. A União Africana adotou o novo mapa em março, e em abril o Togo pediu formalmente, em nome do bloco africano, que a Organização das Nações Unidas (ONU) fizesse o mesmo. Depois de consultas informais em julho, a resolução seguiu para votação esta sexta-feira.
A alternativa é a projeção Equal Earth
Em vez do mapa de Mercator, a ONU propõe agora a adoção da projeção Equal Earth, criada em 2018 e apresentada na conferência da North American Cartographic Information Society. Ao contrário de Mercator, esta projeção representa com maior fidelidade a área real de cada região do planeta.
Visualmente, a Europa encolhe, o Brasil ganha volume, a Gronelândia reduz-se drasticamente e África surge com a dimensão que realmente tem, sendo muito maior do que aquilo a que estávamos habituados a ver.
Há ainda variantes da Equal Earth que colocam a Oceânia, e não Greenwich, no centro do mapa, questionando outra convenção antiga, a de usar Londres como referência geográfica e horária global.

Já houve anúncios sobre a adoção da mudança
Horas depois da votação, o ministro dos Negócios Estrangeiros francês, Jean-Noël Barrot, confirmou que o país vai abandonar a projeção de Mercator em favor de representações mais fiéis à dimensão real dos territórios.
A justificá-lo, segundo a CNN, Barrot citou o desequilíbrio visual entre potências como Estados Unidos, Rússia e China e regiões como África, América Latina ou o Sudeste Asiático, sublinhando que estas distorções “acabam por se enraizar nas perceções” das pessoas.
Entretanto, importa mencionar que a resolução da ONU não é vinculativa, mas apela às plataformas tecnológicas para que dialoguem com os estados-membros e adotem a nova projeção.
Atualmente, serviços como o Google Maps continuam a usar uma versão baseada em Mercator, pelo que a adoção prática desta mudança deverá ser gradual, tal como aconteceu com outras normas internacionais que demoraram anos a generalizar-se.
Leia também:
Os mapas do mundo que temos visto ao longo dos anos estão, pelos vistos, incorretos


















