As águas do Pacífico tropical estão excecionalmente quentes e alimentam um episódio de El Niño que deverá atingir uma intensidade muito forte até ao final de 2026. O fenómeno pode aumentar o risco de secas, inundações e ondas de calor em várias regiões do planeta, embora os seus efeitos não sejam iguais em todo o lado.
1. O que é o El Niño?
O El Niño é a fase quente de um ciclo natural denominado El Niño – Oscilação Sul, ou ENSO. Manifesta-se quando as águas superficiais do Pacífico equatorial central e oriental ficam persistentemente mais quentes do que o habitual.
Este aquecimento altera os ventos, a formação de nuvens e a circulação da atmosfera. Apesar de nascer no Pacífico, o fenómeno consegue modificar padrões de temperatura e precipitação a milhares de quilómetros de distância.

2. Porque se fala agora num episódio “muito forte”?
O El Niño está firmemente estabelecido e continua a intensificar-se. Segundo a Organização Meteorológica Mundial (OMM), deverá atingir uma intensidade muito forte e alcançar o pico perto do final de 2026.
A NOAA, agência meteorológica norte-americana, atribui uma probabilidade superior a 90% à ocorrência de um episódio muito forte durante o outono e o inverno do hemisfério norte. Um El Niño mais intenso torna certos impactos mais prováveis, mas não permite prever exatamente o que acontecerá em cada país.
3. Até quando poderá durar?
A OMM estima que existe uma probabilidade próxima de 100% de o El Niño persistir até fevereiro de 2027. Mesmo depois de as águas começarem a arrefecer, alguns efeitos atmosféricos e humanitários poderão prolongar-se durante vários meses.
Isso não significa que o fenómeno terá sempre a mesma intensidade, isto é, deverá fortalecer-se até ao final de 2026 e enfraquecer posteriormente.
4. Que consequências pode provocar no mundo?
Os efeitos variam conforme a região e a época do ano. Historicamente, episódios fortes estão associados a maior risco de:
- chuvas intensas e inundações em partes da América do Sul;
- seca na Austrália, Indonésia e algumas regiões da Ásia;
- calor extremo em diferentes continentes;
- perdas agrícolas e maior insegurança alimentar;
- alterações nos ecossistemas marinhos e branqueamento de corais;
- danos em infraestruturas e perturbações no abastecimento de água.
O El Niño pode também influenciar a atividade dos ciclones tropicais, reforçando-a em algumas bacias oceânicas e reduzindo-a noutras.
5. O planeta ficará mais quente?
Provavelmente. Os anos de El Niño tendem a ser globalmente mais quentes do que os anos dominados pela fase fria, a La Niña. O fenómeno natural soma-se agora ao aquecimento provocado pelas emissões humanas de gases com efeito de estufa.
O El Niño não é causado pelas alterações climáticas. Contudo, atua sobre um planeta que já está mais quente, o que pode tornar determinados extremos mais severos.
6. E em Portugal?
A influência do El Niño em Portugal é menos direta e previsível do que nas regiões tropicais. O IPMA assinala que o fenómeno pode interferir na temperatura e na precipitação, mas não determina, por si só, se um inverno será chuvoso ou seco.
O estado do Atlântico Norte, a circulação atmosférica europeia e outros fatores climáticos podem reforçar ou contrariar essa influência. Para Portugal, as previsões sazonais do IPMA e dos serviços europeus são, por isso, mais úteis do que uma conclusão baseada apenas no El Niño.
7. Um El Niño forte significa necessariamente uma catástrofe?
Não. Intensidade e impacto não são a mesma coisa. Duas regiões podem sentir efeitos muito diferentes durante o mesmo episódio, e nem todos os acontecimentos extremos podem ser atribuídos diretamente ao El Niño.
Ainda assim, previsões tão consistentes justificam uma preparação antecipada, como reforço dos sistemas de alerta, gestão das reservas de água, adaptação da agricultura e proteção das populações mais vulneráveis.
8. O que acontecerá depois?
O El Niño acabará por enfraquecer e o Pacífico regressará a condições neutras ou evoluirá para La Niña. O momento exato dessa transição continua incerto.
Até lá, a recomendação dos especialistas é acompanhar as previsões regionais. O El Niño ajuda a perceber o cenário global, mas não funciona como uma previsão meteorológica para uma cidade ou para um dia específico.























