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O português que falsificou uma ordem e mandou imprimir dinheiro verdadeiro

9 Comentários

Artur Virgílio Alves Reis protagonizou, em 1925, uma das mais audaciosas fraudes financeiras da história. Em vez de tentar fabricar notas falsas, decidiu enganar a própria empresa responsável por imprimir parte do dinheiro português.

O resultado foram milhares de notas praticamente impossíveis de distinguir das legítimas, uma vez que tinham sido produzidas com o papel, as tintas, as máquinas e as chapas oficiais usadas pelo Banco de Portugal.

O documento falso que convenceu uma empresa real

Alves Reis falsificou contratos, assinaturas, selos e correspondência que aparentavam demonstrar que o Banco de Portugal o tinha autorizado a encomendar uma emissão especial de dinheiro.

O suposto objetivo seria imprimir notas destinadas a Angola, então uma colónia portuguesa, no âmbito de uma operação confidencial de financiamento e desenvolvimento económico.

Com esses documentos, Reis e os seus cúmplices convenceram a britânica Waterlow & Sons, que já trabalhava com o Banco de Portugal, a produzir uma nova série de notas de 500 escudos.

A empresa utilizou as chapas oficiais da nota com a imagem de Vasco da Gama. Foram impressas cerca de 200 mil notas, num valor nominal de 100 milhões de escudos.

Dinheiro não autorizado, mas tecnicamente verdadeiro

Estas notas não eram contrafações tradicionais. Tinham sido impressas por uma empresa legítima, com os mesmos materiais e equipamentos usados nas notas autorizadas pelo Banco de Portugal.

O problema estava na origem da encomenda: a autorização era completamente falsa.

As notas começaram a entrar em Portugal durante 1925, sendo utilizadas para comprar propriedades, empresas, moeda estrangeira e participações financeiras.

Alves Reis criou ainda o Banco Angola e Metrópole, através do qual movimentava parte do dinheiro.

A quantidade colocada em circulação terá correspondido a cerca de 1% do produto interno bruto português da época e a uma parcela muito significativa das notas que circulavam no país.

Queria controlar o Banco de Portugal

O plano tornou-se ainda mais ambicioso quando Alves Reis começou a comprar ações do próprio Banco de Portugal.

O objetivo seria conquistar uma posição suficientemente forte para controlar a instituição que poderia descobrir a fraude. Terá conseguido reunir aproximadamente 10 mil ações, embora precisasse de cerca de 45 mil para alcançar o controlo pretendido.

A estratégia acabaria por falhar antes de chegar a esse ponto.

Os números de série denunciaram o esquema

Como a Waterlow & Sons reutilizou chapas e sequências já existentes, algumas das novas notas ficaram com números de série iguais aos de notas legítimas.

Foi essa repetição que ajudou a desvendar o caso. Em dezembro de 1925, foram encontradas notas de 500 escudos com números idênticos. Ao mesmo tempo, uma investigação do jornal “O Século” levantava suspeitas sobre a origem do dinheiro utilizado pelo Banco Angola e Metrópole.

Alves Reis foi detido a 6 de dezembro de 1925, quando regressava de Angola. Tinha apenas 29 anos.

Banco de Portugal retirou todas as notas de 500 escudos

Perante a impossibilidade de separar facilmente as notas autorizadas das notas impressas através da fraude, o Banco de Portugal decidiu retirar de circulação toda a emissão de 500 escudos.

O caso provocou enormes prejuízos, abalou a confiança na moeda portuguesa e desencadeou uma longa batalha judicial contra a Waterlow & Sons.

Em 1932, a Câmara dos Lordes britânica condenou a empresa a indemnizar o Banco de Portugal em mais de 610 mil libras, reconhecendo a responsabilidade da gráfica pela entrega das notas a pessoas que não estavam autorizadas a recebê-las.

Alves Reis foi condenado a 20 anos de prisão. Ficou para a história como o homem que não falsificou dinheiro: falsificou o direito de o mandar imprimir.

Comentários

9
  1. AN
    Analista

    Por causa dele começou a ditadura (1926-1974)

  2. DA
    daniel

    agr fazem isso regularmente, e o povo a pensar que o lastro do dinheriro é o ouro!

    1. EU
      Eu

      Escravos sem algemas e chicote. Até que descubram que estão a ser enganados, empobrecem a cada dia.

    2. CR
      Cromo

      Ninguém pensa isso, já há muito tempo que isso não acontece.

  3. MA
    Max

    Cumpriu 20 anos, foi libertado em 1945, morreu 10 anos depois, aos 58 anos, pobre.
    Em 2024 estava preso no Porto por fraudes em Angola. O golpe das notas foi no ano seguinte.
    Teve cúmplices, com nomes ilustres, que lhe permitiram enganar a Waterlow & Sons para imprimir as notas e que assumiram a administração do Banco Angola e Metrópole, permitindo-lhe ficar na sombra.
    Um burlão muito avançado. Mas é de facto inacreditável como é que a empresa inglesa imprimiu notas verdadeiras, encomendadas pelo Banco de Portugal e depois reimprimiu novas notas – com o mesmo número das que já estavam em circulação, que entregou aos cúmplices de Alves dos Reis. A explicação dada pelos cúmplices de Alves dos Reis foi que essas notas faziam parte de uma operação secreta para salvar as finanças de Angola e que seriam para circular exclusivamente lá e que à chegada seria aposta uma marca “Angola” (o que nunca aconteceu).

  4. PO
    PorcoDoPunjab

    Um verdadeiro artista português…
    E isto ainda na casa dos 20 anos.
    Um talento…

  5. EU
    Eu

    Não fazia mais do que os bancos de hoje, pois imprimem sem respaldo a qualquer ativo. O que antes era crime, hoje é autorizado, legal e normal. O povo com falta de literacia engole sem qualquer revolta.

    1. HU
      Hugo

      LOL És bem inteligente tu, não haja dúvida.

  6. LM
    LMR

    Se fosse hoje, ele não teria ido para a prisão por causa do Alzheimer.

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