Há utilizadores a fugir dos portáteis para… máquinas de escrever digitais. Já as conhece?
Numa era em que o computador consegue fazer praticamente tudo, há quem defenda que a melhor forma de escrever é usar um dispositivo que não faz quase nada. Chamam-lhes “teclados sem distrações” e a proposta é a seguinte: um ecrã, um teclado, e nada mais entre o utilizador e o texto.
O conceito de teclado burro
Os teclados sem distrações são máquinas dedicadas exclusivamente à escrita. Têm normalmente um pequeno ecrã onde vai aparecendo o texto à medida que é escrito, mas não há navegador, não há redes sociais, não há apps de qualquer tipo.
A conectividade à Internet, quando existe, serve apenas para sincronizar os documentos com a cloud, nunca para navegar ou consultar seja o que for.
O grande objetivo é criar aquilo a que alguns chamam uma “bolha de concentração”, ou seja, um espaço onde a única ação possível é escrever, sem a tentação constante de abrir um separador do browser ou verificar uma notificação.

O nome mais conhecido nesta categoria é a Freewrite, da empresa norte-americana Astrohaus, com vários modelos que combinam ecrã de tinta eletrónica (ou LCD, consoante a versão), teclado de alta qualidade, como mecânicos ou scissor switch, e armazenamento interno para vários manuscritos.
Do lado japonês, a Pomera, da King Jim, segue uma filosofia semelhante, com modelos ultra-portáteis pensados para notas rápidas e sessões de escrita concentrada.

Como resolvem o problema da distração
A ideia por detrás destes dispositivos parte do princípio de que quanto mais capaz for uma ferramenta mais vais competir pela nossa atenção.
Um portátil normal é excelente, porque permite fazer tudo. Contudo, também pode ser uma verdadeiro inimigo da concentração, pois cada frase escrita concorre com o e-mail por ler, o Slack a piscar ou a app de notícias à espera de ser aberta.
Os teclados sem distrações resolvem isto, eliminando fisicamente a possibilidade de fazer outra coisa. Não há neles um “modo concentração” que pode ser desligado a qualquer momento. Aliás, a limitação está no próprio hardware.

Os ecrãs de tinta eletrónica, usados na maioria dos modelos topo de gama, reforçam esse efeito. Além de proporcionarem uma autonomia de bateria que pode chegar a semanas, têm uma componente quase psicológica, pois parecem mais papel do que ecrã, ajudando a sair do modo mental associado ao consumo digital.
Outro detalhe relevante é que muitos destes aparelhos dificultam deliberadamente a edição do texto já escrito, incentivando o utilizador a avançar sempre para a frente, tal como aconteceria numa máquina de escrever tradicional. A edição fica reservada para depois, quando o texto é sincronizado e transferido para um computador normal.

Vale a pena?
Nem todos estão convencidos. Há quem argumente que o problema nunca foi a ferramenta, mas o hábito, e que um telemóvel em modo avião ou uma simples app de concentração resolve o mesmo problema, sem exigir um investimento de várias centenas de euros num dispositivo de função única.
Ainda assim, para escritores, jornalistas ou qualquer pessoa que precise de longas sessões de escrita ininterrupta, a proposta destes dispositivos atrai público.
Tal como acontece com os discos de vinil face ao streaming, talvez não seja apenas uma questão de eficiência.
Onde encontrar estes teclados burros
Para quem tiver curiosidade em experimentar o conceito, o Freewrite, por exemplo, está disponível na Amazon:
Astrohaus Freewrite
Máquina de escrever inteligente de 3.ª geração, ferramenta de escrita sem distrações com ecrã de tinta eletrónico iluminado, teclado mecânico e sincronização Wi-Fi.



















