Médico usa um rato gaming da Razer para tratar pacientes. Como é possível?
Um rato pensado para longas horas de League of Legends tornou-se na ferramenta mais importante de um médico norte-americano que atende doentes em 37 estados sem nunca pegar num estetoscópio.
Fundador da clínica de telemedicina Twenty Mile Medical, James Ries faz praticamente todo o seu trabalho através de um Razer Naga V2 Pro.
Especializado em consultas de urgência, saúde mental e gestão de peso, Ries quase nunca escreve uma frase completa numa nota clínica. Em vez disso, recorre aos 12 botões programáveis do rato para conduzir todo o atendimento remoto.
Como funciona o sistema de "monster Snippets"
A solução assenta na aplicação TextExpander, normalmente usada para criar pequenos atalhos de texto. Aliás, foi a própria app que, numa publicação no seu website oficial, contou a história deste médico, com o objetivo de reforçar a sua pertinência.
A maioria dos utilizadores associa cada atalho a uma frase curta, como uma assinatura ou uma morada. Por sua vez, Ries construiu aquilo a que chama "monster Snippets": atalhos únicos que escondem um cenário clínico inteiro, com opções ramificadas lá dentro.
Um dos Snippets trata uma sinusite do início ao fim, desde avaliação até opções de prescrição, instruções para o doente e plano de acompanhamento. Outro trata renovações de medicação psiquiátrica.
Ao acionar um destes atalhos com um clique do polegar, o médico recebe uma espécie de formulário interativo, com caixas de seleção e menus, onde escolhe apenas o que se aplica àquele doente. O resto preenche-se sozinho.
Um problema mais subtil do que parece
A motivação não nasceu apenas da vontade de poupar tempo. Para Ries, cada profissional tende a desenvolver o seu próprio estilo de documentação, o que significa que dois doentes podem receber níveis de cuidado diferentes consoante quem os atendeu ou a que horas do dia foram atendidos.
As instruções de alta dadas às oito da manhã diferem das instruções dadas pelo mesmo médico às quatro da tarde, depois de um turno inteiro de consultas.
Na experiência de Ries, a maioria dos erros em telemedicina não nasce de diagnósticos incorretos, mas de pequenos esquecimentos.
Esta preocupação tem sustento científico, com um estudo publicado na revista BMJ Open a concluir que os médicos tomam, em média, cerca de 13,4 decisões clinicamente relevantes por consulta, e a investigação sobre fadiga de decisão mostra que essas escolhas tendem a piorar ao longo de um turno de trabalho.
Ao eliminar a necessidade de procurar informação e de escrever repetidamente os mesmos conteúdos, os Snippets garantem que nenhum elemento obrigatório de uma consulta fica de fora.
O rato por detrás da ideia
A escolha do Razer Naga V2 Pro não é aleatória. Trata-se de um rato sem fios, com design ergonómico e botões programáveis na lateral, popular entre jogadores de jogos de tiro em primeira pessoa, precisamente pela rapidez de resposta que oferece.
O médico mapeia cada botão para um único símbolo, que depois aciona o Snippet correspondente. Nem todos os membros da sua equipa usam o mesmo periférico, com alguns a preferirem um pequeno comando sem fios de botões programáveis, mas o princípio mantém-se: reduzir ao mínimo os gestos entre pensar numa resposta e enviá-la ao doente.
A biblioteca de Snippets é partilhada com toda a equipa clínica, e Ries chegou mesmo a publicar gratuitamente uma versão da mesma, batizada de "Telehealth Starter Pack", para que outros profissionais de saúde a pudessem adaptar ao seu próprio trabalho.
Para Ries, o sistema não tornou as consultas mais frias ou mecânicas. Por sua vez, libertou o tempo e energia mental que normalmente se perderiam a escrever e direcionou-a para o que realmente importa, que é ouvir o doente.






















Faz ele muito bem!