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Euro 7 está a “asfixiar” os motores a gasolina… e o problema vai muito além das emissões

47 Comentários

Não, a Euro 7 não se resume às emissões. Esta norma está a obrigar a mudar a forma como os motores funcionam internamente, e há uma solução que se está a expandir com força: o ciclo Miller.

Ilustração motor a gasolina a funciona como manda a norma Euro 7

 

Emissões, pressão e mudanças profundas

Emissões, emissões e mais emissões. O conceito mais repetido nos últimos meses sobre a norma antipoluição Euro 7, que entrará em vigor, numa primeira fase, antes do final do ano.

A Europa está a apertar consideravelmente os fabricantes com limites de emissões cada vez mais difíceis de cumprir, obrigando a mudanças importantes nos motores. Infelizmente, a eletrificação já não é suficiente para cumprir e evitar multas.

O que é a norma Euro 7

A Euro 7 é a mais recente norma europeia de emissões poluentes aplicada a veículos novos. Trata-se de um conjunto de regras definidas pela União Europeia para limitar a quantidade de poluentes emitidos por automóveis, carrinhas e, numa fase posterior, veículos pesados.

Um novo nível de exigência ambiental

A Euro 7 sucede à Euro 6 e introduz limites mais rigorosos para poluentes como óxidos de azoto (NOx), monóxido de carbono e partículas finas. O objetivo é reduzir ainda mais o impacto dos transportes na qualidade do ar e na saúde pública.

Mas não se limita aos valores de emissões. A norma passa também a controlar:

  • Emissões em mais situações reais de condução, não apenas em testes laboratoriais
  • Desgaste de travões e pneus, que também libertam partículas
  • Durabilidade dos sistemas anti-poluição ao longo do tempo

Abrange mais do que motores de combustão

Embora afete diretamente motores a gasolina e diesel, a Euro 7 também impõe regras a veículos elétricos, nomeadamente ao nível da durabilidade das baterias.

Quando entra em vigor

A implementação será faseada:

  • Automóveis ligeiros deverão cumprir a norma a partir de 2025
  • Veículos pesados terão prazos posteriores

Porque está a gerar polémica

A Euro 7 é considerada por muitos fabricantes como extremamente exigente e dispendiosa, obrigando a mudanças profundas na engenharia dos motores. Por outro lado, os reguladores defendem que é essencial para cumprir metas ambientais e melhorar a qualidade do ar na Europa.

Em resumo, a Euro 7 não é apenas mais uma norma. É uma transformação estrutural na forma como os veículos são concebidos e utilizados.

Cumprir normas não é assim tão simples e pode ter consequências técnicas decorrentes de exigências muito elevadas. E é isso que está a acontecer com a quase iminente Euro 7, algo que ainda não tinha sido explicado.

Em particular, porque uma grande maioria das marcas está a abandonar o ciclo Otto nos motores a gasolina e a migrar para o ciclo Miller.

O que muda com o ciclo Miller

O ciclo Miller é uma variante do anterior, cuja principal diferença em relação ao Atkinson, mais comum em alguns híbridos, é, entre outras coisas, poder contar com turbo. No entanto, a nova Euro 7 exige que os motores a gasolina queimem sempre a quantidade exata de combustível, sem excessos.

Isso elimina um método de arrefecimento usado durante décadas, pelo que a solução passa por fechar uma válvula alguns milissegundos antes do habitual.

O que é o ciclo Miller

O ciclo Miller é uma variação do ciclo tradicional dos motores a gasolina, concebida para melhorar a eficiência e reduzir a temperatura interna do motor.

Como funciona

Num motor convencional (ciclo Otto), a válvula de admissão fecha quando o pistão atinge o ponto mais baixo, permitindo encher completamente o cilindro com mistura de ar e combustível.

No ciclo Miller, essa válvula fecha mais cedo. Isso faz com que entre menos mistura no cilindro. No entanto, como o pistão continua a descer, a mistura expande-se dentro de um volume maior, o que provoca o seu arrefecimento.

Qual é a vantagem

Este arrefecimento natural tem duas consequências importantes:

  • Reduz a temperatura interna do motor
  • Diminui o risco de detonação (knock)

Assim, o motor consegue trabalhar de forma mais eficiente e segura sem precisar de injetar combustível extra para arrefecer.

Diferença para o ciclo Atkinson

O ciclo Miller é muitas vezes comparado ao ciclo Atkinson. A principal diferença é que o Miller pode ser combinado com um turbo, permitindo manter um bom desempenho, enquanto o Atkinson privilegia sobretudo a eficiência e é comum em híbridos.

Porque está a ganhar importância

Com normas como a Euro 7 a exigirem maior controlo das emissões e da combustão, o ciclo Miller surge como uma solução técnica eficaz.

Permite manter a mistura ideal sem recorrer a excessos de combustível, algo que será cada vez mais necessário nos motores modernos.

A importância da mistura estequiométrica

Como se sabe, todo o motor a gasolina necessita de misturar ar e combustível numa proporção exata para que a combustão seja completa: por cada quilo de gasolina, são necessários aproximadamente 14,7 quilos de ar.

Quando esta proporção é cumprida, diz-se que o motor trabalha em mistura estequiométrica, ou seja, com lambda igual a 1.

É também o ponto em que o catalisador funciona no máximo da sua eficiência, limpando os gases de escape antes de serem libertados. Com mais combustível do que o necessário, uma parte não é queimada e o catalisador não consegue eliminar o monóxido de carbono; com menos combustível, geram-se outros poluentes. Só neste equilíbrio exato o sistema funciona corretamente.

O problema do sobreaquecimento

O problema é que manter este equilíbrio em plena carga é muito difícil. Quando um motor turbo trabalha no limite, como em acelerações intensas em estrada ou autoestrada, os seus componentes internos aquecem em excesso. Pistões, válvulas de escape e a própria turbina atingem temperaturas que os podem danificar.

Para evitar isso, os motores atuais recorrem a uma solução simples: injetam mais combustível do que o necessário. Esse excesso não é queimado, mas absorve calor e reduz a temperatura interna do motor.

É uma solução eficaz e barata, mas implica quebrar o equilíbrio ideal e aumentar a poluição. A Euro 7 vem terminar com essa prática. A nova norma exige que o motor mantenha sempre a proporção exata de ar e combustível, em qualquer condição, incluindo plena carga ou arranque a frio. Não há exceções, e os fabricantes procuram formas de cumprir.

Eliminar o excesso de combustível como método de arrefecimento não é apenas uma questão de emissões, mas cria um problema técnico real. Sem essa ajuda, pistões e turbo aquecem demasiado em acelerações intensas. Além disso, uma mistura demasiado quente pode inflamar-se antes da faísca da vela.

A sonda lambda serve para medir a quantidade de oxigénio presente no sistema de escape. Depois da combustão no bloco do motor, a sonda lambda avalia a quantidade de oxigénio no sistema para fornecer maior ou menor quantidade de combustível pelo sistema de injeção.

O risco da detonação

Este fenómeno, conhecido como detonação ou “knock”, gera um ruído característico e pode destruir o motor a longo prazo. Até agora, o combustível extra ajudava também a evitar este problema.

Os fabricantes precisam, assim, de uma forma de arrefecer o motor sem adicionar combustível. E a resposta mais adotada está a ser o ciclo Miller.

Como funciona o ciclo Miller

Um motor de quatro tempos funciona sempre da mesma forma: admissão, compressão, combustão e escape. Durante a admissão, o pistão desce e aspira a mistura de ar e combustível através da válvula de admissão, que permanece aberta. Quando o pistão atinge o ponto mais baixo, a válvula fecha-se e começa a compressão.

O ciclo Miller propõe uma modificação: fechar a válvula de admissão antes de o pistão chegar ao fundo. Assim, o cilindro enche-se menos do que poderia. No entanto, como o pistão continua a descer com a válvula já fechada, a mistura expande-se num volume maior e, ao expandir-se, arrefece.

É o mesmo princípio de um aerossol: quando o gás se expande, perde temperatura. Desta forma, quando começa a compressão, a mistura já está mais fria, reduzindo o risco de detonação sem necessidade de recorrer a combustível extra.

Comentários

47
  1. MO
    Molécula

    Isto só vem provar o óbvio: andamos há anos a tentar remendar uma tecnologia que já deu o que tinha a dar. Quanto mais apertam as normas, mais complexos, caros e forçados ficam os motores a combustão. Os elétricos, goste-se ou não, são simplesmente mais eficientes, mais simples e fazem muito mais sentido para o futuro

    1. YA
      Yamahia

      Os motores que transformam o combustível em electricidade para elétricos é q são bons e já cumprem o euro 27, no minimo.
      A hipocrisia no sector elektro não tem tomada, mas está sempre carregada.

      1. JL
        JL

        Não são usados motores para transformar combustíveis em electricidade. Deve ainda estar a sonhar com apagão e um gerador dentro da cozinha.

        1. JO
          João

          O novo Nissan Quasqai tem um motor a gasolina que não está ligado ao sistema motriz porque serve unicamente de gerador de electricidade para a bateria, e não é o único.

          1. JL
            JL

            Certo, o que ele queria dizer não era isso, a chave está no ” combustível em electricidade para elétricos”

        2. MÁ
          Mário

          Ai não? Como é que funcionam nas ilhas?
          (…)
          Existem centrais termoelétricas com motores diesel em várias ilhas
          São usadas para:
          Garantir fornecimento contínuo (base ou backup)
          Compensar variações das renováveis (vento/solar)
          Arranque e estabilidade da rede (inércia)
          (…)

          Mas a página da eletricidade dos açores é que deve ser mentirosa.

          1. JL
            JL

            Afinal são termoeléctricas.

            Enfim.

          2. MÁ
            Mário

            Sim… e um motor a diesel não é termico?
            A ilha do Corvo por exemplo funciona literalmente com grupos a diesel.

          3. JL
            JL

            Curioso como usam sempre os piores exemplos para confirmar os vossos preconceitos.

          4. TA
            Toni da Adega

            Mas o Corvo possui Milhares de VE alguem tem alimentar a loucura electrica da ilha

      2. CA
        Carlos

        Muito bom! Os nossos burocratas e idealistas no bom caminho para destruir a indústria (mais uma) que fez a Europa ser uma potência. Não tarda e já não temos nada para vender. É só comprar carros a pilhas chineses que vamos viver muito mais felizes!!

        1. JL
          JL

          Os chineses não vendem carros a pilhas. E os europeus também não

      3. EU
        Eu

        Mais de 80% da energia em Portugal provém de fontes renováveis.

        1. DE
          Delfim

          100 por cento dis a edp

          1. MY
            Mr. Y

            Não, não dis

        2. RU
          Rui

          Na Europa entende-se por energias renováveis as hídricas (muito ecológicas para os rios) e as nucleares! Acho que está tudo dito!!!!!

          Convém referir que importamos muita energia….. que provém de reactores nucleares!!!!!!

          1. MY
            Mr. Y

            Ser renovável não quer dizer que seja ecológico.

          2. JL
            JL

            Ter uma central termoeléctrica a carvão é o futuro, nem entendo porque gastam rios de dinheiro em nucleares e renovaveis.

          3. MÁ
            Mário

            Uma central a carvão demora meia dúzia de anos a estar operacional… Hinkley Point C (Nuclear no UK)… bem segue um resumo

            Hinkley Point C – principais datas

            2010–2012 – Projeto ganha tração política no Reino Unido (novo nuclear)
            2013 – Acordo preliminar entre governo britânico e EDF Energy
            2016 (set) – Decisão final de investimento (FID) aprovada
            2017 (mar) – Início oficial da construção
            2019–2020 – Primeiros atrasos relevantes (complexidade + COVID-19)
            2021 – Revisão de prazos: arranque da Unidade 1 apontado para 2026
            2022–2023 – Novos atrasos e aumento de custos
            2024 – Atualização: possível arranque entre 2027–2029 (cenário mais realista)

            Hinkley Point C passou de ~£18B para potencialmente ~£40B+, um dos maiores overruns da história nuclear europeia
            Portanto centrais económicas e rápidas de construir.

          4. JL
            JL

            Nesse caso é uma central nuclear.

    2. AC
      acs

      Os motores a combustão estão a ficar complexos por culpa dos políticos. Se estivessem quietos, não ficariam caros e os carros seriam bem mais baratos. Quando só existirem elétricos e as regras e impostos começarem a ser colocados sobre os elétricos, é que vai ser bonito.

      1. JL
        JL

        Acho que é mais por incompetência dos fabricantes, é tao simples reduzir emissões nos motores, e depois é isto, complicam o que é simples.

        1. ZQ
          Zé da Quinta

          Excelente. Nem sei porque não te contrataram.

    3. MA
      Mamba

      o grande problema dos EVs não é a tecnologia motriz…

      É sim, principalmente, O PREÇO DE AQUISIÇÃO INICIAL. Podes juntar ainda a vergonhosa falta de infraestrutura de carregamento (está melhor, mas ainda é má) e a tecnologia das baterias / demora no carregamento.

      O primeiro ponto é o grande ‘elefante na sala’ que nunca querem referir, porque muita gente não tem Unipessoal para meter o pessoal carro em nome de empresa para ‘aliviar o IVA’, como qualquer bom Tuga faz

      1. ZQ
        Zé da Quinta

        E quando os governos lhes retirarem os subsídios, então os preços irão disparar.

  2. GU
    guilherme

    Os burocratas Europeus que tem carro pago e motorista querem lá saber disso…

    1. MA
      Mapril

      Hã!?

  3. AR
    Artilheiro

    Bom artigo. Muito bem explicado.
    Por acaso, tive a curiosidade de saber, o que era o ciclo Miller, que foi adotado nos novos motores 1.2 hibridos, da Peugeot.

  4. JL
    JL

    Enfim, usar combustível como refrigerante, ao que chegamos.

    1. MÁ
      Mário

      A europa continua a cavar a sepultura… mas só um cego é que não vê… ou vá um bot que diz que vivemos melhor mesmo com a guerra.

      1. JL
        JL

        A Europa não, os fabricantes.

        Curioso, porque os outros países seguem a Europa, até há quem copie as nossas normas.

        Veja lá bem quem foram os primeiros fabricantes a ter híbridos ? E eléctricos, vê como afinal não foram europeus.

      2. JL
        JL

        Nós não temos nenhuma guerra, e sim, vivemos muito melhor que toda a história, só um cego não vê isto, tão bem que estamos a ser invadidos.

        1. MÁ
          Mário

          Obviamente estamos a ser invadidos por chineses!
          Quando houver controlo de população e existirem ordens tipo, os carros só se deslocam x km na área de residencia. mas você é tão anjinho que não acredita. Ou se calhar acredita mas para não dar parte fraca vem para aqui negar.

          1. JL
            JL

            Claro que não acredito, só um maluco acredita que querem limitar a liberdade das pessoas para que consumam menos.

    2. ZQ
      Zé da Quinta

      Não é pior que toda a energia gasta na produção de baterias para veículos elétricos.
      E antes que lhe comecem a surgir os comentários sobre este meu, reforço: Tenho atualmente duas viaturas com motor de combustão (Diesel) que só não as troquei por VE porque o dinheiro não chega.

  5. MA
    Miguel Almada

    A unica coisa asfixiada é a economia europeia.

  6. PO
    PorcoDoPunjab

    Resultado disto?
    Carros muito complicados com alta propensão para avarias , reparações com valores astronómicos e preço de venda do veículo novo a preços proibitivos.

    Vai tudo para os usados, mas como há muita procura o preço sobe tb.

    É assim se destrói a indústria automóvel europeia…
    É continuar, porque pelos vistos o plano é mesmo esse.

    1. RU
      Rui

      E a indústria automóvel europeia nem tem qualquer visibilidade mundial!!!!!!!
      Mercedes, Porsche, Ferrari, Lamborguini, BMW, VW, Renault, Peugeot, Citroen, Fiat, Alfa Romeo………

      Sempre gostamos de ser masoquistas. A Alemanha por exemplo, está radiante por ter a energia mais cara do mundo, graças aos ecologistas da treta que conseguiram obrigar a fechar centrais a carvão, a gás e nucleares!!!!! Depois dessas decisões estapafúrdias o resultado está à vista!!!!!!!

      1. JL
        JL

        Outra mentira, o que a Alemanha fez foi fechar as centrais nucleares devido ao bicho papão das centrais nucleares, após o acidente no Japão, e abriram centrais a carvão, que ficam mais caras.

        1. RU
          Rui

          Qual é a mentira?
          A Alemanha não fechou todas as centrais nucleares (17) e agora está arrependida?

          Ou não é verdade que está a fechar todas as centrais a carvão até 2030? Só em 2024 fechou 15!!!!!

          Desde quando as centrais a carvão não são competitivas? Só se estiver a incluír erradamente as taxas artificiais de carbono!!!!! Tire-lhe as taxas da treta do carbono e depois discutimos qual a mais eficiente!

          1. MY
            Mr. Y

            Tu decide-te! Queres renováveis ou ecológicas? É que o carvão não é muito ecológico (muito menos renovável).

          2. JL
            JL

            Aquela que disse.

            Então afinal reconhece que estava a mentir, não fechou, abriu.

            Desde sempre, dai as fecharem, as nucleares é que sao competitivas.

  7. YA
    Yamahia

    Frase do dia:
    “Estamos a dar numa bandeja a indústria automóvel aos chineses”

    1. JL
      JL

      Há mais de 2 décadas que o estão a fazer.

  8. PO
    PorcoDoPunjab

    Farto-me de rir com estes motores 1.2 a puxarem carros pesados.
    Devem ter uma longevidade que atravessa gerações.
    Então não…
    PorcoDoPunjab não quer nada menos de 2.0

  9. Z
    Z

    Artigo super interessante e muito bem escrito. Gostei

  10. MI
    Miguel

    O futuro está no hidrogénio, ar limpo.

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