A União Europeia está a avançar com uma estratégia clara para reduzir a dependência de software proprietário norte-americano e apostar em soluções de código aberto. O objetivo passa por reforçar a soberania digital, melhorar a cibersegurança e proteger os dados dos cidadãos e das instituições.
Comissão Europeia quer replicar estratégia em toda a região
A Comissão Europeia abriu uma consulta pública para expandir a transição para o software livre a todo o bloco comunitário. A iniciativa surge meses depois de países como França e Alemanha terem começado a abandonar algumas soluções proprietárias nas administrações públicas.
Segundo o documento, a Europa enfrenta um problema estrutural de dependência tecnológica de terceiros. Vários países, incluindo Portugal, continuam a basear grande parte das suas infraestruturas digitais em software estrangeiro, sobretudo dos Estados Unidos.
Tudo o que usa é americano?
Na Europa, grande parte do software e dos serviços web usados diariamente por governos, empresas e cidadãos é de origem norte-americana. Essa dependência é um dos principais motivos para o atual debate sobre soberania digital.
Abaixo ficam alguns dos exemplos mais relevantes, organizados por categorias.
Sistemas operativos e software de base
Grande parte da infraestrutura informática europeia assenta em sistemas e tecnologias desenvolvidos nos Estados Unidos.
- Windows, da Microsoft
- macOS e iOS, da Apple
- Android, da Google
- VMware (virtualização), da VMware
- Red Hat Enterprise Linux, da Red Hat
Mesmo quando se usa Linux, muitas distribuições empresariais e serviços associados são controlados por empresas norte-americanas.
Suites de produtividade e colaboração
Ferramentas de escritório e trabalho colaborativo usadas em empresas e administrações públicas.
- Microsoft 365 (Word, Excel, PowerPoint, Outlook, Teams), da Microsoft
- Google Workspace (Docs, Sheets, Gmail, Meet), da Google
- Slack, da Salesforce
- Zoom, da Zoom Video Communications
Estas plataformas concentram comunicações, documentos e dados corporativos.
Serviços de cloud e infraestrutura
A maioria dos serviços digitais europeus corre em infraestruturas de cloud norte-americanas.
- AWS, da Amazon
- Microsoft Azure, da Microsoft
- Google Cloud, da Google
- Oracle Cloud, da Oracle
Estas quatro empresas dominam a maior parte do mercado de cloud pública na Europa.
Navegadores e motores de pesquisa
Ferramentas usadas diariamente por milhões de utilizadores europeus.
- Chrome, da Google
- Safari, da Apple
- Edge, da Microsoft
- Google Search, da Google
- Bing, da Microsoft
O motor de pesquisa da Google domina claramente o mercado europeu.
Redes sociais e comunicação
Grande parte da comunicação social e pessoal passa por plataformas norte-americanas.
- Facebook, Instagram e WhatsApp, da Meta
- X (antigo Twitter), da X Corp.
- LinkedIn, da Microsoft
- Snapchat, da Snap Inc.
Estas plataformas concentram enormes volumes de dados de utilizadores europeus.
Software empresarial e bases de dados
Soluções críticas para empresas, bancos e administrações públicas.
- Oracle Database, da Oracle
- SQL Server, da Microsoft
- Salesforce CRM, da Salesforce
- ServiceNow, da ServiceNow
Muitos sistemas críticos dependem destas plataformas.
Plataformas de desenvolvimento e código
Ferramentas usadas por programadores e equipas técnicas.
- GitHub, da Microsoft
- GitLab (empresa fundada nos EUA, apesar da origem europeia)
- Docker, da Docker
- Atlassian (Jira, Confluence), empresa sediada nos EUA e Austrália
Serviços digitais do dia a dia
Plataformas de consumo com forte presença na Europa.
- YouTube, da Google
- Netflix, da Netflix
- Spotify (empresa europeia, exceção relevante)
- Amazon, da Amazon
- Uber, da Uber
Estes serão apenas a parte visível do iceberg. Muitos outros estão por trás de infraestruturas basilares de comunicação da Europa. Além disso, há muitos sistemas de segurança que têm a chancela dos EUA.
A Comissão alerta que esta dependência reduz as opções dos utilizadores, limita a competitividade das empresas e levanta questões de segurança na cadeia de fornecimento. Além disso, dificulta o controlo da infraestrutura digital e pode criar vulnerabilidades em setores críticos.
De acordo com a instituição europeia, o código aberto representa um bem público com grande potencial para suportar um conjunto diversificado de soluções digitais seguras e de elevada qualidade, capazes de competir com alternativas proprietárias.
Outro ponto destacado é o peso real do código aberto no ecossistema tecnológico. A Comissão refere que entre 70% e 90% das linhas de código das aplicações modernas têm origem em software de código aberto. As comunidades de desenvolvimento são ativas e o seu trabalho está alinhado com os princípios digitais europeus.
Obstáculos à transição para o código aberto
Apesar das vantagens, a mudança não pode acontecer de forma imediata. Países como Alemanha, França e Dinamarca iniciaram processos graduais para substituir ferramentas como o Microsoft Office nas administrações públicas.
Numa cidade alemã, a autarquia optou por trocar a suite da Microsoft pelo LibreOffice. Em França, foi desenvolvida uma solução integrada com edição de documentos, videoconferência e mensagens.
Para além da substituição das aplicações e da formação dos funcionários, existem questões técnicas relevantes. A principal é a compatibilidade, já que muitas soluções comerciais utilizam formatos proprietários que dificultam o acesso ou a migração de dados.
O LibreOffice, por exemplo, acusa o Microsoft Office de bloquear a concorrência através do formato Office Open XML, mantendo os utilizadores presos ao seu ecossistema.
Consulta pública para identificar barreiras
Com o objetivo de perceber melhor os obstáculos à adoção do código aberto, a Comissão lançou uma consulta pública. No último mês, cerca de 1.100 cidadãos europeus e centenas de empresas, universidades e organizações sem fins lucrativos enviaram opiniões e propostas.
Depois de analisados os contributos, a União Europeia pretende criar uma nova estratégia para eliminar as barreiras identificadas e acelerar a adoção de soluções abertas. Segundo a Comissão, um setor de código aberto forte pode impulsionar a inovação, reforçar a competitividade internacional e garantir prosperidade económica, segurança e resiliência digital.
A nova estratégia de ecossistemas digitais abertos deverá ser apresentada em 2026 ao Parlamento Europeu e ao Conselho. Embora a iniciativa seja uma consulta cívica, poderá influenciar propostas legislativas futuras e orientar programas de financiamento.
Visio, a app de código aberto que a França usará para substituir o Zoom e o Microsoft Teams.
O “ano do Linux” poderá começar na Europa
A soberania digital ganhou força no continente europeu, em parte devido às tensões entre a União Europeia e grandes empresas tecnológicas norte-americanas. Vários países consideram essencial controlar a infraestrutura e o acesso aos dados com soluções próprias, sujeitas à legislação europeia.
A transição deverá levar tempo, mas muitos analistas acreditam que o famoso “ano do Linux” poderá acontecer primeiro na Europa.