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Minitel: quando a Europa quase inventou a Internet

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Na nossa rubrica Hoje na História dos Computadores, trazemos uma referência tecnológica que, a esta distância temporal, bem que se poderia classificar como a Internet antes da Internet. Conheça o Minitel.

A génese de uma rede nacional digital

No início da década de 1980, muito antes da popularização da Internet, a França lançou um projeto que antecipou vários dos serviços digitais que hoje consideramos banais. O Minitel, desenvolvido pela então estatal France Télécom, nasceu oficialmente em 1982 como uma rede de videotexto acessível através da linha telefónica.

O objetivo era ambicioso. Modernizar o acesso à informação, substituir as tradicionais listas telefónicas em papel e criar uma infraestrutura digital nacional. O Estado distribuiu gratuitamente milhões de terminais aos cidadãos, incentivando a adesão massiva.

O sistema permitia consultar diretórios, reservar viagens, comprar bilhetes, enviar mensagens e até participar em fóruns. Tudo através de um ecrã monocromático e de uma ligação telefónica a 1.200 bps. À sua maneira, era já uma economia digital.

O modelo económico que antecipou o comércio online

Um dos aspetos mais inovadores do Minitel foi o modelo de faturação. Os serviços eram pagos por minuto e cobrados diretamente na conta telefónica. Isto criou um ecossistema de conteúdos pagos e serviços digitais que envolvia bancos, empresas de transportes, meios de comunicação social e pequenos operadores privados.

Na prática, o Minitel criou:

  • Comércio eletrónico
  • Serviços bancários remotos
  • Classificados digitais
  • Mensagens instantâneas rudimentares
  • Conteúdos por subscrição

Décadas antes da web se tornar dominante, França tinha uma rede nacional funcional, economicamente sustentável e amplamente utilizada.

O Minitel não foi um equipamento único, mas sim uma família de terminais que evoluiu ao longo de várias gerações desde o início dos anos 80. O modelo inicial, conhecido como Minitel 1, destacou-se pelo ecrã monocromático e teclado integrado, pensado para democratizar o acesso a serviços digitais através da linha telefónica. Com o tempo surgiram versões mais avançadas, como o Minitel 1B, com melhorias de ligação e ergonomia, o Minitel 2, que introduziu maior rapidez e funcionalidades adicionais, e modelos com ecrãs a cores, capacidade gráfica superior e até suporte para periféricos.

E Portugal? A experiência discreta mas real

Em Portugal, o fenómeno não teve a mesma dimensão, mas existiu, aliás, eu próprio utilizei, quando este projeto fazia parte dos equipamentos cedidos pelo IJ (na altura Instituto da Juventude) aos CAJ (Centros de Apoio à Juventude, locais distribuídos pelo país onde eram feitos o Cartão Jovem e o Cartão de Campista, entre outras ações no âmbito de apoio à juventude).

Durante os anos 80 e início dos 90, através da Telepac, empresa ligada aos CTT e mais tarde à Portugal Telecom, foram testados e disponibilizados serviços de videotexto semelhantes.

O sistema português permitia acesso a informação institucional, horários, alguns serviços bancários e conteúdos informativos. Contudo, nunca houve uma distribuição massiva de terminais como em França. O modelo manteve-se experimental e restrito a nichos empresariais e institucionais.

A realidade portuguesa, marcada por menor escala económica e por um mercado tecnológico ainda emergente, impediu que o videotexto se tornasse um serviço de massas.

O que falhou e o que antecipou

O Minitel acabou por ser vítima do seu próprio sucesso nacional. Funcionava demasiado bem dentro de fronteiras francesas, mas não evoluiu para uma rede aberta global.

Quando a World Wide Web começou a expandir-se nos anos 90, baseada em protocolos abertos e numa arquitetura descentralizada, o modelo fechado do Minitel tornou-se limitativo.

Contudo, a comparação histórica é inevitável.

O Minitel foi:

  • Uma rede digital de acesso público
  • Um mercado de serviços online
  • Uma plataforma de comunicação entre utilizadores
  • Um sistema de pagamentos digitais

Ou seja, os pilares da Internet moderna estavam ali, ainda que confinados a um ecossistema nacional.

Nos anos 90, em Portugal, este equipamento existia sobretudo em instituições do Estado, alguns hotéis, centros de negócios e espaços ligados às telecomunicações, ambientes académicos e tecnológicos, além de bancos e grandes organizações. Normalmente sempre ao lado dos telefones de disco ou telefones rotativos.

Uma Internet antes da Internet

Se analisarmos o fenómeno com distância histórica, o Minitel pode ser interpretado como um protótipo social da Internet. Não era global, não era gráfica, não era aberta. Mas introduziu hábitos digitais numa geração inteira.

Em França, o sistema manteve-se ativo até 2012. Um feito notável para uma tecnologia concebida no final dos anos 70.

Em Portugal, ficou como um ensaio tecnológico importante, um prelúdio discreto daquilo que viria a acontecer com a massificação da Internet na segunda metade da década de 1990.

Comentários

39

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  1. Avatar de Blackbit
    Blackbit

    Um claro exemplo de que redes fechadas e protocolos proprietários dificilmente vingam. Ter durado até 2012 já é de si extraordinário!

    1. Avatar de José
      José

      O mundo está cheio de exemplos que contradizem isso:
      * O ecossistema da Apple é altamente controlado e continua extremamente bem-sucedido.
      * Consolas como a PlayStation operam em ambientes fechados e prosperam.
      * O protocolo WhatsApp é proprietário e tornou-se dominante globalmente.

      1. Avatar de Blackbit
        Blackbit

        Nim…
        # O ecossistema da apple é fechado mas usa aplicações e protocolos que permitem interagir com outros sistemas.
        # verdade mas não escapam à pirateagem
        # até o WhatsApp foi forçado a aceitar mensagens de outras apps

  2. Avatar de Paulo
    Paulo

    Não fazia ideia de que a europa poderia ter ligado o mundo com a sua tecnologia em vez dos americanos. Fantástico. Obrigado grande artigo.

    1. Avatar de Nonio
      Nonio

      Europa criou a internet no CERN, Tim Berners-Lee fez o 1º browser

      1. Avatar de amoreira
        amoreira

        vim à procura deste facto!! obrigado

  3. Avatar de AlexS
    AlexS

    Trabalhei numa multinacional Francesa em Lisboa entre 1998-99. Tinham um terminal, mas já pouco usavam.

    Um dos problemas da Europa é este, conceptualmente é feito pela elite para a elite. Os foguetões da Ariane são para Governos e multinacionais, os da SpaceX são para toda gente…

    1. Avatar de Manuel da Rocha
      Manuel da Rocha

      SpaceX: 840 biliões, de dólares, de investimento anual.
      ESA: 15 biliões, de dólares, de investimento anual.

      Na SpaceX trabalham 63000 estagiários, a receber 7 dólares, à hora. Na ESA, trabalham 15200 estagiários, a receber 7400 euros, por mês.
      Nota, as diferenças?

      1. Avatar de Mamadu BAAA
        Mamadu BAAA

        um lixo e poir isso que a europa esta a ser substuida por outros que ja vem a sua larga maioria do LIXAO

      2. Avatar de AlexS
        AlexS

        Pfft não sabes que ESA existe há bem mais tempo que a SpaceX?
        E claro que o “investimento” anual é maior tem muito mais negócio…coisa que ESA não conseguiu porque não quiz conseguir, a cultura Europeia não gosta da Liberdade.
        Foi nos EUA que apareceu o Ford T, o primeiro carro do povo…não foi na Europa.
        Nós nunca teríamos internet para todos se não fossem os Americanos e agora os Asiáticos, estaria nas instituições, locais de trabalho e seria cara.

        Nem falo de cá, nos anos 80 e 90 o PS estava contra TV’s privadas…agora 36 anos depois tens Netflix….da América…

        1. Avatar de José
          José

          Pode elaborar porque “a cultura Europeia não gosta da Liberdade”?

          1. Avatar de AlexS
            AlexS

            Sim, é olhar para a história, a Europa tem uma cultura dirigista e censória com impostos bem mais altos.

          2. Avatar de José
            José

            Pode fundamentar isso ou fica-se só por dizer que sim?

    2. Avatar de Nonio
      Nonio

      Os da Isar Aerospace, Rocket Factory Augsburg, The Exploration Company e HyImpulse também são para toda a gente, e irão aterrar no espaçoporto dos Açores.

      1. Avatar de AlexS
        AlexS

        Mas 1 década, 2 décadas depois.

  4. Avatar de Matias
    Matias

    Tenho duas em casa que com raspberry PI e uma central telefonica ainda fazem comunicação entre elas.

  5. Avatar de Manuel da Rocha
    Manuel da Rocha

    O minitel era um fax com acesso e retorno. Muito caro, chamadas caras e precisava de linhas duplas (que só avançaram, por cá, já bem dentro dos anos 90). Daí ter perdido para o ZX e Commodore.

  6. Avatar de Factos
    Factos

    Faltou o quase. Mas não se preocupem, vêm aí as CBDC’s para fazer jus ao talento desta europa.

  7. Avatar de Miguel
    Miguel

    A Europa tem sempre as mentes, mas ou exporta ou castra-as com burocracia e falta de investimento, é incrível a quantidade de coisas que fomos pioneiros e desistimos ou atrasamos.

    1. Avatar de Nonio
      Nonio

      No caso da ASML não. Pois era tecnologia americana, aproveitada pela Panasonic.

  8. Avatar de Miguel Madeira
    Miguel Madeira

    Suponho que o problema do Minitel é que, quer por esta descrição, quer pelo que já tinha ouvido falar dele, é que me parece que estava sobretudo desenhado para as pessoas consultarem e “consumirem” conteudos no Minitel, não tanto para porem lá os seus próprios conteudos – um sistema feita mais para os elementos ativos serem o estado e as empresas, e não os amadores (que foi quem deu vida à WWW).

    1. Avatar de Nonio
      Nonio

      Era só um dumb terminal, tipo teletexto. Nem o teclado era bom. Azerty ou ABC lol

  9. Avatar de Anung
    Anung

    A Europa e os seus “quases”

    1. Avatar de Zé Fonseca A.
      Zé Fonseca A.

      É mais a França, o povo europeu mais cheio de si, nota-se em tudo o que fazem, tudo coisas cheias de potencial que por serem tão fechadas e tão elitistas nunca vingam.
      Sorte dos portugueses que desde 1974 tentam copiar a França, esquecem-se so que França tem dinheiro

      1. Avatar de Andre
        Andre

        E justiça. Metem o Sarkozy na prisão, Portugal deixa o Sócrates à solta.

  10. Avatar de Nonio
    Nonio

    Em Portugal, chamava-se TENET (Timex Educational Network), e foi criada para o ZX Spectrum pela Timex. Também existiam as BBS muito antes da Internet, que só apareceu cá em 1994.

    1. Avatar de João Diogo Ramos
      João Diogo Ramos

      Para quem quiser saber mais desta iniciativa, o museu LOAD ZX tem o documentário da sua preservação online.
      http ://loadzx.com/tenet

  11. Avatar de Nunxx
    Nunxx

    Pois, lembro-me de ouvir falar dos Minitel. Nunca os vi. Só aderi à Telepac em 1995, creio eu que era o assinante 4.865 e pagava uns 40 contos por mês. Mas tive que comprar um PC mais rápido, um modem de 360 baud e mais tarde um de 1.200 baud. Ainda devem estar por aqui numa caixa qualquer. Mas a internet era interessante pois permitia os chats ou foruns. Dava para me comunicar com os desenvolvedores de um sistema bancário na India e pedir alterações ou melhorias.
    Os Minitel eram sistemas fechados, como quase tudo o que os Franceses desenvolvem, com falta de financiamento e sem possibilidades de upgrades regulares. Ainda durarem até 2012 é fantástico…

    1. Avatar de Nonio
      Nonio

      Só se vende internet em Portugal desde 1994, tem 30 anos.

    2. Avatar de Nonio
      Nonio

      Os desenvolvedores indianos são os melhores, não é por nada que comandam a Microsoft e a Google. Até inventaram a fibra óptica!

    3. Avatar de Zé Fonseca A.
      Zé Fonseca A.

      não sei que idade tens, mas pelo teu comentário ficou perceptivel que só tiveste internet quando já era banda larga..
      não percebo o que ganham eu andar a espetar petas em foruns onde ninguém vos conhece, imagino que seja uma falsa massagem ao ego

      1. Avatar de Nunxx
        Nunxx

        Em 1995 era por modem ligado à linha telefónica.
        Tenho 73 anos, não estou para tretas, só dei a minha opinião com base na minha experiência.
        Também ainda devo ter o contrato celebrado com a Telepac…
        Quanto ao ego… não sofro dessa doença!
        Sai debaixo.

        1. Avatar de Zé Fonseca A.
          Zé Fonseca A.

          claro.. e nem sequer sabias que não pagavas nenhum valor fixo, pagavas por minutos, sendo que os contratos só balizavam o valor por minuto, os blocos de faturação que em alguns contratos podiam ser de 10s e os periodos, de noite o valor por minuto era metade.. tanto podias pagar 5 contos como 100 contos, dependia da utilização..
          mas pronto, com 73 anos só deves ter tido internet depois dos 50..

        2. Avatar de Zé Fonseca A.
          Zé Fonseca A.

          já para não falar nos modems.. em portugal nunca tiveste modems de acesso à internet inferiores a 9.6 kbps, sendo que quando a internet se massificou em 98 já tinhas modems de 56 kbps

          1. Avatar de Nunxx
            Nunxx

            E melhor investigares e reveres as tuas concepções.
            O pagamento pelo acesso era mensal à Telepac, o acesso telefónico era pago ao minuto, à parte, à Telecom.
            O telemóvel também era contrato com a Telecel, um Siemens S3 que deve andar por aqui também. E pagava-se também ao minuto, não havia estes contratos com chamadas e dados ilimitados que há agora. Maravilha!
            És muito novo e nem pescas nada do passado e muito menos do futuro. Que seca este Fonseca!

      2. Avatar de Miguel
        Miguel

        Zé Fonseca andas baralhado

        1. Avatar de Zé Fonseca A.
          Zé Fonseca A.

          é o que eu vou, baralhado das ideias 😐

  12. Avatar de Libério
    Libério

    meus meninos agora estamos na quaresma isto que estão a falar nesta altura é pecado. eu só sei que não sei, quem fala quem trouce para Portugal de videotex. A REVERDATA

  13. Avatar de etrusco
    etrusco

    Isto foi um fiasco porque o Estado francês decidiu meter a mão e regular, tal como é costume na Europa. Davam prioridade à imprensa, então as empresas eram ultrapassadas e algumas até criavam jornais fantasma só para poderem estar neste serviço.