Está presente em milhões de casas, escritórios e empresas e transformou a forma como bebemos café. A pequena cápsula Nespresso deu origem a um negócio de milhares de milhões de euros. Mas há um detalhe curioso nesta história: o homem que inventou o sistema não ficou rico com a patente nem recebeu royalties pela sua criação.

O seu nome é Eric Favre e tudo começou há cerca de 50 anos, durante uma viagem a Itália.
A ideia nasceu num café em Roma
Em 1975, Eric Favre trabalhava na Nestlé e viajou até Itália com a mulher, Anna-Maria, italiana e apreciadora de café.
Durante a passagem por Roma, Favre reparou que um determinado café atraía muito mais clientes do que os restantes. O engenheiro começou então a observar atentamente a forma como o barista preparava o espresso.

A diferença estava no processo de extração. O operador fazia passar a água quente pelo café de uma forma que introduzia mais ar na mistura, aumentando a extração dos aromas e produzindo a característica camada de creme do espresso.
Favre percebeu que poderia tentar reproduzir esse princípio numa máquina doméstica.
A própria Nestlé reconhece atualmente que foi esta viagem de 1975 e a observação das técnicas utilizadas pelos baristas italianos que estiveram na origem do sistema que viria a tornar-se a Nespresso.

O segredo estava dentro de uma pequena cápsula
O problema era relativamente simples de explicar, mas difícil de resolver: como reproduzir num pequeno sistema doméstico a pressão, o ar e a água necessários para extrair um espresso de forma consistente?
Favre começou a desenvolver um recipiente fechado onde o café pudesse permanecer protegido até ao momento da preparação. Nascia assim o conceito da cápsula.
O sistema permitiria introduzir água quente sob pressão dentro de um recipiente contendo café moído, realizando a extração apenas no momento em que o utilizador pretendesse preparar a bebida.
Em 17 de dezembro de 1976 foi apresentada na Suíça a patente que está na origem do sistema. A documentação identifica Eric Favre como inventor e a Nestlé como titular.
Curiosamente, a patente norte-americana correspondente, concedida em 1979, descrevia já uma cápsula selada com uma membrana concebida para abrir durante o processo de preparação da bebida.
Era, essencialmente, o princípio tecnológico que décadas depois estaria presente em milhões de cozinhas.
A Nestlé inicialmente não estava convencida
Hoje parece difícil imaginar a Nestlé sem a Nespresso. Nos anos 70, contudo, a situação era bastante diferente.
A empresa estava fortemente concentrada no café solúvel e a ideia de vender máquinas de espresso e cápsulas para utilização doméstica estava longe de ser uma aposta evidente.
Favre contou anos mais tarde que a relação com alguns responsáveis da empresa chegou a tornar-se complicada. Segundo o próprio, entre 1975 e 1980 existia dentro da Nestlé a convicção de que o café solúvel seria o produto dominante. Mesmo assim, o engenheiro continuou a desenvolver o sistema.
O projeto acabaria por avançar e, em 1986, a Nespresso iniciou a sua atividade comercial em mercados como Suíça, Itália e Japão.
De uma cápsula a um ecossistema
O verdadeiro golpe de génio da Nespresso acabaria por não estar apenas na tecnologia. A Nestlé construiu à volta da cápsula aquilo que hoje chamaríamos facilmente de um ecossistema fechado.
O consumidor comprava a máquina, mas passava depois a adquirir regularmente as cápsulas compatíveis com aquele sistema. A máquina era apenas a porta de entrada. O negócio recorrente estava no café.
A isto juntaram-se as lojas próprias, o Nespresso Club, uma imagem premium e campanhas publicitárias protagonizadas por figuras mundialmente conhecidas. O resultado foi um dos modelos de negócio mais interessantes da indústria de consumo das últimas décadas.
O inventor não recebia uma percentagem por cada cápsula
Perante o enorme sucesso posterior da Nespresso seria fácil imaginar que Eric Favre se tivesse tornado multimilionário graças à sua invenção. Não aconteceu.
Favre desenvolveu o sistema enquanto era funcionário da Nestlé e a patente ficou em nome da empresa. Isso significa que não existia um sistema de royalties que lhe garantisse uma pequena percentagem por cada cápsula vendida.
E estamos a falar de números que rapidamente se tornaram gigantescos. Segundo Favre, no final de 1989 já tinham sido vendidas cerca de 29 milhões de cápsulas Nespresso em todo o mundo.
Poucos meses depois, a 21 de março de 1990, abandonou a Nestlé. Numa entrevista concedida anos mais tarde, Favre revelou que saiu da empresa recebendo apenas três meses de salário.
Hoje a Nespresso vale milhares de milhões por ano
A dimensão que o negócio alcançou ajuda a perceber melhor a ironia desta história.
Em 2025, a Nespresso registou vendas de 6,481 mil milhões de francos suíços, acima dos 6,378 mil milhões registados no ano anterior. O negócio apresentou ainda um resultado operacional subjacente de cerca de 1,16 mil milhões de francos.
E a máquina continua a funcionar. Só no primeiro semestre de 2026, a Nespresso registou vendas de 3,147 mil milhões de francos suíços e um crescimento orgânico de 4,3%.
Ou seja, meio século depois da ideia original de Eric Favre, aquele pequeno recipiente de café continua no centro de um negócio que movimenta vários milhares de milhões todos os anos.

Eric Favre não desistiu das cápsulas
A história não terminou quando Favre saiu da Nestlé. Em 1991, o engenheiro desenvolveu o sistema Monodor através da sua própria empresa e continuou a registar patentes relacionadas com a preparação de café.
Entretanto, a patente original da Nestlé expirou, abrindo caminho às cápsulas compatíveis e a sistemas concorrentes. Nascia assim uma enorme indústria a partir de uma ideia que começou num café de Roma: reproduzir numa pequena cápsula a forma como um barista extraía um espresso.
Favre criou o conceito que ajudou a transformar a indústria do café. A Nestlé transformou-o num negócio de milhares de milhões.

















