Foi uma máquina que escreveu isto? Testámos o detetor de IA da Lynote em português
Há uma pergunta nova nas escolas, nas redações e nos departamentos de RH: foi uma pessoa que escreveu isto? A Lynote, uma plataforma de Singapura criada em 2025, promete responder em segundos com um detetor de IA que lê português e assinala frase a frase o que parece ter saído de uma máquina. Promete ainda o contrário, com um humanizador de texto que reescreve o que a IA produziu. Por isso, pusemos as duas ferramentas à prova com Eça de Queirós, com uma notícia do Pplware de 2018 e com texto do ChatGPT. Os resultados têm surpresas.

O que a Lynote diz que o detetor de IA faz
O detetor de IA é a peça central. Recebe texto colado ou ficheiros TXT, DOCX e PDF, e devolve três percentagens: gerado por IA, geração mista e escrito por humano. Além disso, sublinha as frases suspeitas, cada uma com a sua probabilidade, o que ajuda a perceber onde está o problema em vez de receber só um número. O Pplware já tinha testado um detetor deste género em 2023, quando o ChatGPT ainda era novidade. Igualmente, a marca anuncia “mais de 50 idiomas”, português incluído, e deteção de texto saído do ChatGPT, do GPT-5, do Gemini, do Claude, do LLaMA e do Mistral.
As promessas são ambiciosas. No site lê-se “99% de precisão”, “350 mil verificações por mês” e uma avaliação média de 4,9 em mais de 12 mil utilizadores. Contudo, são números da própria Lynote, e convém tratá-los como tal. Por isso, em vez de os repetir, fomos ver o que a ferramenta faz com texto português a sério.
Como testámos
| Quando | 2 de outubro de 2026, na versão web em português |
| Conta | Pro, cedida pela Lynote para o teste. Os limites do plano gratuito foram confirmados na página de preços |
| Textos humanos | Abertura de A Cidade e as Serras (1901, edição do Project Gutenberg) e três parágrafos de uma notícia do Pplware de novembro de 2018, anterior ao ChatGPT |
| Textos de IA | Um texto promocional sobre óculos inteligentes gerado por um modelo de linguagem, e uma imitação de Eça escrita pelo mesmo modelo |
| Extras | Um texto misto, o humanizador em modo Padrão e uma fotografia gerada por IA no detetor de imagens |
Texto de IA e texto humano: o detetor acertou nos dois
Começámos pelo caso fácil. O texto promocional sobre óculos inteligentes, com as frases feitas que qualquer pessoa reconhece (“em primeiro lugar”, “em suma”, “não perca a oportunidade”), recebeu 99,3% de probabilidade de IA. Além disso, todas as frases ficaram a vermelho, cada uma com 99,9%. Até aqui, portanto, nada que um detetor minimamente competente não fizesse.

O teste que interessa é o inverso: um texto humano, escrito antes de existir ChatGPT, tem de passar limpo. Por isso, escolhemos uma notícia do Pplware de 29 de novembro de 2018, sobre o Facebook e a Cambridge Analytica, assinada por um jornalista da casa. Resultado: 0% de IA, 0% misto, 100% humano, sem uma única frase assinalada. Era isto que queríamos ver, porque o maior perigo de um detetor não é deixar passar a IA. É acusar uma pessoa inocente.

Eça de Queirós passou. A imitação de Eça, não
Depois subimos a fasquia. Colámos a abertura de A Cidade e as Serras, com a ortografia original de 1901, “palacio”, “Alemtejo”, “Jacintho” e tudo. De facto, um texto com 125 anos, escrito de uma forma que nenhum modelo atual produz por defeito, podia confundir o detetor. Ainda assim, não confundiu: 99,1% humano, 0,1% de IA, nenhuma frase marcada.

A seguir fizemos o contrário: pedimos a um modelo de linguagem que escrevesse um parágrafo ao estilo de Eça, com o mesmo Jacinto, o mesmo palácio em Paris e a mesma renda em contos. Ou seja, é o tipo de texto que engana leitores distraídos. O detetor deu 25,8% de IA, 71,3% de geração mista e 2,9% humano, com duas frases acima dos 99%. Por um lado, não cravou “IA” com a certeza do primeiro teste. Por outro, não deixou passar. Para um texto feito de propósito para parecer literatura, é um resultado honesto.

O texto misto: assinalou as frases certas, e uma a mais
Contudo, o cenário mais comum na vida real não é texto todo humano nem todo de IA. É um trabalho escrito pelo aluno com dois parágrafos “ajudados”. Por isso, montámos exatamente isso: os três parágrafos da notícia de 2018, seguidos de um parágrafo sobre privacidade gerado por IA. A Lynote classificou o conjunto como 99,3% misto e sublinhou as quatro frases do parágrafo artificial, com probabilidades entre 87% e 99%.

Houve, no entanto, um escorregão. Uma frase do jornalista de 2018, a que descreve a audiência de Mark Zuckerberg no Congresso, ficou na faixa dos 70% de probabilidade de IA. Ou seja, é um falso positivo ao nível da frase, ainda que o veredicto global estivesse certo. Convém guardar este pormenor para quando um professor ou um editor olhar só para as frases a vermelho: nem todas merecem a cor.
O humanizador funciona, mas fala brasileiro
Passámos o texto dos óculos inteligentes pelo humanizador, em modo Padrão, o intermédio dos três disponíveis. Já tínhamos comparado cinco alternativas ao Undetectable AI em 2024, e a receita é a mesma. Em seguida, saiu uma versão reescrita, com frases mais curtas e menos fórmulas. Depois, voltámos a submeter o resultado ao detetor da própria Lynote e a classificação caiu de 99,3% de IA para 0,1%, com 99,8% humano. O painel de “resultado instantâneo” mostrou verde em dez detetores, de GPTZero a Turnitin, embora seja uma estimativa interna da Lynote e não uma verificação feita nesses serviços.

O problema, contudo, está noutro lado. O texto entrou em português europeu e saiu em português do Brasil: “estão mudando”, “câmera”, “em nosso dia a dia”, “você pode conectá-los ao seu telefone”. Dessa forma, para quem escreve em Portugal, isto obriga a uma revisão completa, o que anula parte da poupança de tempo. É a falha mais visível que encontrámos e a primeira coisa que a Lynote devia corrigir para o mercado português.

Imagens: uma fotografia gerada por IA apanhada com 79%
A Lynote tem também um detetor de imagens, com três verificações básicas gratuitas sem conta. Assim, carregámos uma fotografia criada por IA, de um homem sentado num sofá a usar óculos, já comprimida para 99 KB. A varredura básica devolveu 78,7% de probabilidade de IA, com o aviso de “inclinada para IA, mas não conclusiva” e a recomendação de revisão humana. Por sua vez, a varredura avançada, reservada ao plano Pro, acrescenta análise EXIF, C2PA e marca de água, e gera um relatório em PDF com identificador próprio.

Quanto custa o detetor de IA e onde estão os limites
O plano gratuito dá 100 créditos de estudo, uma única vez, e aceita até 500 palavras por verificação no detetor e 300 no humanizador. O site do humanizador fala em 2000 palavras grátis, mas a tabela de preços é a que conta. Nas primeiras utilizações sem sessão iniciada, o resultado ficou escondido atrás de um botão “Desbloquear grátis” até criarmos conta, por isso convém contar com o registo desde o início.
Em seguida vem o Starter, a 59 dólares por ano, o equivalente a 4,92 por mês, com 3000 créditos mensais, que a Lynote traduz em 30 mil palavras de deteção ou humanização. O Pro custa 129 dólares por ano, ou 29,99 por mês, com 10 mil créditos. Além disso, há um teste de três dias por 1,95 dólares que passa automaticamente ao plano mensal se não for cancelado. Por fim, os pagamentos passam pelo Stripe e, segundo a empresa, os textos submetidos não são usados para treinar modelos. Preços confirmados a 2 de outubro de 2026.
Se o seu texto for acusado de ser IA
- Olhar para as frases assinaladas, não para a percentagem global. Uma frase isolada a 70% não prova nada.
- Depois, passar o texto por um segundo detetor. Dois resultados iguais pesam mais do que um.
- Além disso, guardar o histórico de escrita, como versões anteriores, notas ou o ficheiro original com datas.
- Evitar reescrever com um humanizador se o texto é seu. Fica pior, e em português europeu fica brasileiro.
- Por fim, pedir ao avaliador que indique que frases o preocupam. Em regra, a conversa resolve mais do que o relatório.
Para quem faz sentido
Em primeiro lugar, para estudantes e professores, o detetor é útil como segunda opinião, sobretudo pela marcação por frase, que permite discutir passagens concretas em vez de números redondos. Já para jornalistas e editores que recebem textos de colaboradores, serve como filtro rápido antes de uma revisão a sério. Por fim, para quem produz conteúdo, o humanizador poupa trabalho em inglês e noutras línguas, mas em português europeu ainda exige uma passagem final à mão.
Há dois avisos que valem para a Lynote e para qualquer concorrente. Antes de mais, nenhum detetor é prova em tribunal, e a própria ferramenta o diz quando pede “revisão humana” nos casos duvidosos. Em segundo lugar, quem usa um humanizador para esconder trabalho que não fez está a resolver o problema errado.
Veredicto: vale a pena o detetor de IA da Lynote?
Nos nossos testes em português, o detetor de IA da Lynote fez o mais difícil: deixou passar Eça de Queirós e uma notícia de 2018 sem as acusar de nada, apanhou texto do ChatGPT com 99% e separou bem as frases num texto misto. Em contrapartida, falhou uma frase humana por excesso de zelo, e o humanizador precisa de aprender a diferença entre Lisboa e São Paulo. Além do mais, com um plano gratuito que chega para experimentar e um anual que fica abaixo de cinco dólares por mês, é das ferramentas mais acessíveis nesta categoria. Assim, quem lida com textos todos os dias, seja a corrigir, a editar ou a entregar, tem aqui um bom motivo para abrir uma conta e ver com os seus próprios textos.


















