De 30 para mais de 80 anos: como a medicina duplicou a esperança de vida humana
Há quem atribua uma vida longa à sorte e rejeite vacinas, medicamentos ou tratamentos médicos. Mas a história mostra uma realidade difícil de contestar: nunca vivemos tanto como hoje. E grande parte desta conquista deve-se à ciência, à medicina, às vacinas e à evolução da saúde pública.
Durante praticamente toda a história do Homo sapiens, chegar à velhice não era impossível. O que era extraordinariamente difícil era sobreviver aos primeiros anos de vida, às infeções, aos partos, aos ferimentos e às epidemias. Durante dezenas de milhares de anos, a esperança média de vida à nascença terá permanecido próxima dos 20 a 35 anos.
Hoje, a média mundial ultrapassa os 73 anos e, em Portugal, aproxima-se dos 82. Não aconteceu porque o ser humano tenha evoluído biologicamente de forma radical. A transformação ocorreu, sobretudo, porque aprendemos a evitar mortes que anteriormente eram quase inevitáveis.
Vacinas, antibióticos, água potável, saneamento, melhores condições de alimentação, cirurgia, cuidados maternos e infantis e, mais tarde, os tratamentos cardiovasculares e oncológicos transformaram completamente a longevidade humana.
Primeiro é preciso esclarecer o que significa “esperança média de vida”
Quando dizemos que há milhares de anos a esperança de vida rondaria os 30 anos, não significa que um ser humano com 30 anos fosse considerado extremamente velho ou estivesse biologicamente próximo da morte.
A esperança de vida à nascença é uma média profundamente influenciada pela mortalidade infantil.
Numa população onde muitas crianças morrem antes dos cinco anos, a média desce dramaticamente, mesmo que uma parte dos adultos consiga chegar aos 60 ou 70 anos.
Este detalhe é particularmente importante quando analisamos sociedades pré históricas ou antigas. Estudos de populações de caçadores recolectores indicam esperanças de vida à nascença aproximadamente entre 21 e 37 anos. Contudo, entre aqueles que sobreviviam à infância, atingir idades bastante superiores não era invulgar.
Homo sapiens: provavelmente cerca de 20 a 35 anos
O Homo sapiens surgiu em África há aproximadamente 300 mil anos. Naturalmente, não existem registos demográficos dessa época.
Os investigadores recorrem a restos arqueológicos, esqueletos e à comparação com populações tradicionais de caçadores recolectores para reconstruir aproximadamente os padrões de mortalidade.
As estimativas apontam geralmente para uma esperança de vida à nascença na ordem dos 20 a 35 anos.
Um estudo de referência sobre populações humanas de subsistência encontrou valores aproximadamente entre 21 e 37 anos. Outros trabalhos utilizam cerca de 30 anos como valor representativo para populações humanas de caçadores recolectores.

Estudos antropológicos mostram que, uma vez ultrapassadas as fases de maior mortalidade infantil, alguns indivíduos chegavam aos 60 e 70 anos. Entre várias populações tradicionais estudadas, a idade modal de morte dos adultos aproxima-se mesmo dos 70 anos.
Ou seja, o corpo humano já tinha capacidade biológica para envelhecer. O problema era conseguir sobreviver tempo suficiente.
No tempo de Cristo: cerca de 20 a 30 anos
Avancemos para o Império Romano, aproximadamente há dois mil anos. Apesar da existência de cidades, aquedutos, sistemas de esgotos, médicos e algum conhecimento cirúrgico, as populações continuavam extremamente vulneráveis às doenças.
Os estudos demográficos do mundo greco romano colocam convencionalmente a esperança de vida à nascença entre 20 e 30 anos.
Alguns modelos utilizados para a população romana apontam para aproximadamente 23 a 25 anos, embora existam diferenças importantes entre regiões e classes sociais.

Mais uma vez, isto não significa que os romanos morressem normalmente aos 25 anos.
Uma criança que ultrapassasse os primeiros anos poderia viver várias décadas. O enorme problema continuava a ser a mortalidade infantil, associada a doenças infecciosas, água contaminada, subnutrição periódica e ausência de tratamentos eficazes.
Uma infeção bacteriana que atualmente poderia ser resolvida com antibióticos podia simplesmente matar.
Descobrimentos: a esperança de vida continuava perto dos 30 anos
Chegamos aos séculos XV e XVI, precisamente à época dos Descobrimentos portugueses. Tinham passado mais de mil anos desde o Império Romano, mas a esperança média de vida tinha mudado surpreendentemente pouco.
Estudos históricos relativos à Europa entre aproximadamente 1500 e 1800 apontam frequentemente para valores entre 27 e 35 anos.
Para Inglaterra, por exemplo, reconstruções demográficas apontam para uma esperança de vida média próxima dos 35 anos entre o século XVI e o início do século XIX.
Peste, varíola, tuberculose, infeções respiratórias e gastrointestinais eram responsáveis por uma enorme mortalidade.
A viagem marítima acrescentava ainda escorbuto, desidratação, traumatismos, infeções e doenças tropicais.
Apesar dos enormes avanços na navegação, matemática, engenharia ou astronomia, a medicina ainda tinha poucas armas verdadeiramente capazes de impedir uma infeção de matar.
Século XVIII: cerca de 28 a 35 anos
Por volta de 1770, a esperança média de vida mundial é estimada em apenas 28,5 anos.
É uma comparação extraordinária porque o Homo sapiens já existia havia centenas de milhares de anos.
Apesar da Revolução Científica, de Newton, dos primeiros microscópios e do início da industrialização, a humanidade continuava a morrer relativamente jovem.
Mas precisamente neste século começaria uma das revoluções mais importantes da história da medicina.

Em 1796, Edward Jenner demonstrou que a inoculação com material proveniente da varíola bovina podia proteger contra a varíola humana. Nascia a vacinação moderna.
A doença que durante séculos matou centenas de milhões de pessoas acabaria por ser completamente erradicada. Em 1980, a Organização Mundial da Saúde declarou oficialmente a erradicação mundial da varíola.
Século XIX: finalmente alguma coisa começa a mudar
No início do século XIX, nenhum país do mundo apresentava uma esperança de vida superior a 40 anos.
Mas durante este século começaram a surgir conhecimentos que alterariam profundamente a mortalidade humana.
Louis Pasteur e Robert Koch ajudaram a demonstrar que muitas doenças eram provocadas por microrganismos. Joseph Lister introduziu princípios antissépticos na cirurgia.
As cidades começaram progressivamente a melhorar os sistemas de abastecimento de água, esgotos e recolha de resíduos.
Passámos finalmente a compreender que água contaminada, mãos sujas, instrumentos cirúrgicos contaminados ou alimentos mal conservados podiam transmitir doenças.

Esta transformação é fundamental porque parte importante do aumento inicial da esperança de vida não veio de medicamentos sofisticados. Veio da saúde pública.
1900: um ser humano ainda vivia, em média, apenas 32 anos
No início do século XX, a esperança média de vida mundial rondava apenas 32 anos. Em 2023 seria de aproximadamente 73,2 anos. Portanto, em pouco mais de um século, mais do que duplicou.
É aqui que a curva histórica da longevidade humana praticamente dispara. A explicação resulta da conjugação de várias revoluções médicas e sociais.
As redes de água potável e saneamento expandem-se. A alimentação melhora. Os cuidados durante a gravidez e o parto tornam-se mais seguros. Surgem novas vacinas. Depois aparecem os antibióticos.
A penicilina, descoberta por Alexander Fleming em 1928 e utilizada em larga escala a partir da década de 1940, transforma doenças anteriormente potencialmente fatais em doenças tratáveis.
Dados históricos mostram, por exemplo, quedas extremamente rápidas da mortalidade provocada por pneumonia depois da introdução das sulfonamidas e dos antibióticos.
Também a mortalidade materna caiu rapidamente graças a antibióticos, transfusões de sangue, melhores técnicas cirúrgicas e maior acompanhamento médico do parto.
1950: a esperança média mundial já chegava aos 46 anos
Em 1950, a esperança média de vida mundial tinha subido para aproximadamente 46,4 anos. Mas as diferenças eram gigantescas.
Na Europa já chegava aos 62 anos e na América do Norte rondava os 68 anos, enquanto em África permanecia perto dos 37 anos. Esta diferença é particularmente reveladora. O genoma humano era essencialmente o mesmo.
O que mudava era o acesso a água potável, alimentação, vacinação, antibióticos, hospitais e sistemas organizados de saúde pública.
As vacinas tiveram um impacto gigantesco
É difícil exagerar o impacto da vacinação na longevidade humana. Doenças que mataram milhões de crianças tornaram-se raras ou desapareceram completamente de muitos países.
Varíola, poliomielite, difteria, tétano, sarampo, rubéola e várias formas de meningite deixaram de ter a mortalidade que tiveram durante praticamente toda a história humana.
Uma análise conduzida para assinalar os 50 anos do Programa Alargado de Vacinação da Organização Mundial da Saúde estimou que a vacinação evitou cerca de 154 milhões de mortes entre 1974 e 2024.
Dessas vidas salvas, aproximadamente 146 milhões eram crianças com menos de cinco anos e cerca de 101 milhões eram bebés.
Os investigadores estimam ainda que a vacinação foi responsável por cerca de 40% da redução da mortalidade infantil observada globalmente durante esse período.
São números difíceis de comparar com praticamente qualquer outra tecnologia médica.
Século XX: a medicina passa a impedir a morte em praticamente todas as idades
Depois de controladas muitas doenças infecciosas, a medicina começou a atacar outras grandes causas de mortalidade. A cirurgia tornou-se progressivamente mais segura graças à anestesia, assepsia, antibióticos e transfusões.
A hipertensão começou a ser tratada. Surgiram unidades de cuidados intensivos. Os enfartes passaram a ser tratados rapidamente. A cirurgia cardíaca tornou possível reparar ou substituir válvulas e fazer bypass coronário.
Statinas, anticoagulantes e medicamentos anti hipertensores reduziram o risco cardiovascular.

O tratamento do cancro avançou com cirurgia, radioterapia, quimioterapia e, mais recentemente, terapias alvo e imunoterapia.
Também os cuidados neonatais permitiram salvar bebés que anteriormente dificilmente sobreviveriam.
Século XXI: 73 anos no mundo e mais de 81 anos em Portugal
Em 2023, a esperança média de vida mundial atingia aproximadamente 73 anos. Portugal encontra-se bastante acima desse valor.
Segundo as Tábuas de Mortalidade do Instituto Nacional de Estatística relativas ao período 2022 a 2024, a esperança de vida à nascença em Portugal atingiu 81,49 anos. Nos homens era de 78,73 anos e nas mulheres de 83,96 anos.
Ou seja, uma criança que nasce atualmente em Portugal tem, estatisticamente, uma esperança de vida cerca de três vezes superior à que seria habitual numa grande parte da história humana.
A evolução da esperança de vida humana
| Período | Esperança de vida aproximada à nascença |
|---|---|
| Caçadores recolectores | 20 a 35 anos |
| Império Romano, época de Cristo | 20 a 30 anos |
| Descobrimentos, séculos XV e XVI | 27 a 35 anos |
| Século XVIII | cerca de 29 a 35 anos |
| 1800 | menos de 40 anos em todos os países |
| 1900, mundo | 32 anos |
| 1950, mundo | 46,4 anos |
| 2015, mundo | cerca de 71 anos |
| 2023, mundo | 73,2 anos |
| Portugal, 2022 a 2024 | 81,49 anos |
Os valores mais antigos devem ser interpretados como estimativas e não como estatísticas comparáveis às atuais. Antes da existência de registos civis e censos modernos, reconstruir a mortalidade exige recorrer a fontes arqueológicas, históricas e modelos demográficos.
Afinal, o que nos ofereceu mais 40 ou 50 anos de vida?
Não houve uma única descoberta responsável pelo enorme aumento da longevidade. Foi a combinação de água potável, saneamento, vacinas, antibióticos, hospitais, cirurgia e melhores condições de vida que permitiu evitar milhões de mortes prematuras.
Mais tarde, os avanços no tratamento das doenças cardiovasculares, do cancro e de outras doenças crónicas permitiram prolongar também a vida em idades mais avançadas.
Por isso, seria incorreto atribuir esta transformação apenas à medicina ou às melhores condições de vida. Na verdade, foi a conjugação destes fatores que mudou radicalmente a sobrevivência humana.
A própria OMS destaca o papel das melhorias na higiene e nos cuidados de saúde, juntamente com a vacinação, que reduziu drasticamente doenças como difteria, tétano, tosse convulsa, poliomielite e sarampo.
A maior revolução pode ter acontecido nos últimos 150 anos
Durante centenas de milhares de anos, uma infeção, uma pneumonia, um parto complicado ou simplesmente água contaminada podiam terminar uma vida.
A grande mudança iniciada no século XIX não foi biológica, o Homo sapiens já tinha capacidade para viver 80 anos, mas poucos conseguiam lá chegar.
Em 1900, a esperança média de vida mundial rondava apenas os 32 anos. Hoje ultrapassa os 73. Esta é talvez a melhor medida do impacto da ciência, das vacinas, da medicina e da saúde pública: não nos tornaram imortais, mas impediram que milhões de pessoas morressem demasiado cedo.



























