Satélite espião da Guerra Fria desfaz-se após 38 anos em órbita. O motivo é um mistério
Foi lançado para escutar os radares soviéticos, mas acabou por deixar outro legado: destroços à volta da Terra. O satélite espião norte-americano USA 32 fragmentou-se em setembro, quase quatro décadas depois do lançamento. A causa e o número total de fragmentos continuam por esclarecer.

Um espião que escutava a Terra
Conhecido pelo nome de código FARRAH III, o USA 32 foi lançado a 5 de setembro de 1988, a partir de Vandenberg, na Califórnia, a bordo de um foguetão Titan II. A missão consistia em intercetar sinais eletrónicos, sobretudo de radares soviéticos, permitindo localizar os emissores e analisar as suas características.
O seu formato era pouco habitual: um cilindro largo e achatado, comparado a uma enorme lata de atum, equipado com três antenas parabólicas. Rodava cerca de 50 vezes por minuto e dispunha de processamento a bordo para transmitir informação diretamente a utilizadores militares, incluindo navios.
Embora tivesse sido concebido para uma vida nominal de três anos, documentação entretanto divulgada indica que ainda funcionava em 2004. Não se conhece publicamente a data em que terminou a sua atividade. Portanto, 38 anos em órbita não significam 38 anos a espiar.

O que aconteceu a 775 quilómetros de altitude?
A fragmentação ocorreu a 13 de setembro de 2026, por volta das 21:13 UTC. A confirmação da U.S. Space Forces–Space, divulgada através do Space-Track e reproduzida pelo KeepTrack, identifica o USA 32 pelo número 19460 do catálogo NORAD.
O comunicado refere que os destroços rastreados estão a ser integrados nas avaliações de possíveis aproximações a outros veículos espaciais. Na altura do anúncio, não tinham sido identificadas ameaças imediatas.
O evento aconteceu a cerca de 775 quilómetros de altitude. Uma bateria degradada, um depósito pressurizado ou o impacto de um pequeno objeto são explicações possíveis, mas nenhuma foi demonstrada. Também não existe um balanço público definitivo dos fragmentos produzidos.

Desligar um satélite não elimina o risco
Atualmente, o fim de uma missão deve incluir a chamada passivação: reduzir a energia armazenada a bordo, descarregando e isolando baterias, eliminando combustível residual e despressurizando depósitos.
Não sabemos se estas operações foram realizadas no USA 32, concebido numa época em que as práticas de prevenção de detritos espaciais eram menos desenvolvidas.
A essa altitude, a atmosfera é demasiado rarefeita para travar rapidamente os destroços. Alguns poderão permanecer em órbita durante muitos anos, acrescentando novos objetos às trajetórias que é necessário vigiar. O risco concreto dependerá das dimensões e das órbitas de cada fragmento.
O velho espião deixa, assim, um lembrete atual: uma missão pode terminar, mas o satélite continua a fazer parte do problema.


















