A sigla GTi regressou à Peugeot e trouxe uma mudança de fundo. Sim, agora o “Gran Turismo Injection” é 100% elétrico. Fomos até Edimburgo conhecer o novo E-208 GTi, um pequeno desportivo com 281 cv que promete manter vivo o prazer de condução dos seus antecessores. Pelo caminho, houve frio e chuva em algumas partes do traçado, ingredientes que tornaram este primeiro contacto ainda mais interessante.

Há nomes que despertam expectativas antes sequer de entrarmos no carro. Na Peugeot, GTi é um deles. Basta lembrar o 205 GTi para perceber a responsabilidade que estas três letras carregam, mas também a curiosidade em torno desta nova interpretação elétrica.
Desta vez, não há motor a gasolina nem caixa manual. Há uma bateria debaixo do piso, binário disponível de imediato e um trabalho de desenvolvimento entregue à Peugeot Sport. A pergunta que levámos para a Escócia era simples: consegue esta combinação continuar a entusiasmar quem gosta de conduzir?

Um GTi que se reconhece à primeira vista
O E-208 GTi parte de uma imagem familiar, mas tem alterações suficientes para se distinguir. A carroçaria está 25 mm mais baixa, enquanto as vias foram alargadas 56 mm à frente e 28 mm atrás. O resultado é uma postura mais musculada, reforçada pelas passagens de roda específicas.
As jantes de 18 polegadas recuperam a inspiração nas jantes perfuradas do 205 GTi e também contribuem para o arrefecimento dos travões. Os apontamentos vermelhos surgem na grelha, nos emblemas e nas pinças dianteiras, entre outros detalhes.
Há ainda um spoiler dianteiro e um difusor traseiro específicos. A Peugeot conseguiu dar-lhe uma identidade desportiva sem carregar demasiado nos acessórios visuais. Continua a ser um 208, mas percebe-se que esta versão tem outras intenções.

Por dentro, o vermelho recupera a memória do 205 GTi
No habitáculo, a ligação ao passado faz-se através dos cintos, do piso e dos tapetes vermelhos, além das costuras e dos bancos exclusivos. Estes últimos recuperam referências aos 205 GTi 1.6 e 1.9, trazendo algum caráter a um interior que mantém a organização conhecida do 208.
Os bancos são um dos pontos positivos deste primeiro contacto. Seguram bem o corpo e oferecem um compromisso agradável entre apoio e conforto, algo relevante num carro que também terá de cumprir os trajetos do dia a dia.




O volante compacto combina pele e Alcantara, com a identificação GTi em vermelho. Já o i-Cockpit continua a exigir algum cuidado na escolha da posição de condução: a relação entre a altura do volante e a visibilidade do painel pode não agradar da mesma forma a todos os condutores.
Na componente tecnológica, encontramos o sistema Peugeot i-Connect Advanced, navegação TomTom e Apple CarPlay e Android Auto sem fios. Existem também páginas de desempenho específicas e um ambiente sonoro associado à rotação do motor, que pode ser ativado ou desligado.

281 cv e uma resposta que não se faz esperar
O motor elétrico M4+ desenvolve 281 cv e 345 Nm de binário. Segundo os dados da Peugeot, permite cumprir os 0 aos 100 km/h em 5,5 segundos e recuperar dos 80 aos 120 km/h em apenas 3,2 segundos. A velocidade máxima está limitada a 180 km/h.
São valores expressivos para um automóvel destas dimensões. Contudo, pelas ruas de Edimburgo, interessava sobretudo perceber a facilidade com que esta mecânica se adapta a uma utilização normal.
A resposta ao acelerador é imediata e há uma reserva de potência que se sente sem ser necessário explorar os limites. Essa disponibilidade faz parte do apelo dos elétricos e, neste caso, surge num conjunto com uma vocação desportiva bem definida.
A Peugeot Sport trabalhou a gestão eletrónica do motor, recorrendo à experiência adquirida em competição. A marca destaca precisamente essa intervenção como uma das peças centrais do desenvolvimento do GTi.

Frio e chuva num primeiro contacto bem escocês
A Escócia não nos recebeu com condições de postal de verão. O frio acompanhou o ensaio e a chuva apareceu em algumas partes do percurso, deixando o piso molhado e obrigando a uma atenção acrescida.
Já não era simples conduzir à esquerda com o volante à esquerda. Mas aceitamos com convicção esse desafio.
Este cenário trouxe uma dimensão interessante à experiência. Num carro com tanta potência disponível de imediato, a forma como se doseia o acelerador e a confiança transmitida pelo chassis ganham especial importância.
A direção foi um dos aspetos que mais nos agradaram. É rápida e precisa, ajudando a colocar o carro na trajetória pretendida. O controlo dos movimentos da carroçaria também convence, com uma sensação de equilíbrio que contribui para a confiança ao volante. E, nestas condições, a confiança é condição sine qua non.
O diferencial autoblocante mecânico dianteiro é uma peça importante neste conjunto, ajudando a aproveitar a tração à saída das curvas. Naturalmente, o asfalto molhado continuou a pedir suavidade e respeito pelas condições.
Ficou a impressão de um carro envolvente, com um comportamento que dá vontade de conhecer melhor quando houver oportunidade para um ensaio mais prolongado.
O trabalho da Peugeot Sport vai além do motor
A preparação do chassis inclui molas específicas e amortecedores exclusivos com batentes hidráulicos. Há também uma barra estabilizadora traseira de 31 mm, mantendo-se a dianteira de 17 mm, segundo o comunicado técnico da marca.
São intervenções que ajudam a explicar a atenção dada ao equilíbrio do automóvel. Acrescentar potência seria apenas uma parte do trabalho; a suspensão, a direção e a capacidade de transmitir essa força ao piso são essenciais para que o conjunto faça sentido.
Na travagem, encontramos discos dianteiros de 355 mm e pinças fixas de quatro pistões. A capacidade de desaceleração convence, mas o tato do pedal deixou-nos menos satisfeitos: gostaríamos de uma resposta mais firme e de um curso menos longo.

É um pormenor relevante num desportivo, onde a confiança também depende da facilidade com que conseguimos dosear a travagem.
A Peugeot refere ainda que, no modo Sport, a travagem regenerativa é desativada. O controlo de estabilidade dispõe igualmente de uma configuração Sport que permite maior liberdade ao condutor, pensada nomeadamente para utilização em circuito.
Autonomia: atenção aos pneus escolhidos
A bateria tem 54 kWh de capacidade bruta e 51 kWh úteis. Embora partilhe a base com o E-208, recebeu uma gestão térmica adaptada às exigências desta versão.
Segundo a Peugeot, o objetivo foi assegurar a consistência do desempenho em utilização exigente, evitando reduções de potência provocadas pela necessidade de proteger a bateria. É uma preocupação importante num carro que se apresenta com a sigla GTi.
Quanto à autonomia, há um detalhe que merece destaque: o valor anunciado depende dos pneus.

Com os Michelin Pilot Sport 4S de série, a autonomia combinada WLTP é de até 352 km. Com os Hankook Ventus S1 Evo3, disponíveis como opção gratuita, sobe para 375 km.
Assim, os 375 km não correspondem a todas as configurações. São também valores de homologação, que devem ser entendidos como uma referência de comparação e não como uma distância garantida em qualquer utilização.
Este primeiro contacto não permite apresentar uma medição rigorosa da autonomia real. O frio, as condições variáveis do percurso e os diferentes ritmos de condução aconselham a deixar essa avaliação para um teste mais prolongado.
Para quem estiver a pensar comprar, este será um dos pontos a ponderar: perceber como a utilização pretendida e as possibilidades de carregamento se ajustam à proposta do carro.





Carregamento e funções úteis no quotidiano
O E-208 GTi admite carregamento rápido em corrente contínua até 100 kW. A Peugeot anuncia uma passagem dos 20 aos 80% em menos de 30 minutos, nas condições previstas pelo fabricante.
O equipamento inclui um planeador de itinerários conectado, que considera as necessidades de carregamento. A aplicação MyPEUGEOT permite preparar percursos, programar a recarga e efetuar o pré-condicionamento à distância.
Existe também função V2L, ou Vehicle-to-Load, para alimentar equipamentos externos com a energia da bateria. Para a utilização diária, é possível limitar o carregamento em corrente alternada a 80%.
A marca anuncia ainda cobertura do veículo até oito anos ou 160.000 km através do programa Peugeot Care, sujeita às respetivas condições, além da garantia da bateria até oito anos ou 160.000 km.

Quanto custa e quando chega a Portugal?
De acordo com o comunicado da Peugeot Portugal, o novo E-208 GTi tem chegada prevista ao mercado nacional no início de 2027, estando disponível para encomenda com um PVP a partir de 44.900 euros.
Durante a fase de lançamento, a marca anuncia uma condição para clientes particulares a partir de 42.553 euros.
É um investimento significativo num automóvel deste tamanho. A decisão terá, por isso, de passar pelo valor que cada comprador atribui ao comportamento desportivo, ao equipamento e à identidade GTi, além da adequação de um elétrico à sua rotina.

Veredicto: um GTi elétrico com vontade de fazer curvas
O Peugeot E-208 GTi deixou-nos boas sensações neste primeiro contacto em Edimburgo. É rápido, tem uma direção precisa e um chassis que mostra o cuidado da Peugeot Sport.
O frio e a chuva em algumas partes do percurso trouxeram exigência à condução, mas também permitiram valorizar o equilíbrio do conjunto. A posição de condução e o tato do travão convenceram menos, enquanto a autonomia merece uma avaliação mais prolongada.
Há aqui motivos para entusiasmar quem gosta de pequenos desportivos, embora o preço e as necessidades de carregamento pesem na decisão de compra.
Pontos fortes
- Desempenho: 281 cv e resposta imediata, com acelerações anunciadas à altura da sigla GTi.
- Direção e comportamento: precisão, agilidade e bom controlo dos movimentos da carroçaria.
- Preparação da Peugeot Sport: suspensão específica e diferencial autoblocante mecânico dão substância à proposta desportiva.
- Personalidade: dimensões compactas e referências ao 205 GTi num visual com identidade.
- Bancos dianteiros: bom apoio lateral sem comprometer o conforto neste primeiro contacto.
Pontos menos fortes
- Tato do travão: o pedal beneficiava de uma resposta mais firme e de um curso menos longo.
- Ergonomia do i-Cockpit: conciliar a posição ideal do volante com a visibilidade da instrumentação pode exigir algum compromisso.
- Autonomia anunciada: os 352 a 375 km WLTP aconselham a ponderar as necessidades de carregamento em viagens.
A passagem à eletricidade muda bastante a experiência associada às três letras GTi. Ainda assim, este E-208 mantém algo essencial: a capacidade de nos deixar com vontade de voltar ao volante.
Falta agora um ensaio mais longo, em Portugal, para perceber como se conjugam esse entusiasmo, os consumos e as necessidades do dia a dia.

















