Poderemos viver até aos 200 anos? Ciência encontra um novo limite para a vida humana
Viver até aos 100 anos é excecional, mas um novo estudo sugere que o ser humano poderia, num cenário extremo, viver entre 146 e 194 anos. Há, contudo, um enorme “mas”.
O que aconteceria se conseguíssemos travar o envelhecimento?
Investigadores do Skolkovo Institute of Science and Technology e do Artificial Intelligence Research Institute criaram um modelo matemático para responder a uma pergunta intrigante:
Quanto tempo viveríamos se conseguíssemos eliminar praticamente todas as causas do envelhecimento?
O trabalho, publicado na revista científica npj Aging, do grupo Nature, considera um cenário hipotético no qual desaparecem praticamente todos os mecanismos associados ao envelhecimento, mantendo apenas um: as mutações somáticas.
São alterações no ADN que se acumulam nas nossas células ao longo da vida e que podem progressivamente comprometer o seu funcionamento ou provocar a sua morte.
E estas mutações parecem colocar um limite bastante concreto à longevidade.
Vida humana: cérebro e coração tornam-se o grande problema
Nem todos os órgãos envelhecem da mesma maneira. Tecidos como o fígado conseguem substituir células danificadas através da divisão celular.
Segundo as simulações, esta capacidade de regeneração torna o fígado extremamente resistente aos efeitos das mutações somáticas.
O problema aparece em células com capacidade de substituição muito reduzida, principalmente os neurónios e os cardiomiócitos, as células musculares do coração.

À medida que acumulam mutações e algumas dessas células deixam de funcionar, cérebro e coração podem aproximar-se progressivamente de um ponto crítico.
Então de onde vêm os 194 anos?
Aqui está a parte mais importante do estudo. Se fosse eliminado todo o envelhecimento, mantendo apenas o risco de mortalidade de uma pessoa moderna com 30 anos, o modelo matemático produziria uma longevidade mediana teórica de 1.759 anos.
Quando os investigadores introduzem apenas o efeito das mutações somáticas, esse número desce dramaticamente.
Considerando diferentes órgãos e a forma como interagem, a mediana passa para aproximadamente 146 a 194 anos.
Só as mutações acumuladas nas células são, portanto, suficientes para retirar mais de 90% dessa longevidade puramente teórica.
Mas atenção: ninguém está a dizer que vamos viver 194 anos
Este é o grande senão. Os 194 anos não são uma previsão da esperança média de vida futura, nem significam que a ciência tenha descoberto que o limite máximo do ser humano é essa idade.
É uma simulação que pressupõe algo que atualmente não conseguimos fazer: eliminar praticamente todos os restantes mecanismos do envelhecimento.
Na realidade, envelhecemos simultaneamente através de alterações epigenéticas, disfunção mitocondrial, senescência celular, inflamação, perda de capacidade regenerativa e muitos outros processos.
Aliás, o próprio modelo demonstra isso: se as mutações fossem suficientes para explicar todo o envelhecimento, deveríamos conseguir viver muito mais do que vivemos atualmente.

O recorde continua nos 122 anos
Até hoje, a pessoa com maior longevidade documentada continua a ser Jeanne Calment, que morreu em França em 1997 com 122 anos e 164 dias.
Estamos, portanto, muito longe dos 194 anos sugeridos pela simulação.
O verdadeiro interesse deste estudo não está em anunciar que os humanos poderão viver quase dois séculos. Está em mostrar que, mesmo que a medicina consiga um dia controlar grande parte dos mecanismos do envelhecimento, continuará a existir um adversário particularmente difícil de eliminar: os erros que o nosso próprio ADN acumula ao longo do tempo.




















