Análise Marvel Tōkon: Fighting Souls (Playstation 5)
A Arc System Works pegou no universo Marvel e aplicou-lhe a sua reconhecida experiência nos jogos de luta, no mais recente titulo com a chancela Marvel, Marvel Tōkon: Fighting Souls. Nós já experimentámos o jogo e....
A Marvel tem uma longa história ligada aos videojogos de luta, mas poucas combinações parecem tão naturais como aquela que junta o universo da editora à Arc System Works. Conhecida por séries como Guilty Gear e BlazBlue, a produtora japonesa tem uma identidade muito própria, assente em sistemas de combate profundos, personagens distintas e uma apresentação visual fortemente inspirada na animação japonesa.
Marvel Tōkon: Fighting Souls procura juntar precisamente esses dois mundos. De um lado, temos um elenco composto por alguns dos mais reconhecidos heróis e vilões da Marvel; do outro, encontramos um sistema de combate desenhado para oferecer espetáculo imediato, mas também uma camada estratégica capaz de recompensar quem estiver disposto a dominar todas as suas possibilidades.
E é precisamente nesta combinação que o jogo encontra a sua maior força.
Uma história coerente com o universo Marvel
Embora um jogo de luta não dependa necessariamente de uma narrativa elaborada para funcionar, a Arc System Works decidiu dar alguma importância à componente narrativa. A narrativa contra-nos como uma tremenda ameaça se aproxima da Terra.
Uma entidade intergaláctica, de nome Champion (um Elder of the Universe), escolheu a Terra como o seu próximo alvo após destruir Chandilar, o planeta natal dos Shi'ar. O seu propósito é o de enfrentar os maiores herois de cada planeta, no “Desafio do Campeão”. Cada vençam, conseguem salvar o planeta. Caso percam, o planeta estará perdido. Será que é mesmo assim??
Para defender a Terra, são escolhidos Capitão América, Storm, Homem-Aranha, Ghost Rider e Doutor Doom como líderes de cinco equipas. Cada um deverá reunir quatro lutadores, numa homenagem ao Quarteto Fantástico, para tentar derrotar o Champion e impedir a destruição do planeta.
Uma história contada em vários Episódios
O modo história encontra-se dividido em cinco episódios relativamente longos, combinando combates com painéis de banda desenhada que ajudam a contar cada uma das histórias.
A ideia de estruturar os episódios em torno das diferentes equipas Marvel funciona particularmente bem. Cada grupo tem a sua própria história, embora a premissa seja semelhante: existe o Champion à procura de um adversário digno e, caso não o encontre, o destino do planeta fica condenado.
É uma premissa simples e pouco revolucionária, mas cumpre perfeitamente a sua função. A qualidade da escrita dos personagens e das suas interpretações ajuda a tornar a campanha mais interessante do que aquilo que o argumento, por si só, poderia fazer prever.
Mais importante ainda, os episódios funcionam também como uma forma relativamente natural de apresentar os diferentes personagens e as suas mecânicas ao jogador.
A utilização de segmentos apresentados como cartoons é outro dos elementos que merece destaque. A Arc System Works consegue transmitir a sensação de estarmos perante uma história de banda desenhada viva, algo particularmente interessante para quem cresceu a acompanhar estes universos.
Quando quatro personagens passam a ser uma só equipa
É, contudo, no combate que Marvel Tōkon: Fighting Souls realmente mostra aquilo que tem para oferecer.
À primeira vista, o sistema pode parecer intimidante. São quatro personagens para controlar, existem movimentos diferentes, ataques de assistência, golpes especiais, combinações e várias possibilidades para gerir durante um combate. Para quem chega ao género sem grande experiência, a quantidade de informação pode parecer excessiva.
Mas basta compreender a lógica de construção da equipa para que tudo comece a fazer sentido.
Marvel Tōkon: Fighting Souls é um jogo de luta 4 contra 4, mas introduz uma diferença importante: a equipa partilha uma única barra de vida. Em vez de obrigar o jogador a gerir individualmente a saúde de cada personagem, o sistema coloca maior ênfase na própria equipa, na utilização das assistências e na escolha do momento certo para colocar cada lutador em ação.
Esta opção acaba por simplificar um dos elementos que poderia tornar a experiência demasiado complexa e, simultaneamente, reforça a vertente estratégica.
Podemos escolher um personagem principal e utilizar os restantes como suporte ou, pelo contrário, alternar frequentemente entre os quatro elementos da equipa para aproveitar as características específicas de cada um. A construção da equipa passa, assim, a ser uma parte fundamental da experiência.
E é aqui que o sistema começa verdadeiramente a brilhar.
Simples de aprender, difícil de dominar
A Arc System Works conseguiu criar um sistema de combate que procura evitar uma das maiores barreiras dos jogos de luta: a dificuldade inicial.
Marvel Tōkon: Fighting Souls permite executar determinados combos através de comandos simplificados e utiliza ataques que podem ser realizados de forma relativamente acessível. Ao mesmo tempo, os jogadores mais experientes encontram comandos específicos capazes de causar mais dano e preencher mais rapidamente a barra de habilidade.
É uma solução inteligente que permite que, quem pretenda simplesmente entrar numa partida consegue fazê-lo sem ter de passar horas a memorizar sequências complexas. Mas, por outro lado, quem quiser explorar verdadeiramente o sistema rapidamente percebe que existe muito mais para aprender.
Os comandos principais são partilhados entre os diferentes lutadores, mas isso não significa que as personagens e seus ataques sejam iguais. Pelo contrário, cada qual apresenta características próprias, ataques específicos e diferentes formas de contribuir para a equipa.
Doom, por exemplo, oferece uma abordagem mais orientada para o combate à distância, enquanto Wolverine apresenta uma identidade completamente diferente. O mesmo acontece com personagens como Homem-Aranha ou Captitão América, cujas habilidades especiais alteram significativamente a forma como podem ser utilizadas durante um combate.
É esta diversidade que impede que o sistema de combate se torne rapidamente repetitivo.
A importância de gerir a energia
Um dos aspetos mais interessantes do sistema é a forma como a barra de energia condiciona as decisões do jogador.
Os ataques ligeiros permitem desencadear golpes especiais e chamar companheiros para ataques conjuntos. Os ataques médios podem conduzir diretamente a uma Super Skill, consumindo parte da energia, enquanto os ataques pesados permitem terminar as sequências com uma Ultimate Skill, mas exigem um investimento energético superior.
Isto significa que executar um ataque poderoso nem sempre é necessariamente a melhor decisão.
É preciso ponderar no momento em que se utiliza a energia e decidir se vale a pena gastar recursos para causar dano imediato ou guardá-los para mais tarde. É uma mecânica que consegue funcionar tanto para quem está a aprender como para quem pretende dominar o jogo a longo prazo.
E depois existem momentos capazes de transformar um combate numa autêntica cena de animação.
Tōkon Assemble: espetáculo visual
Entre as várias mecânicas, o Tōkon Assemble é provavelmente uma das que melhor representa a filosofia do jogo.
Quando as condições necessárias estão reunidas, toda a equipa pode participar numa sequência de ataque cinematográfica, culminando num golpe final. Não se trata apenas de uma recompensa pelo domínio das mecânicas: é também uma demonstração daquilo que a Arc System Works sabe fazer quando combina combate e apresentação visual.
Mesmo quando o jogador está numa situação complicada, manter a barra de energia cheia pode representar uma oportunidade para mudar o rumo do combate. O resultado é uma sequência espetacular que reúne os membros da equipa e coloca em evidência os seus golpes característicos.
A componente defensiva também não foi esquecida. O Crossover permite chamar um companheiro para interromper uma ofensiva adversária, enquanto o Crossover Reflect pode devolver essa pressão ao atacante. Já os Assemble Counters permitem recuar e responder automaticamente a uma ofensiva, embora com um custo energético.
São sistemas que demonstram que o combate não se resume a atacar primeiro e com mais força.
21 personagens, 21 formas de jogar
O elenco é outro dos pontos fortes do jogo. Os 21 personagens jogáveis apresentam designs muito próximos das suas versões animadas e, mais importante, conseguem transmitir sensações diferentes quando estão sob o nosso controlo.
A Arc System Works não se limitou a alterar visualmente os lutadores. As habilidades exclusivas de cada personagem são coerentes e acrescentam uma camada adicional à experiência.
O Homem-Aranha pode utilizar as suas teias para atravessar rapidamente o cenário e prender adversários, enquanto Magik recorre aos seus Portais das Trevas para criar possibilidades de ataque e movimentação baseadas no teletransporte.
São diferenças que ganham verdadeira importância quando começamos a construir equipas e a perceber como as características de cada membro podem complementar as dos restantes.
Outras formas de combater
Apesar de o combate ser claramente o centro de Marvel Tōkon: Fighting Souls, existem vários modos adicionais destinados a prolongar a experiência.
A All-Star Arena é a principal proposta para quem prefere jogar sozinho e está dividida entre Arena e Survival. O primeiro aproxima-se da estrutura tradicional de um modo arcade, permitindo escolher uma equipa e um percurso antes de enfrentar diferentes equipas controladas pela inteligência artificial.
O Survival, por sua vez, coloca o jogador perante uma sequência que pode chegar aos 100 combates, com recuperação de vida entre confrontos e adversários especiais mais poderosos em determinados momentos. A possibilidade de guardar o progresso depois de derrotar um chefe torna esta modalidade particularmente interessante para sessões mais prolongadas.
São modos sólidos para treinar, experimentar novas equipas e melhorar as capacidades de combate, embora não tragam uma grande revolução ao género.
Arcadia Rumble: divertido e inovador mas, controverso
Entre as propostas multiplayer (também pode ser jogado a solo) mais descontraídas encontramos Arcadia Rumble, que tenta afastar-se da fórmula tradicional dos combates.
A ideia passa por colocar os jogadores numa arena onde precisam de procurar itens, recolher power-ups e acumular pontos antes de regressarem aos confrontos. Esses power-ups e experiência adquirida serão depois mais-valias para serem usadas nos combates. Pelo caminho vamos adquirindo estrelas de ouro (seja na arena, seja nos combates) que é o que identifica o vencedor no final.
É uma experiência que pode funcionar bem numa sessão entre amigos e que oferece uma alternativa aos habituais combates competitivos.
Ainda assim, é também um dos casos em que o jogo parece complicar uma fórmula que já funcionava bem.
A exploração e a recolha de itens acabam por parecer algo desnecessárias quando comparadas com a qualidade do próprio combate. A experiência é divertida e funciona particularmente bem em sessões curtas, mas fica a sensação de que a componente de luta continua a ser a parte mais interessante.
Uma apresentação digna da Marvel
Visualmente, Marvel Tōkon: Fighting Souls é um dos jogos de luta mais impressionantes da sua geração.
A Arc System Works consegue transformar os combates numa espécie de banda desenhada em movimento, com personagens vibrantes, cenários coloridos e ataques especiais extremamente elaborados.
E há um detalhe particularmente importante: mesmo com oito personagens presentes no ecrã, a ação raramente se torna difícil de acompanhar.
Isto não é um pormenor. Num jogo onde existem assistências, trocas de personagens, ataques especiais, efeitos visuais e movimentos simultâneos, manter a leitura do combate é fundamental. A apresentação consegue ser exuberante sem sacrificar demasiado a clareza.
Mas nem tudo são rosas e não posso deixar de referir, no entanto, que por muito que um jogador domine as combos e os sistemas de alternância de personagem, existem momentos de puro smash buttoning. É algo que está intrinsecamente ligado a jogos de luta e acredito que por mais que se tente erradicar, jamais será possivel eliminar completamente.
Uma boa adição ao género
Outro aspeto que merece elogio é o trabalho desenvolvido na acessibilidade.
O jogo apresenta um modo de treino bastante completo, guias integrados para as personagens e várias opções de personalização. Estas ferramentas ajudam a reduzir significativamente a barreira de entrada para quem não está familiarizado com jogos de luta.
O tutorial não explica absolutamente tudo — e ainda bem. Há espaço para o jogador descobrir algumas das possibilidades por si próprio — mas funciona como um excelente ponto de partida e fornece o conhecimento necessário para começar a compreender as mecânicas.
É uma abordagem particularmente importante num jogo que à primeira vista, pode parecer bastante mais complexo do que realmente é.
4K, 60 fps e Rollback Netcode
Tecnicamente, Marvel Tōkon: Fighting Souls também deixa boas impressões. O jogo apresenta gráficos em 4K, com uma taxa estável de 60 fps e suporte para Rollback Netcode, uma combinação particularmente importante num jogo de luta onde a precisão das ações e a resposta aos comandos são fundamentais.
Durante a experiência, a infraestrutura online mostrou-se igualmente sólida, sem interrupções de partidas a decorrer. É um aspeto relevante porque, por muito bom que seja o sistema de combate, um jogo de luta competitivo depende inevitavelmente da qualidade da sua componente online.
O que achámos
Marvel Tōkon: Fighting Souls consegue uma coisa que nem sempre é fácil nos jogos de luta: ser simultaneamente acessível e profundo.
A primeira impressão pode ser a de um sistema excessivamente complexo, sobretudo quando percebemos que temos quatro personagens, assistências, diferentes tipos de ataques, barras de energia, habilidades especiais e várias mecânicas defensivas para dominar. Mas, à medida que começamos a compreender a lógica por detrás da construção das equipas, tudo isso começa a transformar-se numa experiência estratégica.
É essa aprendizagem progressiva que acaba por tornar o jogo mais interessante.
A componente narrativa cumpre a sua função, os modos adicionais oferecem variedade e o Arcadia Rumble pode proporcionar alguns bons momentos, embora seja um pouco disruptivo em relação ao jogo. A All-Star Arena, por outro lado, é uma boa opção para quem prefere jogar sozinho, ainda que siga fórmulas já bastante conhecidas.
Mas é no combate que Marvel Tōkon: Fighting Souls verdadeiramente capricha.
A possibilidade de construir uma equipa de quatro personagens, alternar entre elas, utilizar assistências e explorar diferentes combinações cria uma profundidade considerável. E quando tudo começa a funcionar em conjunto, com os ataques especiais, contra-ataques e sequências cinematográficas a sucederem-se no ecrã, percebe-se exatamente aquilo que a Arc System Works procurou alcançar.
Um jogo de luta que não se limita a colocar personagens Marvel frente a frente, mas que tenta transformar cada combate num pequeno espetáculo.
E, nesse capitulo, Marvel Tōkon: Fighting Souls consegue providenciar um combate espectacular.






















