Portugal poderá ter até 27 mil mortos num grande sismo. A ciência explica os números
As estimativas de que um grande sismo em Portugal poderá provocar até 27 mil mortos voltaram a ganhar destaque nos últimos dias.
Os números são impressionantes, mas não surgiram por acaso nem representam uma previsão do que irá acontecer. Resultam de modelos científicos desenvolvidos ao longo de vários anos pelo Laboratório Nacional de Engenharia Civil (LNEC), que simulam cenários extremos de risco sísmico.
As estimativas têm origem em estudos do LNEC
Os valores que apontam para 17 mil a 27 mil vítimas mortais remontam a trabalhos científicos conduzidos pelo LNEC, em particular pela investigadora Maria Luísa Sousa, no âmbito da avaliação do risco sísmico em Portugal Continental.
Esses estudos cruzam vários fatores:
- A perigosidade sísmica de cada região.
- A vulnerabilidade dos edifícios.
- A densidade populacional.
- A hora provável de ocorrência do sismo.
- Os efeitos locais dos solos na amplificação das ondas sísmicas.
O objetivo não é prever quantas pessoas morrerão, mas sim avaliar o pior cenário plausível para apoiar medidas de prevenção e planeamento da Proteção Civil.
Lisboa continua a ser a região mais vulnerável
A Área Metropolitana de Lisboa reúne praticamente todos os fatores que aumentam o risco sísmico:
- Elevada densidade populacional.
- Grande número de edifícios antigos em alvenaria não reforçada.
- Solos sedimentares que podem amplificar a intensidade do movimento sísmico.
- Infraestruturas críticas concentradas numa área relativamente pequena.
Estudos recentes publicados no Journal of Earthquake Engineering concluem que os edifícios de alvenaria construídos antes da existência de regulamentação sísmica continuam a representar uma das maiores vulnerabilidades da região.
O perigo não é apenas o sismo
Os especialistas alertam que um grande terramoto raramente provoca apenas o abalo do solo. Na maioria dos casos, desencadeia uma sucessão de fenómenos que podem agravar significativamente as consequências do desastre.
Entre os principais impactos estão o colapso de edifícios, os incêndios causados por fugas de gás ou curto-circuitos, a interrupção das comunicações e do fornecimento de energia, bem como danos em hospitais e noutras infraestruturas críticas essenciais à resposta de emergência.
Se o epicentro ocorrer no mar, existe ainda o risco de formação de um tsunami, capaz de atingir rapidamente as zonas costeiras.
Foi precisamente esta combinação de fatores que fez do terramoto de Lisboa de 1755 um dos desastres naturais mais devastadores da história europeia, provocando uma enorme perda de vidas humanas e destruindo grande parte da cidade.
A ciência evoluiu desde as primeiras estimativas
Embora o número de 17 mil a 27 mil mortos continue frequentemente citado, a investigação científica evoluiu significativamente nos últimos anos.
Em 2024, investigadores portugueses publicaram uma revisão abrangente sobre o risco sísmico nacional, utilizando dados muito mais recentes, incluindo:
- Censos de 2021.
- Novos modelos europeus de perigosidade sísmica.
- 116 classes diferentes de vulnerabilidade dos edifícios.
- Modelos probabilísticos atualizados para perdas humanas e económicas.
O estudo conclui que Portugal dispõe hoje de ferramentas muito mais precisas para identificar as zonas de maior risco e definir prioridades de mitigação, embora continue a existir uma elevada exposição sísmica, especialmente nas regiões de Lisboa, Vale do Tejo e Algarve.
Um sismo é inevitável. A data é que ninguém conhece.



















