Passa horas a ver TikToks e Reels? A ciência explica o “doomscrolling”
É madrugada e, em vez de dormir, o seu dedo continua a deslizar pelo ecrã, imerso num fluxo interminável de notícias e vídeos. Se este cenário lhe é familiar, saiba que existe uma explicação científica para este hábito conhecido como "doomscrolling".
A armadilha neurológica do doomscrolling
É uma da manhã. A lógica dita que devíamos estar a dormir, mas o polegar desliza incessantemente pelo ecrã, navegando entre vídeos no TikTok, Reels ou publicações no X. Um incêndio florestal na região ou uma nova crise política mantêm-nos presos ao ecrã. E, por mais exaustos que estejamos, parece impossível parar. Se se revê nesta descrição, então bem-vindo ao fenómeno do doomscrolling.
Este termo, que ganhou especial notoriedade durante a pandemia, define o hábito de consumir notícias negativas ou angustiantes de forma prolongada, sobretudo através das redes sociais. Contudo, por trás deste comportamento, que se tornou comum na sociedade atual, escondem-se complexos processos neuroquímicos que a ciência tem vindo a investigar.
Para compreendermos o doomscrolling, é fundamental perceber que o cérebro humano não evoluiu para interagir com o X ou o TikTok; evoluiu para garantir a sobrevivência. Num passado não muito distante, a nossa existência dependia de caçar para comer ou de fugir de predadores, uma realidade que o nosso cérebro ainda tem profundamente enraizada.
O que acontece exatamente?
A literatura científica mais recente demonstra que o ato de deslizar o dedo pelo ecrã ativa os circuitos de recompensa do cérebro, como o sistema dopaminérgico. Este sistema impulsiona-nos a procurar continuamente mais informação, pois, do ponto de vista evolutivo, saber "onde está o perigo" era crucial para sobreviver. O problema é que, no contexto digital, o algoritmo não tem fim, permitindo-nos consumir este tipo de conteúdo 24 horas por dia.
Mas o sistema de recompensa, que nos proporciona um certo "prazer" ao identificar potenciais ameaças, não atua sozinho. A ele junta-se a amígdala, o centro do medo no nosso cérebro. Ao sermos expostos a informações alarmantes, como uma guerra num território próximo, o cérebro interpreta-as como uma ameaça iminente, o que resulta numa libertação massiva de cortisol. Esta é a famosa "hormona do stress", responsável por manter o corpo num estado de hipervigilância.
O resultado da interação destes dois circuitos, como apontam algumas publicações, é claro: o cérebro procura alívio na informação, mas apenas encontra mais ameaças. Gera-se, assim, um ciclo vicioso no qual procuramos acalmar-nos, mas acabamos mais assustados e, consequentemente, voltamos a procurar mais informação.
O custo cognitivo do "brain rot"
Nas redes sociais, popularizou-se o termo "brain rot", ou "apodrecimento cerebral", muitas vezes usado como um meme. No entanto, a ciência encara o assunto com maior seriedade. Investigações recentes sugerem que a exposição repetida a estes estímulos fragmentados e de elevado impacto emocional, como vídeos de 15 segundos e títulos alarmistas, acarreta um elevado custo físico e mental.
O impacto é particularmente visível nas funções executivas (planeamento, organização, tomada de decisões). A constante alternância entre contextos catastróficos força o cérebro a saltar de uma ideia para outra em milissegundos, um processo que não é gratuito. O preço a pagar pode ser resumido em três pontos principais:
- Fadiga mental: resulta do elevado consumo de glicose que o cérebro necessita para mudar constantemente de foco.
- Deterioração do córtex pré-frontal: associa-se a uma menor eficiência da área responsável pelo planeamento e controlo de impulsos.
- Bloqueio do processamento: o estado de hiperalerta dificulta a transferência de informação para a memória a longo prazo.
Doomscrolling tira-nos a capacidade de concentração?
Esta é a pergunta que muitos de nós nos colocamos perante este fenómeno. A resposta curta da ciência é: não, mas custa-nos muito mais "arrancar".
Estudos sobre o multitasking digital indicam que não perdemos a capacidade fisiológica de manter a atenção. O que aconteceu foi que treinámos o nosso cérebro para esperar interrupções constantes. A atenção profunda, necessária para ler um livro, por exemplo, requer um período de "aquecimento". O doomscrolling e o fluxo incessante de notificações reiniciam constantemente esse processo.
Investigações publicadas na BMC Public Health referem que a nossa atenção fica "ancorada" à espera da próxima atualização. Mesmo quando não estamos a olhar para o telemóvel, uma parte dos nossos recursos cognitivos permanece vigilante, reduzindo o nosso desempenho na tarefa que temos em mãos.
Não se trata de um declínio irreversível, mas sim de uma atrofia por desuso dos circuitos de concentração profunda.
Apesar do tom pessimista de muitos estudos sobre o tema, a conclusão científica não é que estejamos condenados a ser autómatos distraídos e agarrados a um telemóvel. A grande vantagem do ser humano é a neuroplasticidade.
Este conceito significa que, da mesma forma que o cérebro aprende a fazer scroll de forma compulsiva, também pode "desaprender". Os especialistas concordam que os danos não são permanentes, a menos que o comportamento se torne crónico durante anos sem qualquer intervenção.
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O perigo é real.
Eu no meu caso, a solução que arranjei é : não uso ambas
Reservo o meu tempo de doom scrolling…e já não é sempre…apenas para quando estou no trono…assim faço m3rd@ enquanto vejo m3rd@, parece-me sensato 😉
A ciência nem precisava de explicar vê-se logo que são uns “agarrados” dependentes que podiam usar o tempo em atividades socialmente mais construtivas.