Conforme denunciado por analistas e responsáveis ucranianos, a Rússia tem instalado os sistemas de satélite Starlink nos seus drones para atacar a Ucrânia de uma forma mais profunda. À luz das sanções impostas pelos Estados Unidos ao país liderado por Vladimir Putin, o serviço fornecido pela norte-americana SpaceX não poderia, sequer, ser disponibilizado Rússia.
Segundo Serhii Beskrestnov, especialista em tecnologia militar e conselheiro do Ministério da Defesa da Ucrânia, o país recolheu provas de “centenas” de ataques realizados por drones russos equipados com terminais Starlink.
Estes alegados ataques não estão a visar alvos militares, mas antes cidades pacíficas na retaguarda e na linha da frente, “incluindo edifícios residenciais”, no que o especialista descreve como uma operação de terrorismo “que utiliza tecnologias modernas de comunicação civil”.
Afinal, segundo a CNN, a integração da Starlink permite que a Rússia contorne as defesas eletrónicas da Ucrânia, que neutralizam drones através do bloqueio de sinais GPS e de rádio.
Starlink dá maior alcance e precisão aos ataques da Rússia
Anteriormente, a Rússia contornava os bloqueadores da Ucrânia usando drones controlados por cabos de fibra ótica. No entanto, embora estes não possam ser neutralizados eletronicamente, o seu alcance é limitado pelo comprimento do cabo.
Os drones equipados com Starlink têm maior alcance do que os drones guiados por rádio ou cabo e não podem ser bloqueados.
Além disso, a ligação ultrarrápida permite, também, controlá-los em tempo real a partir da Rússia, tornando os ataques muito mais precisos.
De ressalvar que, à luz das sanções impostas pelos Estados Unidos ao país liderado por Vladimir Putin, a Starlink não poderia ser vendida nem utilizada na Rússia.
Uma fotografia divulgada pelas autoridades ucranianas mostra os restos de um drone russo equipado com um sistema Starlink. Crédito: Serhii Beskrestnov, via CNN
Drones de baixo custo estão a mudar o conflito
Embora outros drones e mísseis russos consigam percorrer distâncias maiores, são muito mais caros, maiores e mais fáceis de detetar e abater.
Neste cenário, um drone mais simples equipado com um sistema Starlink Mini, que custa entre 250 e 500 dólares, pode ser muito mais barato e tão eficaz quanto modelos mais avançados que custam dezenas de milhares de dólares.
O especialista Serhii Beskrestnov, mais conhecido como Flash, partilhou uma fotografia de um ataque com um drone BM 35, em Dnipro, afirmando que um drone equipado com Starlink pode voar até 500 quilómetros.
Além disso, conforme citado, disse que era provável que o ataque mortal contra um comboio civil no leste da Ucrânia, na terça-feira, tenha sido realizado com um drone Shahed equipado com um modem de rádio em rede mesh ou possivelmente com Starlink.
Afinal, conseguiu ultrapassar as defesas eletrónicas e foi guiado pelo operador para atingir o centro de um comboio em movimento.
A tecnologia Starlink torna os drones resistentes às ferramentas de guerra eletrónica da Ucrânia. Crédito: Serhii Beskrestnov, via CNN
Mais do que isso, no início deste mês, Flash disse à emissora pública ucraniana Suspilne que um conjunto de drones Molniya equipados com Starlink tinha sido usado para atacar infraestruturas energéticas ucranianas na região de Chernihiv.
Segundo ele, aliás, um em cada três drones conseguiu atingir o alvo graças à tecnologia Starlink: “É impossível suprimi-los com guerra eletrónica; só podem ser abatidos fisicamente se um drone antiaéreo os detetar e disparar”.
Esta quinta-feira, o especialista informou que mais drones Molniya com Starlink haviam sido usados durante a noite perto de Pavlohrad, a cerca de 50 quilómetros da linha da frente.
Ucrânia já contactou a Starlink
O inimigo está constantemente a melhorar os seus drones e táticas de ataque para atingir os seus objetivos. Todos os dias surge um novo risco.
Disse Mykhailo Fedorov, recém-nomeado ministro da Defesa da Ucrânia, anteriormente responsável pelo desenvolvimento e aquisição de drones enquanto ministro da Ciência, Tecnologia e Transformação Digital.
Além disso, informou que, só no último mês, a Rússia lançou mais de 6000 drones, um número ligeiramente superior ao de dezembro e novembro, mas mais do dobro do registado na mesma altura do ano passado.
Esta quinta-feira, também, Fedorov disse que o ministério contactou a SpaceX com propostas sobre como impedir a Rússia de usar a tecnologia, agradecendo à presidente da empresa responsável pela Starlink, Gwynne Shotwell, bem como a Elon Musk, pela resposta rápida e por terem começado a trabalhar na resolução da situação.
O Instituto para o Estudo da Guerra (em inglês, ISW), um observatório de conflitos sediado nos Estados Unidos, afirmou que, com base no alcance reportado de 500 quilómetros, “a maior parte da Ucrânia, toda a Moldávia e partes da Polónia, Roménia e Lituânia” ficam ao alcance dos drones BM 35 equipados com Starlink, se lançados a partir da Rússia ou de territórios ucranianos ocupados.
Ministro polaco acusa Starlink de “lucrar com crimes de guerra”
Entretanto, o ministro dos Negócios Estrangeiros da Polónia, Radosław Sikorski, acusou a Starlink de “ganhar dinheiro com crimes de guerra”.
Segundo Sikorski, a Starlink tornou-se parte da infraestrutura de guerra da Rússia, apesar das sanções ocidentais e das garantias repetidas de que o serviço não seria disponibilizado a Moscovo.
Hey, big man, @elonmusk, why don’t you stop the Russians from using Starlinks to target Ukrainian cities. Making money on war crimes may damage your brand. https://t.co/dGO6xdFagL
— Radosław Sikorski 🇵🇱🇪🇺 (@sikorskiradek) January 27, 2026
Esta acusação reacende um conflito público prolongado entre o ministro polaco e o empresário norte-americano sobre o papel das empresas privadas na guerra moderna e a responsabilidade pelo uso dos seus produtos.
Esta semana, Elon Musk respondeu às críticas mais recentes, recordando que a Starlink tem sido “a espinha dorsal das comunicações militares da Ucrânia”, não abordando, contudo, a questão do uso do seu sistema pela Rússia.