O 3I/ATLAS parece-se com um cometa, “cheira” a cometa, comporta-se como um cometa… mas há alguns “especialistas” com dúvidas. Insistem mesmo na tese de que o seu comportamento, velocidade e alguns movimentos menos ortodoxos leva a pensar que possa ser uma gigante nave alienígena que se esconde da Terra, mas estuda o nosso sistema solar. Agora, está a poucos dias se encontrar o momento da verdade.
Hipótese da “nave alienígena” prestes a ser testada
A hipótese da “nave alienígena” associada ao cometa interestelar 3I/ATLAS está prestes a ter um teste decisivo, à medida que o objeto atinge a conjunção solar e o periélio.
O que significa isto, e por que razão um professor de astronomia de Harvard está a dizer às pessoas para marcarem as férias antes de 29 de outubro?
Diagrama mostra a trajetória do cometa 3I/ATLAS através do nosso Sistema Solar. Não há mudanças bruscas de rumo que indiquem que se trata de uma nave alienígena exploratória! Crédito: NASA/JPL-Caltech
Um visitante interestelar com características invulgares
A 1 de julho, astrónomos do sistema ATLAS (Asteroid Terrestrial-impact Last Alert System) detetaram um objeto a atravessar o Sistema Solar, numa trajetória que o levará novamente para o espaço interestelar. Trata-se do terceiro visitante confirmado, após 1I/‘Oumuamua e 2I/Borisov.
Rapidamente se confirmou que era um cometa, e um bastante interessante. O 3I/ATLAS apresenta uma composição química e polarização invulgares, bem como uma rara cauda invertida (anti-tail), que não é uma ilusão ótica.
Contudo, o trajeto do cometa afastou-o da observação direta pelos telescópios terrestres. Neste momento, encontra-se atrás do Sol. Na terça-feira, 21 de outubro, atingirá a conjunção solar, ou seja, estará diretamente atrás do Sol, visto da Terra.
Há observações feitas a partir de orbitadores de Marte, e possivelmente também da órbita de Júpiter. Infelizmente, enquanto o Sol bloqueia a visão a partir da Terra, o objeto estará no periélio, o ponto mais próximo da sua órbita em relação à nossa estrela.
Quando um cometa se aproxima do Sol, aquece e liberta gases e poeiras da sua superfície. O 3I/ATLAS não é exceção, tendo começado a libertar material a 6,4 UA do Sol (1 UA é a distância entre a Terra e o Sol). Observar o cometa na sua maior aproximação poderia revelar dados valiosos sobre o seu ambiente de origem.
Astrónomo controverso e a hipótese alienígena
Apesar de tudo, um astrónomo controverso lançou o pânico entre teóricos da conspiração ao sugerir que o objeto poderá não ser natural, e até fazer algo invulgar enquanto estiver fora do nosso campo de visão.
Segundo Avi Loeb, professor de Harvard, se o objeto tiver origem tecnológica alienígena (uma hipótese considerada extremamente improvável, já que nunca foi detetada qualquer tecnologia extraterrestre), poderá realizar uma “manobra de Oberth” enquanto estiver escondido, aproveitando a gravidade solar para alterar a sua trajetória e velocidade.
Desde a descoberta, Loeb tem alternado entre dizer que a hipótese da nave alienígena serve apenas como exercício pedagógico e afirmar que há uma “possibilidade relativamente alta” de o objeto não ser natural. Numa entrevista recente, chegou a declarar:
Se quer tirar férias, faça-o antes de 29 de outubro, porque ninguém sabe o que pode acontecer.
Até agora, atribuo uma probabilidade de 30 a 40% de o 3I/ATLAS não ter origem totalmente natural. Este cenário de baixa probabilidade inclui a hipótese de um evento ‘cisne negro’, semelhante a um Cavalo de Troia, em que um objeto tecnológico se faz passar por um cometa natural.
Escreveu Loeb.
A resposta da comunidade científica
São probabilidades elevadas, considerando que nunca foi observada inteligência extraterrestre, e que quase nenhum cientista leva a hipótese a sério. Tom Statler, cientista principal da NASA para corpos pequenos do Sistema Solar, afirmou ao The Guardian:
Parece um cometa. Faz o que os cometas fazem. Assemelha-se fortemente, em praticamente todos os aspetos, aos cometas que conhecemos.
Tem algumas propriedades interessantes, um pouco diferentes dos cometas do nosso sistema, mas comporta-se como um cometa. As provas apontam, de forma esmagadora, para que este objeto seja um corpo natural. É um cometa.
Reforçou o cientista da NASA.
O teste decisivo no periélio
Mesmo assim, a improvável hipótese da nave alienígena terá o seu teste-chave quando o 3I/ATLAS atingir o periélio, a 29 de outubro. Se houver alguma manobra, seria o momento.
Do ponto de vista da engenharia, o cenário mais plausível envolve uma nave que liberta mini-sondas capazes de realizar uma manobra de Oberth invertida para abrandar no periélio e intercetar a Terra, aproveitando a assistência gravitacional do Sol.
Sugeriu Loeb numa sessão de perguntas e respostas.
Segundo o professor, a alteração de momento angular necessária seria da ordem de ~(0,36 UA)*(68 km/s), com 0,36 UA a representar a variação da distância orbital necessária para alcançar a órbita terrestre, partindo do ponto mais próximo do Sol.
O combustível necessário dependeria da massa de cada mini-sonda, que, em teoria, poderia atingir a Terra alguns meses após o periélio.
Cenário mais provável: um cometa natural
Se o objeto realizasse uma manobra, ver-se-iam alterações inesperadas na trajetória e massa, caso ejetasse mini-sondas. Porém, o mais provável é que continue o seu percurso natural para fora do Sistema Solar, com pequenas variações provocadas pela intensa radiação solar no periélio.
No estado atual, o 3I/ATLAS parece ser um cometa natural. Mas a remota possibilidade de uma manobra de Oberth deve ser levada a sério como um evento ‘cisne negro’ de pequena probabilidade, devido às suas enormes implicações para a humanidade.
Escreveu Loeb num novo artigo.
Cientistas da NASA e do SETI continuam a rejeitar a hipótese alienígena, explicando o 3I/ATLAS como um cometa interestelar comum. Quando o objeto retomar a sua viagem para o espaço profundo após o periélio, a ideia da “nave alienígena” parecerá, muito provavelmente, ridícula.