A Gronelândia, a maior ilha da Terra, afirma-se hoje como um dos territórios mais estratégicos do planeta, concentrando recursos críticos para a transição energética e uma posição geopolítica chave no controlo do Estreito GIUK, eixo vital da defesa do Atlântico Norte. Afinal, o que procura Trump?
Ilha com as mais ricas reservas de recursos naturais do mundo
Não é por acaso que o Presidente dos EUA afronta a Dinamarca e a Europa com a pretensão de uma invasão pela força. O objetivo é claro: controlar uma ilha repleta de recursos naturais estratégicos.
Entre estes tesouros, contam-se matérias-primas críticas, como o lítio e os elementos de terras raras, essenciais para tecnologias verdes, mas cuja produção e sustentabilidade são altamente sensíveis.
Existem ainda outros minerais e metais valiosos, bem como um enorme volume de hidrocarbonetos, incluindo petróleo e gás natural.
Reservas estratégicas sob o gelo
Num artigo muito interessante, sobretudo do ponto de vista da geologia, são destacados três depósitos de terras raras da Gronelândia, localizados a grande profundidade sob o gelo, poderão estar entre os maiores do mundo em volume, com elevado potencial para o fabrico de baterias e componentes elétricos essenciais à transição energética global.
Segundo a informação, a escala do potencial em hidrocarbonetos e da riqueza mineral tem levado a uma investigação aprofundada por parte da Dinamarca e dos Estados Unidos, focada na viabilidade comercial e ambiental de novas atividades como a mineração.
De acordo com o US Geological Survey, o nordeste da Gronelândia em terra firme, incluindo zonas cobertas por gelo, poderá conter cerca de 31 mil milhões de barris equivalentes de hidrocarbonetos, um valor semelhante ao total das reservas comprovadas de petróleo bruto dos EUA.
Uma geologia excecional
A área livre de gelo da Gronelândia, corresponde a mais de cinco vezes o território português, representa menos de um quinto da superfície total da ilha, o que levanta a possibilidade de existirem enormes reservas ainda inexploradas sob o manto de gelo.
Esta concentração de recursos está ligada a uma história geológica extremamente variada ao longo de cerca de 4 mil milhões de anos. Aqui encontram-se algumas das rochas mais antigas da Terra, bem como blocos de ferro nativo de grandes dimensões.
Tubos de quimberlito com diamantes foram identificados nos anos 1970, mas continuam por explorar devido às enormes dificuldades logísticas.
Do ponto de vista geológico, é raro uma única região ter passado pelos três principais processos que geram recursos naturais: formação de montanhas, rifteamento da crosta e atividade vulcânica.
Minerais críticos e terras raras
Os períodos de construção montanhosa permitiram a deposição de ouro, rubis e grafite em falhas e fraturas. A grafite é crucial para baterias de lítio, mas continua subexplorada face a grandes produtores como a China e a Coreia do Sul.
Grande parte dos recursos resulta, contudo, de fases de rifteamento, incluindo a abertura do oceano Atlântico no início do Jurássico, há pouco mais de 200 milhões de anos.
Principais províncias geológicas da Gronelândia com tipos e idades das rochas. (Geophysical Research Letters, CC BY-NC-SA)
Bacias sedimentares como a de Jameson Land apresentam elevado potencial para petróleo e gás, embora os custos elevados tenham limitado a exploração comercial.
As terras raras, como nióbio, tântalo e itérbio, estão associadas a camadas de rochas ígneas, num contexto distinto, mas relacionado com a atividade vulcânica, menos intensa do que a da vizinha Islândia.
A Gronelândia poderá ainda conter, sob o gelo, quantidades de disprósio e neodímio suficientes para satisfazer mais de um quarto da procura global futura, quase 40 milhões de toneladas, elementos críticos para turbinas eólicas, motores elétricos e reatores nucleares.
Depósitos como Kvanefield poderão influenciar significativamente o mercado global.
Estima-se que 28.707 quilómetros quadrados da camada de gelo e glaciares da Gronelândia tenham derretido nas últimas três décadas, de acordo com uma importante análise de registos históricos de satélite.
Um dilema inevitável
A transição energética surgiu como resposta aos impactos dos combustíveis fósseis, mas as alterações climáticas estão a tornar acessíveis recursos até agora cobertos por quilómetros de gelo. Desde 1995, uma área equivalente à Albânia derreteu, tendência que deverá acelerar sem uma redução drástica das emissões.
Novas técnicas, como o radar de penetração no solo, permitem hoje mapear a rocha base sob até 2 km de gelo, mas a prospeção e, sobretudo, a extração sustentável continuam extremamente complexas.
Coloca-se assim um dilema: explorar intensamente estes recursos para apoiar a transição energética ou preservar uma das últimas paisagens praticamente intocadas do planeta, evitando impactos ambientais e o agravamento da subida do nível do mar.
Atualmente, toda a atividade mineira é fortemente regulada pelo governo da Gronelândia, com enquadramento legal em vigor desde os anos 1970. No entanto, a pressão para flexibilizar estas regras poderá aumentar, face ao crescente interesse estratégico internacional no futuro da ilha.