Pplware

Estas empresas querem que toda a gente tenha um robô humanoide em casa. Faz sentido?

A visão de um robô humanoide a tratar das tarefas domésticas está a deixar de ser ficção científica para se tornar no objetivo de várias empresas tecnológicas. A grande questão é se esta aposta ambiciosa faz realmente sentido para o nosso quotidiano.


Promessa de um futuro robotizado

Imagine um assistente que percorre a sua casa a arrumar, a encher a máquina de lavar loiça e até a tratar da roupa suja. Não, não é o enredo de um filme futurista, mas sim a promessa explícita no anúncio do Figure 03. E esta não é a única empresa a tentar convencer-nos de que, em breve, um robô doméstico será um elemento comum em todos os lares.

Existem figuras proeminentes no mundo da tecnologia convencidas de que, dentro de poucos anos, os robôs humanoides serão tão omnipresentes como os aspiradores robóticos são hoje. Elon Musk, por exemplo, previu que dentro de cinco a seis anos um robô pessoal será acessível à maioria das pessoas. Peter Diamandis, conhecido autor e futurologista, vai mais longe e antecipa a chegada dos primeiros modelos aos lares já em 2026.

Esta não é uma ambição exclusivamente ocidental. Na China, a robótica é uma prioridade nacional, embora com um foco inicial diferente. O governo chinês pretende que, até 2035, os robôs tenham revolucionado a indústria, mas o plano também contempla o desenvolvimento de robôs de companhia para o ambiente doméstico.

Resta saber se este futuro se irá concretizar ou se os robôs humanoides se tornarão apenas uma excentricidade para uma elite. Independentemente do resultado, estas são as empresas que estão a trabalhar para tornar essa visão uma realidade.

Figure AI

Sediada na Califórnia, a Figure AI é a empresa que tem demonstrado os avanços mais significativos na criação de um robô humanoide de uso geral. O seu modelo mais recente, o Figure 03, é apresentado como um mordomo robótico capaz de executar uma vasta gama de tarefas domésticas.

Se os modelos anteriores pareciam pouco mais do que demonstrações de tecnologia impressionantes, a empresa tem agora um plano concreto para a produção em massa, com uma meta inicial de 12.000 unidades por ano.

A Figure é, atualmente, a ponta de lança da robótica nos Estados Unidos, com uma avaliação de 39 mil milhões de dólares e um leque de investidores que inclui nomes como NVIDIA, Microsoft, Intel, Qualcomm e o próprio Jeff Bezos. Por enquanto, o robô não está disponível para venda e o seu preço permanece um mistério.

Tesla

A Tesla dispensa apresentações. O interesse da empresa em fabricar um robô humanoide foi revelado pela primeira vez em 2021. Em 2022, já possuía um protótipo funcional e, em 2023, apresentou o Optimus Gen 2.

Embora ainda não o tenhamos visto em ação a realizar tarefas domésticas complexas, uma demonstração da sua destreza mostrou-o a manusear um objeto tão frágil como um ovo. Segundo Musk, o Optimus terá um custo inferior ao de um automóvel (entre 20.000 e 30.000 dólares), mas a promessa continua por cumprir.

Musk mantém-se focado em criar o que chama de “um exército de robôs” e expressou recentemente a sua preocupação sobre quem irá controlar essa força, afirmando o seu desejo de manter uma forte influência sobre este hipotético exército.

1X Technologies

Apesar de ter a sua sede na Califórnia, a 1X Technologies é uma empresa de origem norueguesa. Desde o início, o seu objetivo tem sido o ambiente doméstico, apostando num robô concebido para tarefas de limpeza, organização e até para fazer recados.

Após a apresentação do modelo Neo Beta há um ano, a empresa revelou em fevereiro o Neo Gamma, o seu robô mais avançado. Este modelo é capaz de interagir com humanos, manipular diversos objetos e está revestido com materiais macios para maior segurança.

O plano da 1X passa por iniciar a implementação dos seus robôs em alguns lares já este ano, através de um projeto-piloto. A empresa estabeleceu a ambiciosa meta de fabricar 100.000 unidades em 2027 e “milhões mais em 2028”.

O preço é desconhecido, com a empresa a garantir apenas que “se espera que tenha um preço competitivo dentro do mercado de robótica doméstica”. Avaliada em 10 mil milhões de dólares, a 1X conta com investidores de peso como a OpenAI e a EQT.

Unitree Robotics

Com sede em Hangzhou, a Unitree Robotics é uma das empresas líderes em robótica na China. Tornou-se conhecida pelos seus robôs quadrúpedes, mas recentemente expandiu a sua atuação para os modelos humanoides.

O seu robô mais avançado, o Unitree H2, anunciado recentemente, é capaz de dançar e até de praticar kung-fu. No entanto, o seu foco parece menos direcionado para as tarefas domésticas do que outras propostas.

Na China, as demonstrações espetaculares de robôs a dançar ou a lutar tornaram-se populares, mas as aplicações práticas para estes modelos ainda não são claras. Contudo, a Unitree é a única empresa que já comercializa robôs humanoides com preços definidos: o Unitree G1 custa 16.000 dólares, enquanto o H1 atinge os 131.000 euros.

Deep Robotics

Também de origem chinesa, a Deep Robotics é outra das empresas de ponta no país em matéria de IA e robótica. Tal como a Unitree, começou com robôs quadrúpedes antes de se aventurar no campo dos humanoides.

A sua abordagem centra-se na criação de modelos robustos para setores como a indústria, a logística ou os serviços públicos. O seu mais recente modelo, o DR02, é resistente à água e ao pó, tendo sido projetado para operar em ambientes exteriores. No futuro, a empresa planeia expandir a sua atuação para outros domínios, incluindo o doméstico.

Mas faz sentido um robô com forma humana?

Em oposição a estes visionários tecnológicos, surgem vozes céticas como a de Rodney Brooks, cofundador da iRobot. Brooks considera que os robôs humanoides são uma fantasia e um formato pouco prático. Manter um robô deste tipo em pé exige um consumo energético elevado e representa um risco significativo em caso de queda.

Além disso, o especialista argumenta que replicar a destreza e a sensibilidade da mão humana é uma tarefa praticamente impossível com a tecnologia atual.

Ehsan Saffari, engenheiro de robótica, partilha desta opinião, afirmando que não faz sentido criar robôs à nossa imagem, pelo menos se o objetivo for a eficiência. Para ilustrar o seu ponto de vista, Saffari usa uma analogia poderosa:

Imagine que, em vez de construir uma máquina de lavar roupa, tivéssemos criado um robô humanoide para realizar a tarefa exatamente como nós a fazíamos: à mão.

Uma das justificações para dotar um robô de forma humana é a familiaridade, tornando a sua presença menos intimidante, quase como um colega de casa. Estudos indicam que tendemos a empatizar mais com robôs que possuem características antropomórficas, o que pode ser vantajoso para robôs de companhia, como os que a China planeia desenvolver.

No entanto, existe o risco do “uncanny valley”, um fenómeno em que robôs excessivamente realistas provocam desconforto e rejeição.

Finalmente, há a questão do preço. A maioria das empresas evita divulgar o custo final dos seus produtos, o que raramente é um bom sinal. Em última análise, a obsessão com os robôs humanoides parece ser mais influenciada pela cultura popular e por filmes de ficção científica do que por uma necessidade prática.

 

Leia também:

Exit mobile version