A ASML, “joia” da coroa tecnológica europeia, encontra-se numa posição paradoxal. Embora detenha um monopólio crucial na indústria de semicondutores, a sua estabilidade está a ser minada pela intensa rivalidade geopolítica entre os Estados Unidos e a China.
As sanções que vieram prejudicar a ASML
A ASML está bem, mas o seu potencial está a ser travado. A empresa neerlandesa é a mais importante fabricante de equipamento de fotolitografia do mundo, um estatuto que conquistou por ser a única capaz de fornecer as máquinas de litografia de ultravioleta extremo (EUV) indispensáveis para a produção de circuitos integrados de última geração.
No entanto, nos últimos anos, a empresa tem sido abalada por constantes sobressaltos geopolíticos.
Recentemente, as suas ações chegaram a desvalorizar 7,1% perante a ameaça de novas tarifas dos EUA à importação de equipamento de litografia, bem como pela incerteza que paira sobre o seu crescimento futuro.
As sanções impostas pelos Estados Unidos e pelos Países Baixos impedem a ASML de vender o seu equipamento de litografia mais avançado a clientes chineses, além de restringir a prestação de certos serviços de manutenção e pós-venda. Em 2022, as vendas da empresa na China totalizaram 2,9 mil milhões de euros, o que correspondia a 13,8% da sua faturação anual. Nessa altura, Taiwan representava um mercado mais significativo para a ASML.
Contudo, o cenário alterou-se drasticamente. Em 2024, a China consolidou-se como o maior mercado para a ASML, com vendas que ascenderam a 10,2 mil milhões de euros. Este crescimento deve-se ao facto de os fabricantes chineses de semicondutores terem adquirido um volume massivo de equipamento de fotolitografia mais antigo (não sancionado), destinado à produção de chips maduros.
O desabafo do CEO
Face a este ambiente imprevisível, Christophe Fouquet, CEO da ASML, tomou a decisão de retirar a previsão de crescimento que a administração tinha estabelecido para 2026. Esta medida, como seria de esperar, contribuiu para a queda das ações da empresa. A justificação de Fouquet é clara:
Continuamos a observar uma crescente incerteza impulsionada pelos acontecimentos macroeconómicos e geopolíticos. Apesar de nos continuarmos a preparar para crescer em 2026, ainda não o podemos confirmar.
Afirmou em comunicado.
A evolução das ações da empresa valida a sua prudência, tendo registado uma queda de 33% durante o último ano. Fouquet já tinha expressado a sua convicção de que os EUA continuariam a pressionar os seus parceiros para endurecerem as sanções contra a indústria chinesa.
No entanto, o CEO também defendeu que a Europa “deveria decidir por si mesma o que quer” e “não deveria deixar-se ditar por mais ninguém”, alertando que, caso contrário, empresas europeias líderes em tecnologias estratégicas poderiam ponderar a sua deslocalização.
ASML demonstra resiliência num mercado turbulento
Apesar dos desafios, a ASML demonstra uma notável resiliência. A sua estratégia de venda de tecnologia madura à China permitiu compensar as restrições sobre os equipamentos mais avançados. Ao mesmo tempo, os maiores fabricantes de chips do mundo – como a TSMC, Intel, Samsung, Micron Technology e SK Hynix – estão a construir novas fábricas ou a expandir as existentes.
Todas estas empresas têm algo em comum: são clientes da ASML e estão a adquirir em massa os seus sistemas EUV e DUV. Adicionalmente, espera-se que gigantes como a TSMC, a Intel e a Samsung comprem, nos próximos três anos, uma quantidade significativa das novas e mais potentes máquinas EUV de alta abertura (High-NA).
Fica claro que, mesmo na complexa conjuntura atual, é difícil derrubar a ASML. O seu negócio na China resiste, e a procura por parte do resto do mundo pela sua tecnologia de ponta assegura-lhe uma posição dominante, pelo menos até que a China consiga desenvolver as suas próprias alternativas viáveis.
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