A China pode ter dado um passo decisivo na nova corrida espacial. Dois satélites chineses realizaram uma operação inédita a mais de 36 mil quilómetros da Terra: um deles terá reabastecido o outro em pleno espaço, num feito que os Estados Unidos já consideram uma ameaça direta.
O “Wall-E” chinês
Em outubro de 2021, a China lançou o Shijian-21, um satélite multifunções destinado a testar tecnologias de mitigação de detritos espaciais em órbita geoestacionária, uma espécie de “aspirador” de lixo espacial. Em janeiro deste ano, foi lançado o misterioso SJ-25, com a missão de prolongar a vida útil de outros satélites.
Agora, ambos encontraram-se no espaço e causaram alarme. O SJ-21 foi lançado de forma relativamente discreta. A China tem demonstrado crescente interesse em ocupar posições no espaço.
A sua primeira missão foi acoplar-se ao satélite Beidou-2 G2, já inativo, e rebocá-lo para fora da órbita geoestacionária ativa, algo que conseguiu fazer com êxito.
Levaram-no até ao chamado “cemitério espacial”. Contudo, o Pentágono viu esta operação como uma ameaça direta.
O Beidou-2 G2 é um dos satélites geoestacionários (daí o “G”) da segunda geração do sistema de navegação chinês Beidou-2. Foi lançado como parte da expansão do sistema regional da China, que visava cobrir a zona Ásia-Pacífico entre 2007 e 2012. O G2 ficou em órbita geoestacionária, a cerca de 36.000 km da Terra, para fornecer serviços de posicionamento, navegação e sincronização de tempo. Com o tempo, ficou fora de serviço e tornou-se obsoleto, tornando-se um alvo ideal para testes de remoção de satélites inativos, como o reboque que o SJ-21 realizou, retirando-o da órbita ativa para a chamada “órbita cemitério”.
Nova Guerra Fria no espaço
Vivemos uma nova Guerra Fria, desta vez com foco no espaço. As autoridades militares dos EUA alertam que a ascensão da China neste domínio representa um risco para os interesses ocidentais.
O SJ-21 foi visto como perigoso, tanto pela precisão com que opera como por, alegadamente, estar equipado com braços robóticos, algo não confirmado por Pequim, que poderiam manipular satélites de outros países.
Além de um potencial ataque físico, os americanos receiam também capacidades de bloqueio de comunicações e de cegamento de sensores espaciais. Recentemente, os EUA revelaram até um manual de combate entre satélites.
A “gasolineira espacial”
Para alimentar a controvérsia, entra em cena o SJ-25: um satélite chinês criado para testar tecnologias de reabastecimento em órbita e prolongar o funcionamento de satélites geoestacionários.
Uma verdadeira estação de serviço no espaço, com capacidade para acoplar com precisão a outros satélites, como o SJ-21, e reabastecê-los.
Esta estratégia visa poupar dinheiro e reduzir o lixo espacial, prolongando a vida dos satélites existentes em vez de lançar novos.
Os EUA notaram a aproximação, posicionaram dois satélites espiões GSSAP para vigiar de perto os SJ-21 e SJ-25.
Contacto a 36.000 km
Segundo a Ars Technica, há poucos dias foi observado que os dois satélites se aproximaram a distâncias muito curtas e, a certa altura, a mais de 36.000 km da Terra, uniram-se.
Um timelapse mostra os dois satélites a fundirem-se numa luz brilhante e, depois, a separarem-se. Embora não haja confirmação oficial, os EUA estão a soar os alarmes.
EUA atentos ao movimento
Quando os EUA notaram a aproximação, posicionaram dois satélites espiões GSSAP para vigiar de perto os SJ-21 e SJ-25. Isto porque os americanos planeiam realizar o seu próprio reabastecimento de um satélite militar ainda este ano, no âmbito das chamadas “operações espaciais dinâmicas”.
Caso se confirme o sucesso da China, os chineses terão ultrapassado os americanos nesta corrida.
John Shaw, tenente-general reformado da Força Espacial dos EUA, afirmou que estas operações “eram uma necessidade operacional há alguns anos, mas agora tornaram-se algo muito mais importante, especialmente perante as atividades de potenciais adversários”.