A nova pirâmide dos alimentos que tem chamado atenção nos últimos dias é parte das Diretrizes Alimentares 2025-2030 dos Estados Unidos, lançadas oficialmente no início deste mês. Estas diretrizes representam uma revisão significativa da forma de orientar o que os norte-americanos devem comer, com impacto global indireto. Espreite as mudanças.
Sob o mote Eat Real Food, para o qual foi disponibilizado um website oficial, os Estados Unidos redesenharam a pirâmide dos alimentos com a qual as várias gerações foram crescendo e, através dela, aprendendo a comer.
Invertendo-se totalmente face à antecessora, a nova pirâmide coloca proteínas e gorduras saudáveis em posição central e proeminente, e grãos no fundo, com foco em escolher versões integrais e nutritivas, em vez de ter os carboidratos na base e as gorduras e doces no topo.
46 anos de conselhos
Durante 46 anos, o Governo dos Estados Unidos tem tentado dar conselhos sobre como comer melhor.
Em 1980, foram introduzidas as Diretrizes Alimentares para os Americanos, após o país reconhecer que os hábitos alimentares modernos estavam a contribuir para o aumento de doenças crónicas como doenças cardíacas, cancro, acidente vascular cerebral (ou AVC), hipertensão, diabetes e obesidade.
As primeiras diretrizes baseavam-se em princípios muito simples, focando-se “variedade”, em vez de na classificação de alimentos por grupos. Além disso, não existiam apoios visuais que ajudassem a planear a alimentação diária.
A recomendação principal era consumir uma grande variedade de alimentos nutritivos, como fruta, legumes, cereais integrais, laticínios, carne, ovos e leguminosas.
As diretrizes explicavam que o corpo necessita de cerca de 40 nutrientes diferentes para se manter saudável e que nenhum alimento, per si, fornece todos eles.
Primeira pirâmide alimentar
Doze anos depois, em 1992, os Estados Unidos lançaram a sua primeira pirâmide alimentar, oferecendo orientações mais específicas.
Os cereais, como pão, arroz, massa e cereais de pequeno-almoço, passaram a ser apresentados como a base da alimentação equilibrada, com uma recomendação de seis a 11 porções por dia.
Em segundo lugar surgiam a fruta e os legumes, com duas a três porções diárias. No topo, ficavam as proteínas de origem animal e vegetal, bem como os laticínios. As gorduras e o açúcar eram referidos apenas de forma marginal.
Na altura, especialistas em nutrição consideraram excessiva a recomendação de seis a 11 porções de cereais por dia, uma vez que isso poderia reduzir o espaço para outros nutrientes importantes.
Além disso, salientaram que não importa apenas o grupo alimentar, mas a qualidade dos alimentos. Cereais integrais são preferíveis aos refinados, e gorduras como azeite e frutos secos são mais saudáveis do que gorduras animais processadas.
O modelo MyPlate de Barack Obama
Em 2011, durante a primeira administração de Obama, foi introduzido o modelo MyPlate, com o objetivo de simplificar as recomendações nutricionais.
O prato era dividido em quatro partes muito genéricas: legumes, cereais, fruta e proteína, com um copo de laticínios ao lado. As porções de legumes e cereais eram ligeiramente maiores.
Este modelo foi, também, criticado: era demasiado simplista, não distinguia alimentos saudáveis de menos saudáveis, não indicava quantidades e não refletia a diversidade de padrões alimentares.
Nova pirâmide alimentar
Recentemente, a administração de Trump apresentou as novas Diretrizes Alimentares para os Americanos 2025-2030, um documento que orienta políticas alimentares em escolas e instituições públicas, além de servir como guia para o público em geral.
Conforme vimos no início do artigo, o principal lema desta edição é “comer comida de verdade”, incentivando alguns hábitos:
- Redução de alimentos ultraprocessados;
- Diminuição do consumo de açúcar adicionado;
- Preferência por alimentos integrais.
A nova pirâmide apresenta uma estrutura invertida, visualmente diferente daquela com a qual as últimas gerações cresceram.
Introducing: The New Pyramid pic.twitter.com/NR03y6bqos
— HHS (@HHSGov) January 7, 2026
Embora a mensagem de comer alimentos reais seja amplamente elogiada, o desenho da pirâmide tem gerado controvérsia.
Críticas e receios
Ainda que concorde com a premissa “comer comida de verdade”, o professor Joan Sabaté, especialista em nutrição, manifestou alguns receios, em declarações ao Business Insider, nomeadamente sobre:
- O risco de a nova pirâmide incentivar um consumo excessivo de carne vermelha, ao apresentá-la como elemento central de uma alimentação saudável.
- A pirâmide poder afastar o público do consenso científico, uma vez que não existe evidência científica nova que demonstre que dietas ricas em produtos de origem animal sejam superiores para a saúde ou para a prevenção de doenças.
- A potencial substituição de hidratos de carbono saudáveis por mais carne e laticínios, o que pode aumentar problemas de colesterol e sobrecarga renal.
- A mensagem visual poder levar a um desequilíbrio alimentar, com excesso de produtos de origem animal e menor diversidade nutricional.
Em Portugal, a Roda dos Alimentos é o guia para escolher e combinar os alimentos que devem fazer parte da nossa alimentação diária. Segundo a PNPAS, este guia circular é dividido em diferentes segmentos (os sete Grupos de alimentos), agrupando os alimentos com características semelhantes quanto à sua composição nutricional. As diferentes dimensões identificam os grupos que devem estar presentes em maior ou menor quantidade na nossa alimentação.
Que impacto terá esta mudança em Portugal?
A mudança da pirâmide alimentar nos Estados Unidos não tem impacto direto nas políticas alimentares da Europa ou, especificamente de Portugal. Contudo, exerce uma influência indireta relevante, sobretudo ao nível do debate público, da indústria alimentar e da comunicação em saúde.
- Os EUA continuam a ser uma referência mediática global, pelo que mudanças nas suas diretrizes alimentares ganham grande visibilidade internacional e influenciam discursos, media e redes sociais, podendo gerar confusão na Europa quando diferem das recomendações locais.
- As novas orientações impactam a indústria alimentar global, uma vez que empresas multinacionais ajustam produtos e estratégias de marketing.
- Mensagens visuais simplificadas podem ser replicadas fora do seu contexto, o que pode levar a interpretações erradas, como a ideia de que dietas ricas em carne são universalmente recomendadas.
Entretanto, na Europa, mantém-se a aposta em padrões como a dieta mediterrânica, baseada em alimentos de origem vegetal e consumo moderado de produtos animais.
Em Portugal, a Roda dos Alimentos continua alinhada com o consenso científico europeu, valorizando equilíbrio, variedade e qualidade alimentar.
Ainda que não nos impacte, a mudança norte-americana reforça a necessidade de os países europeus comunicarem melhor as suas próprias orientações alimentares, baseadas em evidência científica, saúde a longo prazo e sustentabilidade ambiental.