Durante décadas aprendemos que a Terra e os restantes planetas giram em torno do Sol. A explicação está correta para uma aula introdutória, mas a realidade é um pouco mais interessante. Sim, até o Sol gira sobre… um ponto!
Na verdade, todos os corpos do Sistema Solar orbitam um ponto comum, conhecido como baricentro. E, neste momento, esse ponto encontra-se fora da superfície solar.
O Sol não está imóvel no centro do Sistema Solar
Quando dois corpos interagem gravitacionalmente, nenhum permanece completamente parado. Ambos orbitam o centro de massa do conjunto. Esse ponto recebe o nome de baricentro. A sua posição depende sobretudo de dois fatores, a massa dos objetos e a distância entre eles.
Como o Sol concentra cerca de 99,86% da massa do Sistema Solar, o baricentro encontra-se frequentemente no seu interior. Contudo, “frequentemente” não significa “sempre”.
A posição dos planetas muda continuamente e, com ela, também se desloca o centro de massa do sistema. Segundo a NASA, o baricentro pode situar-se perto do centro do Sol ou ultrapassar completamente a sua superfície.
Isto faz com que a nossa estrela descreva uma espécie de pequeno “bamboleio” enquanto percorre a sua própria órbita em torno desse ponto invisível.
Júpiter é o principal responsável
Apesar de representar apenas uma pequena fração da massa total do Sistema Solar, Júpiter é suficientemente pesado para exercer uma influência considerável.
O gigante gasoso tem aproximadamente 318 vezes a massa da Terra. Além disso, encontra-se suficientemente afastado do Sol para deslocar de forma significativa o centro de massa partilhado pelos dois corpos. No sistema formado apenas pelo Sol e por Júpiter, esse centro situa-se ligeiramente para lá da superfície solar.
Neste momento (final de agosto de 2026), os planetas maiores e mais distantes estão, na sua maioria, agrupados num dos lados do Sol. É isso que faz com que o centro de massa comum do sistema solar, o baricentro, se desloque para o exterior do Sol. O baricentro deslocar-se-á para o interior do Sol no início de 2027. Imagem: InTheSky.org.
Quando Júpiter, Saturno, Urano e Neptuno ficam concentrados aproximadamente do mesmo lado do Sol, o efeito gravitacional combinado pode empurrar o baricentro de todo o Sistema Solar para o espaço.
É precisamente essa a configuração observada no final de agosto de 2026. De acordo com a EarthSky, o baricentro deverá regressar ao interior do Sol entre o final de janeiro e o início de fevereiro de 2027, à medida que Júpiter se afastar dos restantes planetas gigantes no céu.
Então a Terra não gira à volta da estrela?
Gira, mas, dito desta forma, é uma grande simplificação. Para a maioria das aplicações quotidianas, é perfeitamente correto afirmar que a Terra orbita o Sol. A diferença entre o centro da estrela e o baricentro é pequena quando comparada com os cerca de 150 milhões de quilómetros que separam os dois corpos.
Em termos físicos rigorosos, no entanto, a Terra, os outros planetas e o próprio Sol orbitam o centro de massa comum de todo o Sistema Solar.
Podemos imaginar duas pessoas sentadas num sobe-e-desce. Se uma delas for muito mais pesada, o ponto de equilíbrio ficará bastante mais próximo desse lado. Ainda assim, não estará necessariamente no centro exato da pessoa mais pesada. É aproximadamente isso que acontece entre uma estrela e os corpos que a acompanham.
Este “bamboleio” ajuda a encontrar outros mundos
O conceito não é apenas uma curiosidade sobre o nosso Sistema Solar. É também uma das ferramentas usadas para encontrar planetas em torno de outras estrelas.
Um planeta exerce uma pequena atração gravitacional sobre a sua estrela, obrigando-a a deslocar-se em redor do baricentro comum. Vista da Terra, a estrela parece avançar e recuar ligeiramente.
Os astrónomos conseguem medir esse movimento através do chamado método da velocidade radial. Quando a estrela se aproxima de nós, as ondas da sua luz ficam comprimidas e o seu espectro desloca-se para o azul. Quando se afasta, as ondas alongam-se e ocorre um desvio para o vermelho.
51 Pegasi b é um planeta extrassolar situado a aproximadamente 50 anos-luz da Terra na constelação de Pegasus.
É o mesmo princípio do efeito Doppler que altera o som de uma ambulância enquanto esta se aproxima e depois se afasta. A diferença é que, no espaço, os cientistas analisam mudanças extremamente pequenas na luz de estrelas situadas a muitos anos-luz.
Esta técnica favorece a descoberta de planetas grandes e próximos da respetiva estrela, porque produzem um movimento mais intenso e fácil de medir. Foi assim que o “Júpiter quente” 51 Pegasi b, o primeiro exoplaneta confirmado em torno de uma estrela semelhante ao Sol, denunciou a sua presença em 1995.
A NASA explica que o planeta completa uma órbita em apenas quatro dias e exerce uma atração suficientemente forte para tornar o movimento da estrela detetável.
O centro do Sistema Solar está sempre a mudar
Não existe, portanto, um ponto fixo e permanente em torno do qual tudo gira. O baricentro desloca-se conforme os planetas avançam nas suas órbitas e alteram a distribuição de massa do Sistema Solar.
Assim, dizer que os planetas orbitam o Sol continua a ser uma explicação útil. Mas, se quisermos ser cientificamente rigorosos, teremos de acrescentar um pequeno detalhe: o Sol também participa nesta dança gravitacional.
Afinal, os planetas não giram exatamente à volta do Sol pic.twitter.com/vAGxK64LcA
— Pplware (@pplware) August 31, 2026