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Espetacular aurora boreal é, na verdade, uma tempestade geomagnética severa

Na noite de 18 de janeiro de 2026, o Sol libertou uma poderosa erupção solar X1.9. Esta intensa explosão de energia lançou uma rápida nuvem de material solar e campos magnéticos, uma ejeção de massa coronal, em direção à Terra.


Esta tempestade, quando atingiu o nosso planeta, na noite de 19 de janeiro, produziu uma rara tempestade geomagnética G4, classificada como severa.

No entanto, apesar de uma tempestade severa ter potencial para gerar belas auroras em latitudes médias, os efeitos reais deste evento foram surpreendentemente limitados. Porquê? Devido à configuração magnética da tempestade.

A disposição do campo magnético da ejeção de massa coronal limitou a quantidade de energia que efetivamente chegou à atmosfera terrestre, determinando que regiões viram auroras e quais não.

A NOAA informou que, na madrugada de terça-feira, dia 20, a Terra voltou a ser atingida por uma tempestade geomagnética severa de nível G4, acompanhada por uma tempestade de radiação solar S4, com riscos para voos polares, satélites e astronautas, sendo o evento associado, segundo a NASA, a uma erupção solar de classe X e a uma CME halo rápida ocorrida a 18 de janeiro.

Tempestade solar severa começou com o impacto da CME

A ejeção de massa coronal atingiu a magnetosfera da Terra por volta das 18:38 UTC, a 19 de janeiro, chegando com um choque abrupto que perturbou imediatamente o campo magnético terrestre.

Para compreender o que aconteceu a seguir, é necessário perceber o que é o Bz. O Bz descreve se o campo magnético do Sol está orientado para norte ou para sul.

Este campo magnético é transportado para o sistema solar através do vento solar. Quando o Bz está orientado para sul, é muito mais fácil para esse vento solar penetrar na magnetosfera da Terra, a bolha magnética que envolve o nosso planeta.

O Bz representa a componente norte–sul do campo magnético do vento solar. Quando é positivo, a energia solar tem dificuldade em entrar na magnetosfera terrestre, reduzindo a actividade geomagnética. Quando é negativo, o campo solar fica oposto ao da Terra, facilitando a entrada de energia, intensificando tempestades geomagnéticas e aumentando a probabilidade de auroras e impactos em satélites e comunicações.

Durante a fase inicial de impacto da ejeção, o Bz desceu brevemente de forma acentuada para sul. Isso permitiu que a energia do vento solar fluísse de forma eficiente para o campo magnético terrestre.

Esta interação de curta duração levou rapidamente a níveis de tempestade geomagnética G4, com o índice Kp, outra medida da perturbação magnética da Terra, a ultrapassar o valor 8.

A Escala Kp Explicada

Kp 0–1 — Muito Calmo: em Kp 0–1, a actividade geomagnética é extremamente baixa. A aurora é geralmente apenas visível muito a norte e, mesmo assim, apenas sob condições perfeitamente limpas e escuras. Este nível raramente produz exibições fortes.

Kp 2 — Baixo: baixa actividade auroral. Algumas auroras fracas podem surgir no norte da Noruega, mas as exibições são tipicamente ténues e de movimento lento.

Kp 3 — Moderado: actividade moderada. A aurora é possível no norte da Noruega, com hipótese de arcos visíveis e movimento lento sob céus limpos.

Kp 4 — Bom: boas condições de aurora na Noruega. Exibições claras e activas tornam-se prováveis, especialmente nas regiões do norte.

Kp 5 — Muito Bom: um Kp de 5 indica uma tempestade geomagnética menor. A aurora pode ser visível em grande parte da Noruega, incluindo mais a sul do que o habitual.

Kp 6 — Forte: forte actividade auroral em toda a Escandinávia. Exibições brilhantes e dinâmicas são prováveis, com movimento rápido e visibilidade generalizada.

Kp 7 — Extremo: exibições aurorais poderosas são prováveis. As Luzes do Norte podem ser visíveis na maior parte da Escandinávia e potencialmente mais a sul.

Kp 8 — Excepcional: condições excepcionais. A aurora pode atingir bem além do norte da Europa e torna-se visível muito a sul durante tempestades geomagnéticas severas.

Kp 9 — Raro: condições raras e extremas de tempestade geomagnética. As auroras podem estender-se por toda a Europa e profundamente para latitudes mais baixas. Estes eventos ocorrem apenas algumas vezes por ciclo solar.

Mudança brusca no comportamento da tempestade

Pouco depois do impacto inicial, o carácter da tempestade geomagnética severa mudou de forma dramática. À medida que a Terra avançava para o interior do núcleo da ejeção de massa coronal, o Bz, ou seja, a orientação do campo magnético do Sol, passou a estar fortemente orientado para norte.

Esta orientação sustentada para norte limitou de forma significativa a transferência de energia para a magnetosfera da Terra. Foi isso que restringiu a ocorrência de auroras, apesar da força global da tempestade.

Porque as classificações das tempestades geomagnéticas podem ser enganadoras

As condições voltaram a mudar para sul por volta das 05:14 UTC de 20 de janeiro, mas a inversão foi moderada e de curta duração. Embora tenha permitido alguma resposta geomagnética adicional, não foi suficiente para impulsionar auroras generalizadas para latitudes médias ou baixas.

Como resultado, a atividade auroral manteve-se sobretudo confinada a latitudes mais elevadas, mesmo que a classificação da tempestade sugerisse um impacto muito mais amplo.

Esta tempestade solar severa ilustra claramente porque os valores de Kp e as classificações da NOAA, por si só, não descrevem totalmente a visibilidade das auroras nem os efeitos reais no terreno.

Imagem do Sol a libertar uma erupção solar X1.9. No dia 18 de janeiro, o Sol emitiu uma forte erupção solar classificada como X1.9, atingindo seu pico às 18h09 em (Portugal continental). O fenómeno foi registrado pelo Observatório de Dinâmica Solar da NASA.

Tempestade geomagnética severa coincidiu com evento intenso de radiação

A acrescentar complexidade ao cenário da meteorologia espacial, a mesma erupção X1.9 desencadeou também uma tempestade de radiação solar que atingiu o nível S4, considerado severo, tornando-se o maior evento deste tipo em mais de 20 anos.

Estas tempestades ocorrem quando a atividade magnética acelera partículas carregadas na atmosfera solar até velocidades muito elevadas.

Após percorrerem a distância até à Terra em apenas algumas dezenas de minutos, essas partículas precipitam-se nas regiões polares. Isto pode expor astronautas e pessoas em aeronaves que voam em latitudes elevadas a níveis acrescidos de radiação.

Ainda não acabou

Em termos numéricos, tratou-se claramente de uma tempestade geomagnética severa. Contudo, na prática, foi um evento seletivo e magneticamente condicionado, impulsionado por uma ejeção de massa coronal extremamente forte.

É um lembrete de que os impactos da meteorologia espacial dependem da geometria magnética e não apenas da intensidade bruta.

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