Já vimos, por aqui, muita coisa, mas a criatividade de engenheiros curiosos não para de surpreender. Uma startup promete aumentar em até 30% a produção anual de energia solar, enviando frotas de drones autónomos para dentro das nuvens.
Os painéis solares são uma das tecnologias mais limpas que existem para produzir energia, mas têm um inimigo que ninguém consegue controlar: o tempo. Quando o céu fica nublado, não há software, bateria ou algoritmo que resolva a queda na produção.
Por isso, a Meteoric Technologies, fundada por dois engenheiros formados na Universidade de Cambridge e apoiada pela Y Combinator, está a desenvolver uma solução.
Segundo a empresa, nuvens baixas e médias (entre cerca de um e cinco quilómetros de altitude) podem bloquear entre 60% a 80% da luz solar que chegaria aos painéis, com números que vão variando consoante a comunicação da empresa.
Drones que entram nas nuvens
A proposta da Meteoric passa por enviar drones autónomos diretamente para dentro das nuvens que pairam sobre as centrais solares. Estes dispositivos alterariam as gotículas de água que compõem essas nuvens, reduzindo a sua refletividade, sem recorrer a químicos.
Segundo o diretor-executivo da empresa, Mete Karslioglu, esse processo devolveria uma quantidade mensurável de luz solar aos painéis.
De acordo com o modelo interno da empresa, isto poderia traduzir-se num aumento de 10% a 30% na geração anual de energia em ativos solares já existentes, sem necessidade de construir qualquer infraestrutura nova.
Em termos financeiros, a Meteoric estima ganhos entre 5000 e 28.000 dólares por megawatt.
Outro argumento de peso é o custo. Enquanto operações tradicionais com aviões para modificação atmosférica custam normalmente mais de 2000 dólares por hora, a empresa promete que os seus drones elétricos operem por apenas 30 a 60 dólares/hora.
Ambição (ainda) tem muito que provar
Apesar da ideia ambiciosa, a forma exata como os drones dispersam as nuvens ainda não foi detalhada publicamente.
O único resultado concreto divulgado até agora é um teste numa cloud chamber (em português, uma câmara de nuvem artificial em laboratório), onde o protótipo da empresa terá conseguido dissipar 13% de uma nuvem simulada.
Não foram divulgados dados sobre o tamanho da câmara, o método de medição, o número de testes repetidos, nem qualquer revisão científica independente.
Ou seja, os números de 10% a 30% de aumento de produção vêm de um modelo teórico, não de medições reais numa central solar em funcionamento.
Atualmente, a dispersão de nuvens é usada para limpar nevoeiro em aeroportos, com gelo seco largado por aviões ou propano líquido pulverizado a partir do solo, no caso de nevoeiro sobrearrefecido.
Segundo uma declaração da American Meteorological Society sobre modificação climática planeada, estas técnicas costumam ter efeitos claros em situações simples, como dispersar nevoeiro sobrearrefecido, mas tornam-se muito mais difíceis de comprovar em sistemas de nuvens mais complexos.
O objetivo mais ambicioso e mais polémico
Além de aumentar a produção solar, a ambição de longo prazo da Meteoric passa por reduzir a intensidade de tempestades severas e furacões.
Este objetivo tem gerado bastante ceticismo na comunidade científica, com a Organização Meteorológica Mundial a sustentar que não existe evidência amplamente aceite de que ciclones tropicais possam ser modificados.
Além disso, a organização alerta que tecnologias que prometem efeitos dramáticos ou à escala massiva geralmente carecem de base científica sólida.
A ideia da Meteoric é interessante, propondo drones baratos e autónomos para abrir caminho à luz solar. Contudo, para já, o que existe é um modelo matemático promissor e um único teste de laboratório com poucos dados divulgados.