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Novo estudo do Reino Unido prova que queimar cartão pode ajudar a gerar eletricidade

O aumento exponencial do comércio eletrónico transformou as caixas de cartão numa presença constante em várias casas, com destino traçado para o ecoponto azul. No entanto, este resíduo do quotidiano poderá ter uma segunda vida inesperada: servir de combustível para a produção de eletricidade em larga escala.


De resíduo a recurso energético

O problema da reciclagem de cartão é uma realidade global, mas no Reino Unido, uma equipa de engenheiros da Universidade de Nottingham poderá ter encontrado uma solução inovadora. Pela primeira vez, demonstraram que o cartão usado pode ser aproveitado como uma fonte eficaz de biomassa em centrais elétricas.

A investigação, cujos resultados foram publicados na revista Biomass and Bioenergy, coloca o cartão em comparação direta com o eucalipto, uma referência comum na biomassa industrial.

A abordagem dos engenheiros foi meticulosa e foi muito além de simplesmente queimar o material. O cartão foi triturado, a sua morfologia analisada, a sua composição química decomposta e o seu comportamento sob altas temperaturas foi estudado em detalhe.

A equipa desenvolveu até um método próprio, baseado em análises termogravimétricas, para quantificar com precisão o carbonato de cálcio presente em cada amostra. Este composto, comum no cartão impresso, confere rigidez, mas também influencia a sua combustão. Graças a este procedimento, é possível prever que tipo de cartão terá melhor desempenho numa caldeira industrial e qual poderá causar problemas.

A ciência por detrás da combustão

Para validar as suas teorias, o estudo testou a combustão do cartão em dois sistemas que simulam as condições de uma central elétrica real:

Adicionalmente, os cientistas caracterizaram o tamanho e a forma de mais de um milhão de partículas por amostra. Observaram que, durante a moagem, o cartão tende a formar “agregados esponjosos”, um desafio para o manuseamento industrial. Esta análise detalhada permite prever a eficiência da combustão e desenvolver estratégias para integrar o cartão no fluxo de combustível das centrais.

O resultado final foi bastante positivo: embora o cartão possua menos carbono (38%) e um poder calorífico inferior (15,9-16,5 MJ/kg) em comparação com o eucalipto (46,7% e 21 MJ/kg, respetivamente), os seus chars mais reativos aceleram a combustão. Contudo, contém um teor de cinza muito superior (8,9-10,6%, face a 0,6% do eucalipto), um fator crítico a considerar nas caldeiras.

Os desafios para a implementação em larga escala

Apesar do potencial técnico ser evidente, o estudo sublinha que o cartão não está pronto para ser introduzido de imediato nas caldeiras industriais. Existem três desafios fundamentais que precisam de ser superados:

  1. Processamento e manuseamento: ao ser moído, o cartão não se comporta como a madeira. Forma aglomerados esponjosos de baixa densidade que dificultam o transporte interno, complicam a alimentação contínua das caldeiras e aumentam o risco de entupimentos. Será necessário adaptar os sistemas de moagem e alimentação para assegurar um fluxo estável.
  2. O comportamento do cálcio: o elevado teor de CaCO3, especialmente em cartão impresso, pode ter efeitos variáveis. Em certas condições, aumenta a temperatura de fusão das cinzas (o que é positivo), mas noutras pode promover a formação de escórias ou alterar a qualidade do combustível. É crucial analisar o seu comportamento consoante a tecnologia da central.
  3. Validação industrial: os ensaios laboratoriais são promissores, mas falta o passo decisivo: testar o cartão em condições de operação reais. A indústria terá de realizar testes em diferentes tipos de caldeiras, avaliar as emissões, estudar a acumulação de cinzas e verificar a sua compatibilidade com outras fontes de biomassa.

O cartão protege as nossas encomendas, desde livros a eletrodomésticos, e é um material que reciclamos quase por instinto. Esta investigação sugere que este resíduo tão comum pode vir a desempenhar um papel na transição energética, ajudando a diversificar os combustíveis e a aproveitar um recurso abundante e local.

 

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