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Wikipédia quis seguir a moda da IA. Os próprios editores foram os primeiros a protestar

A Fundação Wikimedia, organização por detrás da Wikipédia, viu-se forçada a suspender uma nova funcionalidade baseada em inteligência artificial (IA). Esta decisão surgiu após uma onda de críticas por parte da sua própria comunidade de editores voluntários, que consideraram a iniciativa uma ameaça aos princípios fundamentais da plataforma.


Discórdia total entre a Wikipédia e os seus editores

O projeto, denominado Simple Article Summaries, tinha como objetivo utilizar a IA para gerar resumos de artigos longos e complexos. Estes sumários, criados a partir do modelo Aya da empresa Cohere, seriam apresentados no topo das páginas com um aviso de que o conteúdo “não foi verificado” por humanos. A intenção era, supostamente, tornar a informação mais acessível.

Contudo, a reação da comunidade foi imediata e negativa. Nos fóruns de discussão internos, os editores, que dedicam o seu tempo a curar e verificar o conteúdo da plataforma, não pouparam nas críticas. Comentários como “uma péssima ideia”, “a minha mais forte oposição” e outras expressões de desdém demonstraram a profunda insatisfação com a introdução de conteúdo automatizado.

Este episódio sublinha a posição única da Wikipédia na internet atual. Numa era em que a Google integra IA diretamente no seu motor de pesquisa e a OpenAI ambiciona redefinir o acesso à informação, a Wikipédia permanece como um dos últimos grandes guerreiros de conhecimento protegido por seres humanos. A qualidade e a confiança da enciclopédia derivam precisamente do seu rigoroso processo de edição e verificação manual.

Os editores da plataforma filtram ativamente contribuições geradas por IA, vistas como “slop” – um termo para designar lixo digital ou conteúdo de baixa qualidade. Esta vigilância constante transformou a Wikipédia num refúgio de informação confiável, onde os utilizadores sabem que não encontrarão o ruído automatizado que degrada outras plataformas.

O dilema: evoluir ou preservar a identidade?

O protesto dos editores reflete um receio muito mais profundo do que a simples rejeição de uma nova tecnologia. De um lado, existe a necessidade de a Wikipédia evoluir para continuar a ser relevante e atrair novas gerações de utilizadores. Do outro, há o medo de que a automação possa destruir o ecossistema colaborativo que foi construído ao longo de décadas.

Nenhuma outra comunidade dominou a colaboração a um ponto tão maravilhoso, e isto deitaria tudo por terra.

Resumiu um editor, citado pelo 404 Media. A tensão reside no equilíbrio entre inovação e a preservação da alma do projeto.

Apesar de ter pausado a experiência, a Fundação Wikimedia não descartou completamente o uso de IA. A organização prometeu que qualquer implementação futura exigirá uma “participação ativa dos editores” e “fluxos de trabalho com moderação humana”.

Para muitos, isto soa a uma pausa tática, em vez de um abandono definitivo da tecnologia. Curiosamente, a ideia para esta funcionalidade surgiu de debates na Wikimania de 2024, onde alguns membros da comunidade viram potencial na IA.

A grande questão que permanece é se a Wikipédia conseguirá manter a sua enorme relevância histórica – já abalada pelo surgimento de ferramentas como o ChatGPT – sem sacrificar o critério humano que a distingue.

 

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