Aparentemente, nenhuma empresa, serviço ou produto escapa ao crivo dos consumidores, que podem escolher ser implacáveis. Resultado da insatisfação em torno da OpenAI, um novo movimento, de nome QuitGPT, está a incentivar os utilizadores do chatbot a cancelarem as suas subscrições.
Apesar da muita água que corre pelas redes sociais, há iniciativas que têm a capacidade de agitar verdadeiramente governos e empresas, motivando ações concretas.
Uma das mais recentes investidas é um movimento crescente de ativistas e utilizadores descontentes que ameaça os quase 900 milhões de utilizadores ativos semanais (em dezembro de 2025, segundo o The Information) do ChatGPT.
Afinal, pela Internet, os utilizadores estão a cancelar e a incentivar o cancelamento das subscrições do chatbot.
Conforme esclarecido pelo MIT Technology Review, dezenas de adolescentes e jovens adultos de esquerda, espalhados pelos Estados Unidos, juntaram-se, no final de janeiro, para organizar o chamado QuitGPT.
Desde ativistas pró-democracia e ativistas climáticos até profissionais de tecnologia e autodenominados “ciberlibertários”.
Só nas últimas semanas, muitos utilizadores inundaram o Reddit com relatos de estarem a deixar o chatbot: enquanto muitos lamentam o desempenho do GPT 5.2, o modelo mais recente, outros partilham piadas sobre a sua postura bajuladora.
Outros, também, protestam contra aquilo que consideram ser um aprofundamento da relação entre a OpenAI e a administração de Donald Trump.
Trump é um dos alvos do QuitGPT
De acordo com a mesma publicação, esses adolescentes e jovens adultos terão sido inspirados por um vídeo publicado por Scott Galloway, professor de marketing na New York University e apresentador do The Prof G Pod.
No vídeo, defendeu que a melhor forma de travar o Serviço de Imigração e Fiscalização Aduaneira dos Estados Unidos (ICE) seria persuadir as pessoas a cancelarem as suas subscrições do ChatGPT.
Na sua perspetiva, enfraquecer a base de subscritores da OpenAI poderia ter repercussões no mercado bolsista e ameaçar uma desaceleração económica. Isto, por sua vez, pressionaria Trump.
Se criarmos barulho suficiente para a OpenAI, todas as empresas do setor da [Inteligência Artificial – IA] vão ter de pensar se conseguem continuar a permitir Trump, o ICE e o autoritarismo.
Disse um organizador do QuitGPT, que pediu anonimato por recear retaliação por parte da OpenAI, citando recentes intimações da empresa contra defensores em organizações sem fins lucrativos.
Ainda que a empresa de IA seja um alvo inicial óbvio da iniciativa, o organizador do QuitGPT assegurou que “isto é muito mais do que apenas a OpenAI”, procurando atingir especialmente Donald Trump.
Segundo Simon Rosenblum Larson, organizador sindical em Madison, no Wisconsin, que organiza movimentos para regular o desenvolvimento de centros de dados, “o objetivo aqui é retirar os pilares de apoio da administração de Trump”, pois “eles dependem de muitos destes multimilionários da tecnologia para apoio e recursos”.
O website do QuitGPT aponta para novos relatórios de financiamento de campanha que mostram que o presidente da OpenAI, Greg Brockman, e a sua esposa doaram, cada um, 12,5 milhões de dólares à MAGA Inc., representando quase um quarto dos cerca de 102 milhões de dólares angariados na segunda metade de 2025.
Além disso, a informação de que o ICE utiliza uma ferramenta de triagem de currículos alimentada pelo ChatGPT 4 provém de um inventário de IA publicado pelo Department of Homeland Security, em janeiro.
Impacto real nos números da OpenAI não é conhecido
Embora não seja claro quantos utilizadores aderiram ao boicote, o QuitGPT está a ganhar atenção.
Uma publicação recente da iniciativa no Instagram, por exemplo, reúne já 1,7 milhões de gostos.
Além disso, o website da iniciativa, que pergunta às pessoas se cancelaram as suas subscrições, se se comprometem a deixar de usar o ChatGPT e se irão partilhar a campanha nas redes sociais, diz que 700 mil pessoas já terão aderido ao boicote.
Ainda assim, segundo Dana Fisher, socióloga na American University, uma vaga de subscrições canceladas raramente altera o comportamento de uma empresa, a menos que atinja uma massa crítica.
O ponto onde pode existir pressão eficaz é no comportamento do consumidor, se pessoas suficientes usarem efetivamente o seu dinheiro para expressar as suas opiniões políticas.
Disse Fisher, recordando que apesar de haver “muitos exemplos de campanhas como esta que falharam”, “temos visto bastante eficácia”.
A MIT Technology Review terá contactado três funcionários da OpenAI, que afirmaram não conhecer a campanha QuitGPT.