Durante décadas, a ficção científica apresentou-nos os exércitos robóticos como uma distopia cinematográfica distante; contudo, a realidade tecnológica atual está a transformar essas visões em planos de negócio concretos. A startup Foundation está a liderar esta transição, prometendo implementar dezenas de milhares de robôs tanto no setor industrial como no campo de batalha.
Do chão de fábrica à linha da frente
A maioria das empresas de robótica humanoide foca-se numa narrativa de auxílio e produtividade, visando colmatar a escassez de mão de obra em armazéns e hospitais. A Foundation, uma promissora tecnológica de Silicon Valley, partilha estes objetivos, mas rompe com o tabu militar: o seu robô, batizado de Phantom, foi concebido para combater.
Com o exército dos Estados Unidos como cliente prioritário, o fundador Sankaet Pathak planeia fabricar 50 mil unidades até ao final de 2027, posicionando-as como ferramentas operativas para a economia civil e para cenários de guerra.
A velocidade de desenvolvimento da Foundation tem surpreendido até os especialistas do setor. Em apenas 18 meses de existência, o Phantom já executa tarefas de produção reais em instalações de parceiros industriais. Este ritmo acelerado deve-se à aquisição estratégica de tecnologias de inteligência artificial (IA) e à contratação de talentos de gigantes como a Tesla, a SpaceX e a Boston Dynamics.
O plano de expansão é extremamente ambicioso: produzir 40 robôs este ano, escalar para 10 mil no próximo e atingir os 40 mil em 2027. Pathak reconhece a agressividade das metas, mas confia numa filosofia de automação gradual para as alcançar.
Entre os “músculos” avançados e a realidade do software destes robôs
Ao contrário de outras fabricantes, a Foundation não pretende vender as suas unidades, mas sim alugá-las. A estratégia foca-se em poucos contratos de grande dimensão que garantam receitas recorrentes substanciais. Estima-se que o aluguer de 50 mil robôs possa gerar cerca de 5 mil milhões de dólares anuais, com um custo aproximado de 100 mil dólares por unidade por ano.
Embora o valor pareça elevado, o argumento industrial é forte: um humanoide pode operar quase ininterruptamente, substituindo vários turnos humanos e gerando uma poupança anual significativa, desde que a sua fiabilidade seja comprovada em ambientes complexos.
O Phantom destaca-se pelos seus atuadores eficientes, descritos como “músculos” que permitem operações prolongadas sem sobreaquecimento, garantindo a segurança no convívio com seres humanos.
Todavia, o setor enfrenta um desafio persistente: ainda nenhum fabricante conseguiu um desempenho humanoide plenamente equivalente ao humano em tarefas de alta versatilidade. Muitos investidores mantêm-se cautelosos, prevendo que serão necessários mais alguns anos para que tanto o hardware como o software atinjam a maturidade necessária para uma implementação em massa sem falhas.
O dilema ético dos soldados robô
É no domínio militar que a Foundation gera maior controvérsia. Pathak defende que um humanoide armado deve ser o primeiro a enfrentar situações de alto risco, servindo para explorar edifícios, transportar munições ou entrar em zonas onde a presença humana seria demasiado perigosa.
Embora robôs terrestres já sejam utilizados em conflitos atuais, como na Ucrânia, a forma humanoide e a capacidade letal elevam a discussão para outro patamar. A empresa sustenta que estes sistemas podem tornar a guerra mais precisa e menos brutal, funcionando como um mecanismo de dissuasão capaz de evitar conflitos antes mesmo de estes começarem.
A outra face da moeda é, no entanto, preocupante. A redução do custo político e humano da guerra pode tornar o recurso à força mais tentador para as potências mundiais. Se o limiar de sacrifício desce, a probabilidade de intervenções militares pode aumentar significativamente.
Num cenário onde os Estados Unidos, a China e a Rússia aceleram o desenvolvimento de sistemas autónomos, o debate ético sobre a proximidade física e a capacidade de decisão destes robôs torna-se urgente. A guerra automatizada não é um conceito novo, mas o nível de sofisticação prometido pela Foundation aproxima-nos de um futuro que, até agora, apenas existia nos ecrãs de cinema.
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