Um grupo de cientistas chineses lançou recentemente um relatório onde descreve a indústria nacional de semicondutores como “pequena, dispersa e fraca”. Para estes peritos, a ausência de uma empresa equivalente à neerlandesa ASML é o principal entrave, embora defendam que replicar esse sucesso não é uma tarefa impossível.
O peso das autoridades chinesas no diagnóstico do setor
O estudo não é assinado por meros observadores, mas sim por figuras de peso como Wang Yangyuan, cofundador da SMIC, e Chen Nanxiang, executivo da fabricante de memórias YMTC. A publicação na revista Science and Technology Review confere uma relevância ao documento, permitindo compreender a visão das elites tecnológicas chinesas sobre o atual estado de dependência externa.
O relatório admite que as sanções impostas pelos Estados Unidos têm surtido efeito em três áreas vitais:
- Na automação de design eletrónico (EDA);
- Na produção de bolachas de silício;
- E no fabrico de equipamentos de litografia de ultravioleta extremo (EUV).
Atualmente, este último segmento é dominado de forma absoluta pela ASML, uma barreira que a China ainda não conseguiu transpor, apesar dos elevados investimentos realizados.
Uma fragmentação que limita a competitividade
A análise detalha um cenário preocupante de fragmentação no mercado chinês. Embora existam 3626 empresas de design de circuitos integrados no país, o seu volume de negócios conjunto fixou-se nos 646.000 milhões de yuans (cerca de 78.000 milhões de euros). Este valor é revelador da escala do problema: a faturação somada de todas estas empresas chinesas é inferior à receita gerada apenas pela NVIDIA.
Nem todos os indicadores são negativos. No que toca aos processadores para telemóveis, empresas como a HiSilicon e a Unisoc alcançaram a vanguarda global, detendo quotas de mercado significativas na China.
Da mesma forma, o país já resolveu a dependência em tecnologias de fabrico “maduras”, como os nós de 28 nm ou superiores. Atualmente, a China é responsável por 33% da produção mundial neste segmento, operando sem as limitações impostas pelas restrições externas.
Vulnerabilidade da China perante a importação de componentes
Contudo, a China permanece como o maior importador mundial de circuitos integrados. Em 2024, o país investiu 385.790 milhões de dólares nestes componentes, um valor que superou inclusive as importações de petróleo. A dependência é particularmente crítica no setor automóvel, onde importa 95% dos chips, e nas memórias, onde a taxa de importação atinge os 90%.
O documento propõe que a China encare a ASML não apenas como um rival, mas como um modelo de soberania tecnológica a seguir. A empresa neerlandesa é descrita como um “simples integrador” que coordena mais de 5000 fornecedores para montar os 10.000 componentes de uma máquina EUV. A sugestão dos especialistas é a criação de uma estrutura nacional que unifique os progressos de diversas empresas chinesas sob uma única égide.
Este esforço de integração nacional é visto como a prioridade para o 15.º plano quinquenal, que termina em 2030. Para além do apoio financeiro, o relatório sublinha a necessidade de captar talento humano qualificado.
Entre as soluções mencionadas está a tecnologia Flip-FET (FFET), desenvolvida pela Universidade de Pequim, que poderá permitir a produção de chips de 3 nm ou 2 nm sem depender obrigatoriamente das máquinas EUV, embora a sua viabilidade comercial ainda careça de confirmação.
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