A medicina moderna está a transformar algo que todos consideramos banal e pouco nobre num recurso clínico de alto valor: as fezes. À medida que a ciência descodifica o papel do microbioma intestinal na saúde, começam a surgir bancos de fezes que recolhem, processam e utilizam este material em transplantes e em investigação. Portanto, já há quem seja “dador” de cocó!
As fezes são armazenadas e servem para salvar vidas. Isto porque, do outro lado, estão doentes com infeções recorrentes e outras patologias graves, para quem um transplante de microbiota fecal pode significar uma melhoria dramática da qualidade de vida.
O texto que se segue explica como este novo “ouro castanho” está a ser usado e por que razão o seu cocó pode, literalmente, salvar vidas.
Já pode ser dador de fezes
Pode estar sentado, por assim dizer, sobre um recurso muito valioso que os cientistas adorariam ter nas mãos: o seu cocó. Para além de sangue, plasma e órgãos, já pode doar amostras fecais a bancos de fezes para investigação e utilização em transplantes.
Um cientista da University of New South Wales Sydney (UNSW Sydney) escreveu um anúncio de utilidade pública para sensibilizar para o aparecimento e a importância dos bancos de fezes, algo em que investigadores e instituições médicas de todo o mundo também estão agora a trabalhar.
A ideia é utilizá-lo para transplantes de ‘cocó’, também conhecidos como transplante de microbiota fecal. É quando produtos derivados de fezes de dadores saudáveis são transplantados para outra pessoa para melhorar a sua saúde.
Explicou Nadeem O. Kaakoush, professor do Host-Microbiome Interactions Group na UNSW Sydney.
Até à data, existem estudos sobre a forma como o procedimento poderá beneficiar o tratamento de perturbações do espetro do autismo, perturbações do consumo de álcool, obesidade, melanoma e cancro.
Os transplantes também têm sido investigados como possíveis vias de tratamento para doenças inflamatórias intestinais e hepáticas, infeções urinárias de longa duração e muito mais. Mas os ensaios clínicos, e a investigação em geral, precisam de material para começar, e é aqui que pode entrar em ação.
Pense numa dádiva de cocó como doar um tipo diferente de ‘órgão’, o seu microbioma intestinal. Esta é a comunidade de microrganismos no seu intestino responsável por funções críticas no organismo, incluindo moldar o seu sistema imunitário e a forma como metaboliza os alimentos.
Disse Kaakoush.
Calma, não é um cocó qualquer, tem de ser um “excecional”
Verdade. Nem todas as amostras fecais são adequadas para utilização. A investigação científica continua a exigir que cumpram critérios de inclusão e exclusão e, para que sejam apropriadas para tratamento médico, têm de ser “excecionais” em termos de segurança e qualidade. E, tendo em conta o seu prazo de validade, por assim dizer, é geralmente necessário viver a uma determinada distância de um banco de fezes para poder doar.
Os dadores são submetidos a uma extensa triagem médica antes de serem selecionados. Quando transplantamos fezes, queremos garantir que o dador está livre de vírus transmitidos pelo sangue (como o VIH ou a hepatite).
Também queremos garantir que as suas fezes estão livres de parasitas e de vírus e bactérias causadores de doença (como Clostridioides difficile), bem como de determinadas bactérias resistentes a antibióticos.
Para complicar, é esperado um compromisso de doação consistente. Todas estas restrições reduzem rapidamente o número de dadores que conseguimos recrutar.
Afirmou Kaakoush.
Nos EUA já se salvam americanos com este tipo de transplante
Nos Estados Unidos, os transplantes de microbiota fecal (FMT) são uma área da medicina em rápido crescimento e a procura de dadores é elevada.
Em 2022, a Food and Drug Administration (FDA) aprovou o primeiro produto comercial de FMT, o RBX2660 (Rebyota), para a prevenção de infeção recorrente por C. difficile (CDI) em adultos.
Num ensaio de Fase 3, o RBX2660 foi significativamente mais eficaz do que o placebo na prevenção de CDI recorrente (70,6% de sucesso contra 57,5%).
No ano seguinte, a FDA aprovou o SER-109 (Vowst), o primeiro produto oral comercial de FMT para CDI recorrente. Em doentes com três ou mais episódios de CDI num ano, o medicamento levou a uma taxa de recorrência inferior ao fim de apenas oito semanas, em comparação com o placebo (12,4% contra 39,8%).
Existem na sociedade pessoas, que os cientistas identificaram ser superdadores, pessoas cuja qualidade fecal é de tal forma elevada,
Além de poder salvar alguém, o dador pode saber mais sobre a sua “vida”
Atualmente, existem centros especializados em fezes por todo o país, entre eles, o OpenBiome, o Children’s Hospital of Philadelphia (CHOP), que recolhe amostras de pessoas até aos 21 anos para tratar doenças pediátricas.
Existe também a GoodNature, uma entidade que chega mesmo a ter um programa que oferece até 1500 dólares (cerca de 1380 euros) por mês a dadores elegíveis que consigam fornecer amostras que correspondam aos critérios.
Pode estar a salvar a vida de alguém, ou pelo menos a melhorar significativamente a sua qualidade de vida. É provável que a sua dádiva venha a tratar alguém com infeção recorrente por C. difficile. Caso contrário, será utilizada num ensaio clínico ou estudo para tratar outra condição médica importante.
Ainda estamos longe de conseguir replicar toda a comunidade microbiana intestinal em laboratório. Por isso, temos de depender de produtos microbianos vivos feitos a partir de fezes doadas, à medida que a investigação passa da bancada de laboratório para a clínica.
Concluiu Kaakoush.
Nos últimos anos, os cientistas identificaram que, entre nós, circulam alguns superdadores, pessoas cuja qualidade fecal é de tal forma elevada, em termos de sucesso dos transplantes, que é extremamente valorizada.
Os investigadores esperam que dar maior visibilidade aos bancos de fezes ajude a descobrir mais membros do público cujo cocó “vale” muito mais do que se poderia imaginar.