Os testemunhos e até uma experiência muito pessoal dão conta de uma coisa: é um desligar por completo. Mas estaremos apenas a adormecer ou a entrar numa espécie de coma? Um novo estudo lança luz sobre o que a anestesia faz ao cérebro.
Há dias só me lembro de ouvir o anestesista a dizer “vai agora dormir um bocadinho”. E… apaguei! Ouvia as pessoas descreverem frequentemente a anestesia como algo que coloca o paciente num “sono profundo”.
Um anestesiologista entra na sala de operações e parte da sua missão é garantir que o paciente fica completamente inconsciente do que acontece à sua volta até acordar, muitas vezes várias horas depois.
Cientistas e médicos debatem há muito tempo o que acontece ao cérebro sob o efeito de fármacos anestésicos durante um procedimento cirúrgico.
Um novo estudo dos departamentos de anestesiologia e neurologia da Yale School of Medicine, publicado na Proceedings of the National Academy of Sciences, revela novas perspetivas que poderão mudar a forma como descrevemos o estado de anestesia.
O estudo revela que estar anestesiado pode ser mais do que simplesmente ser “posto a dormir”. Pode até apresentar mais semelhanças com um coma do que se pensava inicialmente.
Investigação procurou perceber os efeitos no cérebro
Janna Helfrich é professora de anestesiologia e autora principal do estudo. A sua equipa explorou como a anestesia e o controlo da dor podem ser redesenhados para limitar efeitos a longo prazo na cognição e no comportamento após procedimentos médicos, como cirurgias.
O cérebro desempenha um papel importante em manter os pacientes seguros e confortáveis durante a cirurgia, mas normalmente não é monitorizado quando alguém está sob anestesia. Atualmente, a maioria das cirurgias decorre sem monitorização cerebral, porque tradicionalmente não existia uma forma eficiente de acompanhar essa parte do corpo.
Surpreendentemente, fazemos anestesia há mais de 150 anos, mas só recentemente começámos a medir o cérebro.
Antes disso, [medíamos] a pressão arterial, a frequência cardíaca, os níveis de oxigénio, talvez observássemos as pupilas dos pacientes. Mas [medir] o cérebro, ainda hoje, não é o padrão de cuidados. O que considero realmente estranho, porque esse é efetivamente o local de ação de todos os medicamentos que o paciente recebe, sejam analgésicos ou os próprios anestésicos.
Afirmou Janna Helfrich, quando questionada sobre o que inspirou esta investigação.
“Surpreendentemente, praticamos anestesia há mais de 150 anos, mas só recentemente começamos a medir o cérebro.” | Janna D Helfrich
EEG revelou padrões diferentes do sono normal
Os investigadores estudaram registos de ondas cerebrais de pacientes sedados com propofol, um tipo comum de anestésico utilizado em cirurgias. Utilizaram um método chamado eletroencefalografia (EEG), que envolve a colocação de elétrodos no couro cabeludo. Estes discos registam a atividade cerebral durante a anestesia.
A equipa comparou depois esses registos com atividade cerebral de pacientes em diferentes estados de consciência, incluindo sono profundo, sono REM, coma e estado normal de vigília.
Em vez de limitar o exame apenas à parte frontal da cabeça, que é o habitual, realizámos um EEG completo, usando 20 elétrodos. Assim, obtivemos informação da frente, dos lados e da parte posterior da cabeça.
Explicou a autora do estudo.
As conclusões desafiam a crença generalizada de que a anestesia é simplesmente um sono profundo. A realidade é mais complexa, já que o cérebro anestesiado pode entrar em vários estados.
Alguns assemelham-se ao sono, enquanto outros são mais parecidos com um coma. A anestesia produz um padrão de atividade cerebral diferente de qualquer outro estado de consciência.
Anestesia pode aproximar-se de um coma
A professora de anestesiologia e a sua equipa pretendem compreender as nuances da anestesia e a forma como afeta o cérebro durante uma cirurgia.
A velha dicotomia de que é sono ou coma não é verdadeira. Na realidade, é simultaneamente sono e coma, podendo ser semelhante a ambos os estados ao mesmo tempo, dependendo da zona observada. E, ainda assim, existe também um elemento que é exclusivamente da anestesia.
Afirmou Helfrich.
Quando os médicos colocam alguém sob anestesia profunda, o paciente pode desenvolver problemas após a cirurgia, algo mais comum em adultos mais velhos e em pessoas com condições médicas pré-existentes. Estes problemas podem afetar funções cognitivas e provocar défices de memória após a operação.
Esta investigação destaca a necessidade de ajustar cuidadosamente a dose de anestesia, evitando colocar o paciente num estado semelhante ao coma. O objetivo dos clínicos é ajudar o paciente anestesiado a aproximar-se o mais possível de um estado natural semelhante ao sono.
As conclusões deste estudo desafiam a crença generalizada de que a anestesia é simplesmente um sono profundo. A realidade é mais complexa, pois o cérebro anestesiado pode entrar em vários estados.
Futuro passa por anestesia mais próxima do sono
No futuro, Helfrich e a sua equipa esperam que este estudo ajude a melhorar a forma como os médicos monitorizam o cérebro e o estado geral de saúde durante a anestesia. Investigações futuras poderão ajudar os clínicos a orientar o cérebro anestesiado para um estado semelhante ao sono, em vez de um estado semelhante ao coma.
Como sabemos, o sono tem inúmeros benefícios. Reabastece cognitivamente, ajuda o sistema imunitário e o metabolismo. Por isso, imagino que haverá uma forma de ajustar ligeiramente a anestesia, afastando-a do coma e aproximando-a do sono, para aliviar alguns dos efeitos secundários.
Concluiu Janna Helfrich.
A saúde geral do paciente antes, durante e após a cirurgia continua a ser a principal prioridade de qualquer profissional de saúde.
A monitorização do cérebro ajudará os anestesiologistas a adaptar os cuidados a cada paciente e poderá permitir mais benefícios relacionados com o sono durante a cirurgia.