Num mundo onde os dados são o novo petróleo e a dependência de gigantes tecnológicos estrangeiros pode ser um risco de segurança nacional, surge uma questão fundamental: quão “donos” somos da nossa própria tecnologia? Será o Software Livre a nossa maior arma?
Um estudo recente da Art Resilia revela um cenário curioso, apelidado de “O Paradoxo do Software“. Se por um lado a conquista da independência tecnológica, com a forte adopção de soluções Open Source, é um cenário bastante positivo, por outro, estamos “perigosamente” dependentes de soluções proprietárias externas.
O Trunfo Nacional: 72,5% de Software Livre
A análise, no que diz respeito à adopção de soluções de cibersegurança revela que 72,5% das tecnologias expostas à internet em Portugal são Open Source. Este não é apenas um número interessante; é, sem dúvida, um pilar de autonomia.
Por que é que isto é bom para Portugal?
- Controlo Total
- Em cenários extremos, o acesso ao código fonte permite manter os sistemas a funcionar, independentemente de bloqueios externos.
- Poupança Real
- Sem custos de licenciamento astronómicos, o Estado e as empresas podem investir esse capital em inovação interna.
- Transparência e Segurança
- Muitos olhos fazem todos os erros leves. O código aberto permite auditorias constantes para encontrar falhas de segurança mais depressa.
O Lado Negro: A Dependência Externa
Se o Open Source nos dá esperança, os restantes 27,5% de software proprietário são motivo de preocupação. O problema não é apenas o software ser fechado, mas sim de onde ele vem.
Os dados são claros e até alarmantes:
- Apenas 0,1% do software proprietário usado em infraestruturas críticas é de empresas portuguesas.
- Apenas 17,5% tem origem europeia.
- 82,4% vêm do “Resto do Mundo” (RoW).
Quais os riscos desta dependência?
Esta concentração fora da Europa coloca Portugal numa posição vulnerável. Ficamos sujeitos a sanções económicas de terceiros, alterações repentinas de preços e, no limite, a riscos de espionagem ou sabotagem através de “portas traseiras” em software que não controlamos. Além disso, é um “sorvedouro” de capital que sai do país sem criar emprego ou propriedade intelectual local.
Portugal tem uma base sólida no software livre, o que nos confere uma resiliência inesperada. No entanto, a dependência de soluções proprietárias estrangeiras para funções críticas é um calcanhar de Aquiles que precisa de uma estratégia nacional séria.
A autonomia digital não é apenas um conceito teórico; é a garantia de que, num mundo instável, os nossos sistemas continuam a funcionar e os nossos dados permanecem protegidos.