Ladrão apanhado através de um sistema que segue milhões de telemóveis
A detenção de um suspeito de assaltos a tabacarias em Tucson, nos EUA, trouxe para o centro do debate uma realidade desconfortável: a localização de milhões de utilizadores de telemóveis pode ser comprada e explorada sem controlo judicial direto.

Como a polícia chegou ao suspeito
O caso começou com uma sequência de roubos à mesma cadeia de lojas. Em vez de recorrer a métodos tradicionais, como mandados ou escutas, as autoridades analisaram dados de geolocalização de dispositivos móveis presentes nas imediações dos crimes.
Entre centenas de sinais, um destacou-se: o mesmo telemóvel surgia repetidamente nos locais e horários dos assaltos. A partir daí, foi possível traçar o percurso do dispositivo até à residência do proprietário, que acabou por ser identificado e detido.
Um detalhe adicional reforçou as suspeitas: o indivíduo tinha uma ligação pessoal a uma funcionária da primeira loja assaltada.
A tecnologia por detrás da vigilância
O serviço utilizado, conhecido como Webloc, foi desenvolvido pela Cobweb Technologies e integra atualmente a oferta da Penlink, após a aquisição em 2023.
Este sistema baseia-se em dados recolhidos através de aplicações móveis e redes de publicidade digital. Sempre que uma aplicação solicita acesso à localização, muitas vezes para fins publicitários, essa informação pode ser agregada e revendida.
Segundo investigações citadas por plataformas como Lawfare e Boing Boing, o Webloc terá acesso a dados provenientes de cerca de 500 milhões de dispositivos em todo o mundo.

O serviço referido é o Webloc, um produto de vigilância baseado em tecnologia usada na publicitade mostrada nos dispositivos móveis, cujos proprietários afirmam recolher dados de cerca de 500 milhões de telemóveis em todo o planeta.
Precisão e escala: um rastreio invisível
Documentos técnicos divulgados recentemente indicam que a ferramenta consegue rastrear um utilizador várias vezes por dia. Num caso analisado, um indivíduo em Abu Dhabi foi localizado até 12 vezes num único dia, através de sinais GPS e ligações Wi-Fi.
Além disso, o sistema demonstrou capacidade para identificar dispositivos específicos em locais concretos na Europa, incluindo Roménia e Itália, com elevada precisão temporal.
Apesar de os dados serem frequentemente classificados como “anónimos”, a combinação com outras fontes, redes sociais, contas online ou padrões de deslocação, permite, na prática, associá-los a pessoas reais.

Um ecossistema de vigilância acessível
O Webloc funciona como complemento ao Tangles, outro produto da Penlink, que já recolhe informação de redes sociais e serviços digitais. Em conjunto, criam um retrato detalhado da atividade de um indivíduo, tanto no mundo físico como no digital.
O ponto mais crítico não é apenas o uso por autoridades sem supervisão judicial clara. É, sobretudo, a facilidade de acesso: serviços semelhantes podem estar disponíveis mediante simples subscrição, por valores relativamente baixos.
Privacidade em risco
Este caso evidencia uma mudança estrutural na forma como a vigilância é feita. Não depende apenas de governos ou agências de segurança, tornou-se um mercado.
Os dados que alimentam este sistema são gerados diariamente pelos próprios utilizadores, muitas vezes sem consciência do alcance da partilha. Aplicações aparentemente inofensivas podem estar a contribuir para um ecossistema onde a localização pessoal se transforma num produto.
A fronteira entre segurança e privacidade torna-se, assim, cada vez mais ténue, e o controlo sobre os nossos próprios dados, progressivamente mais difuso. Os telemóveis sabem muito mais de nós do que nós mesmos!


















A polícia não precisa de usar esses serviços
Muito bem!
Com esta notícia acabaram de informar a gatunagem para não levarem telemóvel quando estiverem a “trabalhar”!
Depois, queixem-se por terem sido roubados e não conseguirem apanhar ninguém.
Só estão a ajudar esta malta.
Parece as notícias sobre os alertas do tempo quente e seco com maior probabilidade de incêndios.
Com isso, informam os possíveis incendiários do melhor momento para actuarem!
É este o preço do sensacionalismo dos media!
Há pessoas, como tu, com uma capacidade de avaliação muito fraquinha, cuncaneco! Quer dizer, para os criminosos não saberem que podem ser filmados, vamos então ocultar as câmaras de segurança. Não se pode informar as pessoas sobre os dispositivos de segurança, das capacidades de defesa nem de outros sistemas de proteção. Cada ideia mais disparatada…
Mas, neste caso, não se tratam de dispositivos de segurança preventiva.
Isto são métodos de investigação. E, esses métodos para serem mais eficazes não deveriam ser divulgados!
Mas por que razão não podem ser divulgados se estão a usurpar a privacidade de quem não tem nada a ver com o caso nem está no foco da justiça? É lícito invadir a privacidade do utilizador? Não, não é lícito. Portanto, este método não está em conformidade, não é de todo um método de investigação ao serviço da justiça, mas sim ao serviço de mercenários, os que queiram pagar para ter acesso. Claro que se deve divulgar este abuso de poder. É crime o que fazem.
+1000
Por isso é que eu voltei a instalar o telefone preto de disco cá em casa. Telemovel gaveta. Ah, e o saco de batatas fritas na cabeça cada vez que saio de casa. A mim não me apanham…
Heheheh exatamente 😀 mas há muitos assim, ninguém dá como eles porque estão disfarçados de poste. 😀
Não é preciso o ladrão estar preocupado. Está em uma cidade gerida por um Democrata (a esquerda nos EUA), em um Estado Democrata, o que basicamente significa ser a via verde para os criminosos fazerem o que lhes apetecer sem consequências sérias (por vezes sem qualquer consequência).
Sim, uau, identificaram-no, agora conhecem-no, podem dizer-lhe olá quando passarem por ele, enquanto ele vai provocar prejuízos a mais pessoas.
Quanto a terem utilizado uma base de dados da dita empresa, por vezes é verdade, mas mais provável é que tenham aparelhos “Stingray phone tracker” espalhados pela cidade, que depois verificam os registos para ver se aparecem aparelhos com o mesmo identificador “IMSI”(international mobile subscriber identity), e a seguir tentam arranjar um método paralelo para não revelar que andam a seguir toda a gente, já que as pessoas não apreciam muito a falta de privacidade (bom, algumas, pelo menos).
Cala m-te com essa conversa de democrata. Ate parece que isso so acontece nesses estados. Santa paciencia, que obcecados
Pronto lá vem a esquerda e direita.
Vocês e as fações. Isso já é fanatismo.
Creio que já era possível já no tempo dos telemóveis sem GPS através da triangulação de rede.
Claro que era, o GPS é só um extra. Pelas triangulações dá para ter uma precisão com poucos metros de erro, não dá para conduzir, mas para este tipo de investigações é usado desde que há telemóveis.
Décadas disto, privacidade nunca foi um dos requisitos na criação dos sistemas descritos nesta publicação. Não é defeito é feitio e em geral os estados estão bastante confortáveis com o estado desta salgalhada, alguns até querem mais. Novidades? Zero.
Esse é mesmo principiante, até eu sei que não se leva um telemóvel para um assalto, no máximo um descartável.
O perigoso bandido furtava – única e exclusivamente – cigarros. Ficamos à espera que as autoridades usem o mesmo desvelo investigativo para encontrar bandidos a sério (ou não, porque não levam os smartphones).